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Cinema

- Publicada em 12 de Janeiro de 2017 às 22:29

Cidadão Blake

O espaço reservado pelo cinema à crítica social não tem sido ocupado de forma correta nos últimos anos. De um modo geral, o pensamento crítico tem sido anulado por propostas ingênuas, reducionistas, maniqueístas e panfletárias, sem esquecer manifestações de descontrole e mostras de imaturidade. Mas não é o que acontece neste Eu, Daniel Blake, o mais recente trabalho de Kenneth Loach, mais um cineasta octogenário em atividade. O filme, uma coprodução de britânicos e franceses e que tem entre os apoiadores o setor de cinema da BBC e o British Film Institute (BFI), é obra notável, que faz lembrar, pela proposta e pela execução, grandes títulos do passado, além de se constituir em exemplo vigoroso de que a inconformidade diante de distorções e injustiças ainda é um instrumento poderoso, quando manipulado de forma criativa e inteligente.
O espaço reservado pelo cinema à crítica social não tem sido ocupado de forma correta nos últimos anos. De um modo geral, o pensamento crítico tem sido anulado por propostas ingênuas, reducionistas, maniqueístas e panfletárias, sem esquecer manifestações de descontrole e mostras de imaturidade. Mas não é o que acontece neste Eu, Daniel Blake, o mais recente trabalho de Kenneth Loach, mais um cineasta octogenário em atividade. O filme, uma coprodução de britânicos e franceses e que tem entre os apoiadores o setor de cinema da BBC e o British Film Institute (BFI), é obra notável, que faz lembrar, pela proposta e pela execução, grandes títulos do passado, além de se constituir em exemplo vigoroso de que a inconformidade diante de distorções e injustiças ainda é um instrumento poderoso, quando manipulado de forma criativa e inteligente.
O diretor, que já havia anunciado a aposentadoria, mudou de ideia, ganhou com este filme a Palma de Ouro em Cannes, tem recebido elogios e parece também ter sensibilizado boa parte do público, aquela ainda não contaminada pela mediocridade e por apelos à vulgaridade. Loach, que em Terra e liberdade denunciou os crimes stalinistas durante a Guerra Civil Espanhola, e que em Ventos da liberdade mostrou que as complexidades humanas atuam mesmo durante batalhas por causas justas, acompanha agora a penosa trajetória de um indivíduo perseguido por uma burocracia que transforma seres humanos em simples peças. O universo kafkiano focalizado pelo cineasta é revelado de forma contundente pelo fato de Loach adotar a mais correta das visões sobre tal tema: a que dá ênfase ao sofrimento do homem transformado em objeto, forma que dispensa as simplificações e também é a mais vigorosa de todas.
É raro, nos dias hoje, a tela do cinema ser ocupada por obras que resgatem as propostas de filmes como O preço de uma vida, que o americano Edward Dmytryk realizou na Inglaterra, e Aquele que deve morrer, uma produção francesa realizada por outro americano, Jules Dassin. Mas Eu, Daniel Blake não deriva apenas dessas duas obras. Ele se aproxima do espírito que formava filmes como Ladrões de bicicletas, inclusive por em determinada cena um adulto ser salvo do desespero por uma criança, e Umberto D, ambos de Vittorio De Sica. E há também o recurso de utilizar a palavra como forma de sintetizar e reforçar o sentido que antes em imagens e situações havia sido mostrado. Em Loach tal recurso é utilizado de forma a acentuar ainda mais a dramaticidade dos fatos narrados, sem que haja deformações na encenação.
Este foi o recurso utilizado por Chaplin no final de O grande ditador; por Frank Capra, em Adorável vagabundo; e por William Wellman, na comovente carta lida no final de Consciências mortas. Realizado a partir de um roteiro de Paul Laverty, habitual colaborador do cineasta, o filme se enriquece na aproximação com as obras citadas e sem qualquer dúvida reforça o papel que elas tiveram no desenvolvimento e aprimoramento do cinema dito social e que talvez tenha em Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti, o momento mais alto.
Loach cultiva um estilo no qual um dos objetivos parece ser ocultar a presença da câmera. Ele dirige seus intérpretes de forma a evitar o que se chama de interpretação. Tudo parece focalizado na realidade, como num documentário. E o documentário, como se sabe, é um dos pilares do cinema, além de ter sido o gênero no qual os britânicos, nos anos 1930, em movimento liderado por John Grierson e no qual Alberto Cavalcanti foi figura proeminente, se destacaram em processo criador então inédito. Tudo isso está presente no filme de Loach, que, mais do que um crítico, é um humanista. Ele lembra que qualquer processo no qual o ser humano é retirado do pedestal passa a ser comandado por leis que deveriam ser imediatamente abolidas. Como o mundo parece distante de tal realidade, algo que qualquer espectador poderá verificar, filmes como este, mais do que exemplos de dignidade, continuarão a ser obras necessárias. O novo filme de Ken Loach é mais um a enobrecer o cinema.
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