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Porto Alegre, terça-feira, 27 de dezembro de 2016. Atualizado às 11h54.

Jornal do Comércio

Economia

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Tecnologia

Notícia da edição impressa de 27/12/2016. Alterada em 26/12 às 20h55min

Juro é incompatível com inovação

Players enfrentam dificuldades quando buscam recursos no mercado para novos projetos, diz Abes

Players enfrentam dificuldades quando buscam recursos no mercado para novos projetos, diz Abes


JUSTIN SULLIVAN/AFP/JC
Patricia Knebel
Falta de recursos para fomentar a inovação, juros altos, complexidade e baixa qualidade do atendimento prestado pelos bancos. Esse é o cenário atual que os players de tecnologia enfrentam quando buscam apoio financeiro para novos projetos, aponta uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes).
Foram ouvidas quase 200 companhias entre setembro e outubro desse ano, um trabalho que contou com a parceria de diversas entidades regionais - no Rio Grande do Sul, a Softsul e o Tecnopuc. O objetivo foi entender melhor o cenário do acesso a financiamento bancário entre empresas do setor de tecnologia e descobrir como essas companhias têm se refinanciado no mercado brasileiro.
Os resultados não são nada animadores. "Ficamos perplexos com as taxas que as instituições estão praticando e, ainda assim, não oferecem um bom atendimento", observa a diretora de Inovação e Fomento da Abes, Jamile Sabatini Marques.
O alto custo dos juros bancários é a principal restrição relevante enfrentada no acesso ao crédito nos bancos comerciais para 61,33% dos entrevistados. Quando perguntados sobre a taxa de juros total, 47% disseram pagar entre 0% a 20% ao ano e 53% pagam de 20% a mais de 50% ao ano.
Como os bancos precisam ter a certeza de que o dinheiro emprestado vai voltar, os juros nos casos da inovação acabam sendo extremamente altos, pois já têm embutido o risco para a instituição financeira. Isso acontece, especialmente quando se trata das operações de menor porte, afirma o presidente da Federação Nacional das Empresas de Informática (Fenainfo) e diretor financeiro do Seprorgs - plataforma de negócios e representatividade para as empresas de TI do Rio Grande do Sul - Edgar Serrano. "Pequenos negócios com boas ideias dificilmente tem vez", relata.
O cenário já foi melhor para o Brasil. Há alguns anos, os montantes disponíveis para se investir em inovação no País eram mais altos. Agora, além de terem rareados, são pouco divulgados pelas instituições. Serrano observa que, mesmo quando não faltavam recursos, os agentes que financiam a inovação, inclusive a Finep e o Bndes, acabavam dando preferência para os players tradicionais. Tudo para não correr riscos. "Não existe uma política de incentivo à inovação de fato no Brasil. Os agentes se sentem mais seguros se a empresa é forte, tem boa estrutura e gestores preparados", comenta.
Diante dessa realidade, o que as operações de menor porte podem fazer para conseguir inovar? Uma das saídas é buscar investidores privados, praticamente um sócio. "O brasileiro gosta de ser dono do seu próprio negócio, mas vai ter que aprender a cooperar. Essa é a saída", projeta.
O presidente recém eleito da Associação das Empresas Brasileiras de TI (Assespro-RS), Alex Hermann, vê outro movimento acontecendo. Como a morosidade dos processos no Brasil muitas vezes inviabiliza a inovação, empresários gaúchos estão criando startups para agilizar os novos desenvolvimentos. "É um modelo em que eles montam uma nova estrutura, testam, validam fora e, se der certo, levam como uma solução comercial dentro da empresa", exemplifica.

