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Porto Alegre, sexta-feira, 25 de novembro de 2016. Atualizado às 10h13.

Jornal do Comércio

Economia

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trabalho

Alterada em 25/11 às 11h14min

País perdeu quase 4 milhões de postos de trabalho em 2015, mostra IBGE

 enorme fila no Sine onde foram oferecidas  2 mil vagas para desempregados.

enorme fila no Sine onde foram oferecidas 2 mil vagas para desempregados.


/MARCELO G. RIBEIRO/JC
Em meio à recessão econômica, o mercado de trabalho mostrou deterioração ainda maior do que a imaginada no ano passado. O total de postos de trabalho eliminados alcançou 3,8 milhões, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (25).
Foi a primeira vez que houve queda no total de empregados no País, desde o início da série histórica da pesquisa, em 2004. A perda é muito mais aguda do que a mostrada pela Pnad Contínua, que substituirá definitivamente o levantamento anual já a partir deste ano.
À época da divulgação, a Pnad Contínua estimava a população ocupada em 92,2 milhões ao fim de 2015, 630 mil vagas a menos em relação a um ano antes. "Estamos falando de 2015, um ano em que vimos que os indicadores econômicos não foram muito favoráveis. A população ocupada caiu em todas as grandes regiões", lembrou Maria Lucia Vieira, gerente da Pnad no IBGE.
Na versão anual, dois setores foram os principais responsáveis pelo fechamento de vagas: a indústria, que explica a maior perda no número de ocupados no Sudeste, e a agricultura, que teve impacto especialmente no Nordeste. A agricultura perdeu 855 mil trabalhadores, enquanto a indústria dispensou mais de um milhão de funcionários. "Metade dessa queda na indústria ocorreu no Sudeste. Das demissões na agricultura, 700 mil foram no Nordeste", apontou Maria Lucia.
Na Região Sudeste, 1,403 milhão de pessoas perderam seus empregos. No Nordeste, outros 1,373 milhão de trabalhadores foram dispensados. "Foram 1,8 milhão de empregos com carteira assinada a menos, sendo 730 mil só no Sudeste", apontou a gerente da Pnad.
A dispensa de empregados incentivou ainda um aumento da informalidade. A proporção de pessoas trabalhando por conta própria cresceu de 21,4% em 2014 para 23,0% em 2015. Como consequência do avanço das demissões, houve aumento de 38,1% na fila de desempregados no País, o equivalente a 2,8 milhões de pessoas a mais. O total de desempregados chegou a 10,0 milhões de pessoas de 15 anos ou mais de idade em 2015.
A deterioração no mercado de trabalho mostra que em 2015, o País tinha 2,7 milhões de crianças e adolescentes trabalhando, uma redução de 659 mil em relação ao ano anterior. Entre a faixa das crianças mais novas houve aumento.
Segundo o instituto, com a crise no emprego, faltou trabalho para todas as faixas etárias, mas a mais penalizada foi a de adolescentes de 16 e 17 anos, sobretudo em áreas urbanas.
O levantamento mostra que 318 mil adolescentes de 16 e 17 anos deixaram de trabalhar. Outros 200 mil empregos foram perdidos entre jovens de 14 ou 15 anos. Na faixa de 10 a 13 anos, havia 151 mil crianças a menos trabalhando. A única faixa de idade com aumento foi de 5 a 9 anos: nove mil crianças a mais ocupadas.
Outro efeito da piora generalizada no emprego foi a redução na desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Não houve melhora na condição feminina, mas sim deterioração na condição masculina. A renda média mensal dos homens ocupados foi de R$ 2.058, contra R$ 1.567 das mulheres. O resultado significa que as mulheres receberam, em média, 76,1% do rendimento dos homens. No ano anterior, elas recebiam 74,5% do salário deles.

Renda encolheu 5,4% em 2015, a primeira queda em 11 anos

Com a recessão já avançada em 2015, o brasileiro ficou mais pobre. O rendimento médio de todas as fontes de renda encolheu 5,4% ano passado, em relação a 2014, já descontada a inflação. O rendimento médio ficou em R$ 1.845 por pessoa por mês, segundo a Pnad de 2015.
Todos os tipos de renda registraram queda em 2015. O rendimento do trabalho passou de R$ 1.950 para R$ 1.853, queda de 5% na passagem de 2014 para 2015. Também foi o primeiro recuo em termos reais em 11 anos. Já a renda média domiciliar caiu de R$ 3.443 para R$ 3.186, o equivalente a um corte de 7,5%. Todas as categorias do emprego registraram redução no rendimento médio mensal real do trabalho principal, especialmente os trabalhadores domésticos com carteira assinada (-3,1%).
A recessão começou no segundo trimestre de 2014, conforme o órgão da Fundação Getulio Vargas (FGV) que acompanha os ciclos da economia, mas o quadro piorou ano passado. O encolhimento na renda já vinha sendo captado em outras pesquisas do IBGE, mas a queda de 2015 foi a primeira na série da Pnad desde 2004.
Os mais pobres sentiram mais a retração da economia. Entre os 10% da população que têm os menores rendimentos (ganham em média apenas R$ 219 por mês), a queda foi maior, de 7,8%. Os 10% mais ricos (R$ 7.548 por mês) viram sua renda cair 6,6% em 2015 sobre 2014.
Quando se considera as demais faixas de renda, a metade da população que ganha melhor viu sua renda encolher mais do que a metade que ganha pior, segundo o IBGE. Com isso, a desigualdade de renda manteve trajetória de queda. O índice de Gini, que mede a concentração de renda, ficou em 0,491 em 2015, ante 0,497 em 2014 - a escala vai de 0 a 1; quanto mais perto de 1, mais concentrada a renda.
Como todas as classes sociais passaram a ganhar menos em 2015, não há motivos para comemorar esse tipo de queda na desigualdade. De acordo com a gerente da Pnad, Maria Lucia Vieira, a redução da concentração de renda é boa quando a situação fica "mais homogênea para todos".
"Quando todo mundo perde, fica pior para todo mundo. Piorou mais para todo mundo", disse Maria Lucia. "O que a gente quer é igualar todo mundo no melhor", completou a pesquisadora.
A Pnad é realizada pelo IBGE desde 1967, com o objetivo de produzir informações básicas para o estudo do desenvolvimento socioeconômico do País. O levantamento investiga características gerais da população e dados de educação, trabalho, rendimento e habitação. Em setembro de 2014 e setembro de 2015 foram visitados 151.189 mil domicílios em todo o Brasil.
Nos últimos anos, o IBGE vem se preparando para extinguir a versão anual da pesquisa. Desta vez, o órgão de estatísticas garantiu que o estudo divulgado nesta sexta-feira é o último - pesquisadores não foram a campo em 2016. Com isso, as informações socioeconômicas passaram a ser divulgadas a partir da Pnad Contínua.
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