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Porto Alegre, sexta-feira, 18 de novembro de 2016. Atualizado às 18h19.

Jornal do Comércio

Geral

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Assistência social

Notícia da edição impressa de 18/11/2016. Alterada em 18/11 às 19h23min

Endereço: viaduto da Borges de Medeiros

Jorge Oliveira mora há dois anos na área inferior da escadaria

Jorge Oliveira mora há dois anos na área inferior da escadaria


FREDY VIEIRA/JC
Isabella Sander
"Quem mora na rua tem que ter boca de siri e orelha de elefante", resume Jorge Oliveira, de 32 anos. Vivendo nessa condição há 15 anos (sete em Sapucaia do Sul e oito em Porto Alegre), o guardador de carros trabalha, atualmente, cuidando e lavando os veículos estacionados ao lado do viaduto Otávio Rocha, na avenida Borges de Medeiros.
Oliveira é uma das dezenas de pessoas cujo CEP é a área coberta do viaduto, embaixo da escadaria, e está lá há dois anos. Entre elas, há, segundo ele mesmo, ladrões, traficantes e muitas pessoas honestas que apenas nunca tiveram uma oportunidade na vida. De qualquer forma, o guardador de carros revela que, quando se mora na rua, se ouve muita coisa. "Se ocorre assalto ou furto por aqui, eu não sei. Sou cego, surdo e mudo. Eu faço o meu trabalho", defende.
Perguntado sobre por que muitos pedestres preferem passar pelo viaduto no canteiro central, ao invés de caminhar embaixo da escadaria, Oliveira rejeita a possibilidade de medo de assalto. "Já houve épocas com muito assalto, mas agora parou. O problema mesmo é o preconceito das pessoas. Não querem chegar perto, reclamam do cheiro. Temos promotoras e advogadas que deixam o carro por aqui e têm mais afeto por nós, mas tem muita gente que não dá nem bom dia", afirma.
O trabalho como guardador e lavador de carros tem sido prejudicado pelo afastamento da população dos arredores do viaduto. Antigamente, Oliveira ganhava de R$ 100,00 a R$ 150,00 por dia apenas com as lavagens e algumas gorjetas que recebia. Hoje, o arrecadado não chega a R$ 70,00.
A denúncia em reportagem no Jornal do Comércio de quarta-feira feita por Auber Lopes de Almeida, que mora em um prédio próximo ao viaduto, de que flanelinhas da região estariam cobrando um mínimo de R$ 10,00 para cuidar dos veículos, é negada pelo profissional. "Não cobramos para vigiar os carros, apenas recebemos gorjetas voluntárias. Inclusive, informamos os motoristas de que há um parquímetro no local. Temos um valor fixo para lavar os automóveis, que vai de R$ 10,00 a R$ 25,00, quando é uma caminhonete", relata.
Oliveira conheceu sua esposa na rua, onde ela também vivia, há dois anos e meio. Hoje, a situação mudou: a esposa se aposentou e conseguiu uma casa para morar. "Eu sou bicho solto, não consigo parar em um só lugar, e ela sabe disso. Fico uma semana em casa e, depois, volto para a rua. Tenho tanto endereço, que os Correios não querem mais me mandar correspondência", admite, rindo.
Mesmo sem conseguir ficar muito tempo em um só lugar, o guardador de carros fala com carinho sobre suas duas filhas, de cinco e 11 anos, e sobre a família que deixou em Sapucaia do Sul. "Tenho duas mães, uma que me deu à luz e outra que me criou, um pai e três irmãs. A mais nova é a mais doce. Foi por causa da minha proximidade com elas que eu pedi para mim mesmo para ter só filha mulher", segreda.
Com 53 anos, a ex-empregada doméstica Maria Berenice Gonçalves montou uma verdadeira casa no espaço que ocupa, embaixo da escadaria. Espírita devota, fez um altar para Allan Kardec. "Passei quatro horas e meia arrumando tudo na noite passada. Tudo isto aqui é de Allan Kardec", destaca, orgulhosa.
Apesar de ter muitos problemas de saúde, Maria Berenice não se afasta de seus pertences no viaduto nem para procurar atendimento ou buscar medicamento. "Preciso de propranolol, Ômega 3, amoxicilina, dentadura, óculos e de um banho, mas não posso sair daqui, senão me roubam. Muita gente acha que tudo o que eu tenho é lixo, mas para mim tem muito valor. Esses dias eu estava dormindo e tentaram roubar meu cobertor e, antes, já tinham roubado R$ 2,00 meus", conta. Com os furtos, a ex-doméstica não tem conseguido juntar os R$ 15,00 necessários para ir a uma pensão ou motel e tomar banho.
Maria Berenice fica indignada com a existência de ladrões entre os moradores do viaduto Otávio Rocha e pede que a polícia apareça por lá. "Muitos pararam de dar dinheiro para nós por conta dessas pessoas erradas. Eu não tenho nada contra, temos que aceitar tudo, mas eles sofrerão as consequências. Não podemos pegar dos outros o que não é nosso, porque um dia Deus castiga."
A ex-doméstica está há um ano e meio vivendo nas ruas e cinco meses debaixo do viaduto. Chegou a essa situação depois de ser demitida da casa onde trabalhou por 13 anos. "Eles ficaram de me pagar, mas não pagaram. Eu poderia estar num apartamentinho de segunda por aí, se tivessem me pagado", lamenta.