Cigam destaca importância de apoio para alavancar negócios

Uma das empresas gaúchas de TI que costuma ser bem-sucedida na busca por recursos para a inovação é a Cigam, fornecedora de software de gestão empresarial. Em 2011, a operação conseguiu recursos de subvenção da Finep para o desenvolvimento do seu sistema de gestão mobile. No total, foram investidos
R$ 2,1 milhões, metade disso com recursos de subvenção.
"O fato de estar inovando agrega valor para a operação como um todo e leva a um incremento dos negócios. Em 2012, crescemos 32%, boa parte reflexo dos diferenciais que implementamos no nosso produto", relata o CEO da Cigam, Robinson Klein. Três anos depois, em 2014, o player buscou financiamento de R$ 4 milhões junto ao Bndes. De acordo com o executivo, a taxa de juros estava boa, cerca de 6% ao ano. "A realidade hoje em dia é outra e essa taxa agora seria cerca de três vezes mais cara", admite.
No total, o Cigam 11, nova versão do ERP, recebeu R$ 7 milhões. O lançamento para o mercado será feito em breve e Klein lembra que não foi fácil o caminho que levou a empresa até esses recursos. Foram cerca de 12 meses desenvolvendo o projeto e cumprindo com todas as burocracias necessárias. A aprovação aconteceu em 2014 e a primeira parcela dos recursos chegou apenas em 2015. "Poucas companhias têm condições de esperar um ano para conseguir dinheiro para inovação", observa. Para ele, o Brasil precisa rever os seus modelos de financiamento para projetos diferenciados.

Dificuldade com garantias é maior para as pequenas

Além dos altos juros, a exigência de garantias reais ficou em segundo lugar (46,67%) na lista das principais restrições enfrentadas para ter acesso ao crédito pelas operações de TI, seguida da burocracia (33,15%). Entre as garantias de pagamento apontadas no estudo estão: aval pessoal (50%); caução de recebíveis de clientes (47,83%), fiança bancária (26,63%) e garantia real (23,37%).
A técnica de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Graziela Ferrero Zucoloto, comenta que a questão das garantias afeta, especialmente, as pequenas empresas. Mas, não é muito simples de ser resolvida. "Instituições como o Bndes precisam agir conforme as regras que são impostas e não podem abrir mão de garantia. É um problema sistêmico."
A pesquisa realizada pela Abes mostra outras nuances quando o assunto é a inovação. Entre as principais fontes de apoio público adotadas nos últimos quatro anos pelos players de tecnologia estão o cartão Bndes, que foi o mais citado (16%) seguido das Instituições Financeiras de Desenvolvimento (IFDs) regionais (12%). Cerca de 40% da amostra afirmou que já tiveram algum apoio público - 27% acessaram algum produto do Bndes, sendo que sete das companhias respondentes utilizaram o Prosoft e 11 a Linha MPME Inovadora.
A complexidade é outro fator importante a ser considerado. A diretora de Inovação e Fomento da Abes, Jamile Sabatini Marques, acredita que as linhas precisam ser mais transparentes, porque hoje as empresas acabam tendo que dispender muitos recursos para entender a legislação de inovação. "É importante ter simplicidade sobre como tudo vai funcionar para isso não gerar insegurança jurídica para as companhias", sugere. Os empresários também devem fazer o dever de casa e procurar entender melhor os caminhos que devem ser seguidos. Em linhas gerais, o estudo demonstra um descompasso entre as necessidades das empresas e as ofertas de linhas de fomento. "O setor de tecnologia cresceu em época de crise, empregou mais e aumentou a competitividade. É inovador na sua essência, gera desenvolvimento e precisa ser fomentado", defende.
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Comentários
Rafael 27/12/2016 12h39min
Temos uma série de questões: A inovação em outras partes do mundo é pouco financiada em bancos (maioria são capitalistas de risco); Inovação não é só TI (aliás a TI brasileira tem baixo fator de inovação), falta politica de que setores serão incentivados (eu sugeriria biotecnologia) e a forma de incentivo (debentures incentivadas seria uma opção). E finalmente: o derradeiro incentivo é DEMANDA DO MERCADO.