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Porto Alegre, quinta-feira, 01 de dezembro de 2016. Atualizado às 21h14.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 02/12/2016. Alterada em 01/12 às 17h24min

O tempo e a memória

O canadense Denis Villeneuve ocupa, com inteira justiça, um lugar entre os melhores cineastas em atividade. Tal destaque é merecido depois que ele dirigiu Incêndios, magnífica e extremamente original variação em torno do tema edipiano, relacionando-o a acontecimentos diretamente ligados à realidade contemporânea. Mesmo que não tenha repetido o acerto daquele filme, sua obra seguinte não desfez o interesse por seu trabalho, sempre bem acima da média e orientado por um processo destinado a flagrar atitudes e comportamentos reveladores de aspectos nem sempre visíveis da natureza humana. Tanto em Os suspeitos como em Sicário tal característica é claramente exposta. Seu filme mais discutível, realizado entre os dois últimos citados, é O homem duplicado, inspirado por uma narrativa de José Saramago, no qual não foi resolvido o dilema que sempre é colocado diante de um cineasta quando realidade e fantasia se mesclam nas imagens. Porém, algumas figuras daquele filme de certa forma se assemelham às que vemos em A chegada, sem qualquer dúvida outro bom momento na filmografia do cineasta. E também é interessante ressaltar que o filme agora em cartaz registra, numa de suas cenas iniciais, uma aula sobre as origens da língua portuguesa, uma clara ligação com aquele filme, também voltado para a revelação de algo oculto. Não há dúvida alguma que estamos diante de um autor, um cineasta que a cada filme retoma os mesmos temas, sempre de forma inovadora.
A chegada é um relato ambicioso e que por pertencer à ficção-científica certamente terá de ser comparado ao momento máximo do gênero, 2001: uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, uma das obras maiores do cinema, em todos os tempos. Até hoje, ninguém conseguiu se aproximar daquele clássico e será difícil que no futuro alguém o supere. Mas os grandes modelos sempre serão referências e nada deve impedir que eles sejam seguidos e homenageados, até por se manterem como referências obrigatórias. Ao colocar a técnica em segundo plano e eleger o humano como elemento primordial, Villeneuve constrói um relato voltado para a personagem principal, convocada para tentar decifrar a linguagem de visitantes extraterrestres, espalhados por vários lugares da Terra. Desde o início do filme, no entanto, torna-se evidente que tudo que virá a seguir deverá ser a projeção da angustia e do sofrimento causados por uma perda. Na verdade duas, porque o filme tem sua estrutura básica criada a partir do tema da família desfeita, motivo condutor visto em outros filmes do cineasta. Não estamos aqui diante do pai impulsionado pela cólera, como em Os suspeitos, mas de uma mãe em busca do que parece irremediavelmente perdido. Mesclando passado e presente, a narrativa se aproxima daquele encontro do já vivido com o que está sendo vivenciado, o tempo unificado num bloco único, como as naves misteriosas que se colocam como um enigma a ser decifrado. Este é o grande desafio para qualquer diretor de cinema. Villeneuve não tem receio de aceitar a tarefa de transformar a memória em força capaz de criar uma nova realidade e o faz de maneira a não perturbar o andamento dos acontecimentos narrados.
Quando, num dos momentos da parte final, a voz da protagonista se dirige à filha falando do momento inicial do relacionamento do casal, algo que o filme vai aos poucos desenvolvendo durante todo o tempo, não é apenas um recomeço que o diretor quer mostrar. É algo mais profundo, pois está relacionado a um ciclo que não cessa, um movimento eterno. Algumas objeções certamente poderão ser feitas a alguns aspectos do filme. O realizador não consegue evitar alguns lugares-comuns em obras do gênero, como os noticiários de televisão com relatos do pouso das naves em vários pontos. E aquele encontro da linguista com o general chinês poderia ter sido evitado. E há também um toque de artificialismo na maneira como são mostrados os agentes, militares e civis, do governo americano. Até em tal procedimento Kubrick deixou lições. A imaginação e a fantasia têm seus direitos, mas o cotidiano necessita de veracidade, como bem sabem os que conhecem 2001. Mas este argumento não anula as evidentes virtudes do novo filme de Villeneuve.
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