População de rua reclama de descaso da prefeitura

O guardador de carros Jorge Oliveira reclama que só quem aparece no viaduto Otávio Rocha é a Brigada Militar e o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), e olhe lá. “O DMLU lava todas as noites a área descoberta em frente às lojas do viaduto e em cima da escadaria, mas raramente chega ao local onde dormimos. Aqui, só chegam uma vez por mês, ou nem isso”, observa. Funcionários da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) e da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) não são vistos no viaduto, afirma Oliveira.
O DMLU, por sua vez, diz que não é bem assim. Em nota, o setor de comunicação do departamento aponta que houve, sim, um período no qual as equipes de limpeza tinham dificuldade de lavar com a regularidade pretendida – um lado da calçada em um dia e o outro no dia seguinte. “Alguns moradores se recusavam a sair. Entretanto, após conversas com eles, temos conseguido convencê-los a trocar de calçada para que o serviço seja realizado”, afirma o texto.
Sobre a falta de atendimento sentida por Maria Berenice, o Consultório de Rua, que costumava atender a pessoas em situação de rua diretamente onde elas estão localizadas, nos últimos meses, não realizou muitas abordagens. As duas equipes do programa têm ficado em uma base no Centro de Saúde Santa Marta. A SMS está rediscutindo a existência de uma base e pretende, já no mês que vem, manter as equipes exclusivamente em suas unidades móveis, para ampliar as abordagens.
Quanto à ausência da Fasc, a fundação nega. Em nota, informou que dispõe de serviço de abordagem social em todas as regiões da cidade, através de 13 equipes conveniadas vinculadas aos nove Centros de Referência Especializada em Assistência Social (Creas). No Centro, o atendimento a pessoas em situação de rua acontece em horário estendido, das 8h30min às 21h, por equipes com assistentes sociais, psicólogos e educadores sociais.
No viaduto Otávio Rocha, pelo menos duas vezes por semana, ocorrem abordagens sociais, conforme a Fasc. O objetivo é sensibilizar a população de rua a acessar os serviços nos Centros Pop, albergues e abrigos, onde há atendimento social, alimentação e espaços para higiene. Além disso, são realizados encaminhamentos para outras políticas públicas, como articulações com a rede de saúde e habitação.
De acordo com a Fasc, o trabalho de abordagem social se desenvolve “através de um processo continuado de acompanhamentos individuais e/ou grupais. A partir do contato inicial com os indivíduos, a equipe realiza um processo de escuta da história de vida e situação apresentada pelo usuário, e deve ser complementada por contatos com a rede socioassistencial e familiar”. A partir disso, é construído um plano de intervenção e de acompanhamento entre o serviço de abordagem e o Programa de Atendimento à Família e ao Indivíduo.
Uma das reclamações mais frequentes é em relação à questão do aluguel social. Muitas pessoas reclamam que precisaram voltar para as ruas porque tiveram seus benefícios cortados - entre elas, há um consenso de que o benefício não existe mais. De acordo com o Departamento Municipal de Habitação (Demhab), o aluguel social continua em vigor. “Atualmente, estão aptos e recebendo regularmente o benefício do aluguel social Pop Rua 107 moradores de rua”, diz o Demhab.
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