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Porto Alegre, quinta-feira, 29 de setembro de 2016. Atualizado às 21h38.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

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Notícia da edição impressa de 30/09/2016. Alterada em 29/09 às 16h50min

Nós, as matrioskas de Caio Fernando Abreu

Pouco tempo depois da morte do escritor Caio Fernando Abreu, em 1996, estreava, em Porto Alegre, sob a direção de Luiz Arthur Nunes e interpretação-solo de Marcos Breda, a peça de sua autoria O homem e a mancha. O texto desta dramatização encontra-se editado em Teatro completo (Sulina, 1997).
Vinte anos passados da morte de Caio, a mesma dupla retoma o projeto, através de uma leitura dramática que, na verdade, é mais do que isso. A atual versão de O homem e a mancha é uma metaencenação, porque incorpora ao espetáculo imagens gravadas em vídeo daquela montagem de vinte anos atrás, tendo diretor e ator sentados, no palco, diante do público, o ator a ler seu texto, que inclui os múltiplos personagens de Ator, Miguel Quesada, Homem da Mancha, Dom Quixote e o Cavaleiro da Triste Figura; o diretor a ler as rubricas que, como se destacou, servem de guia para o diretor, mas normalmente não são apresentadas diretamente ao público (esta leitura também configura uma espécie de metaespetáculo, evidentemente).
Com cerca de hora e meia de duração, com a forte e inteligente ironia de Caio Fernando Abreu, temos em cena um Ator que se prepara para uma encenação a qual ele mesmo não sabe exatamente como identificar. Assim, surge a figura de Miguel Quesada, um homem que acaba de se aposentar e decidiu largar tudo e todos, frustrado, para viver em solidão. Mas ele tem algumas experiências de incorporação de outros personagens, como o Homem da Mancha, um esquizofrênico que caça uma invisível mancha que o persegue (sua identidade?); o demente e poético Dom Quixote (recriação do grande poema de Miguel de Cervantes) e, enfim, a decadência do Cavaleiro da Triste Figura.
Última criação de Caio Fernando Abreu (dedicada a Clarice Lispector), deve-se considerar este texto como uma espécie de legado do dramaturgo. Mais que isso: reflexão sobre sua própria situação, em particular, quando já estava diagnosticado com a Aids e esperava a morte; e, ao mesmo tempo, uma análise crítica do contexto histórico de então. O próprio Caio seria, de certo modo, este homem que se isola de tudo e todos, ainda que o escritor, no final da vida, tivesse retornado a Porto Alegre para reencontrar a família. Certamente sua condição de doente terminal o colocava em profunda e radical solidão, que é a experiência do personagem Miguel de Quesada: não obstante, ele reconhece (através do telefone), que é impossível cortar definitivamente as relações com o mundo e a realidade. O telefone sempre toca, como que a convocá-lo para a vida, a que ele não se pode furtar.
O dramaturgo valoriza suas utopias, aquelas que o levaram a desafiar o regime ditatorial, a assumir sua homossexualidade, a expressar-se com profunda sinceridade, escrevendo alguns dos textos mais emocionantes da moderna literatura brasileira dos anos 1970-1990. Transformado, sim, no Cavaleiro da Triste Figura, alquebrado, de certo modo derrotado (sabe que vai morrer), faz uma espécie de exame crítico da realidade: tudo isso cerca a criação deste texto, fragmentário e, ao mesmo tempo, profundamente denso e condensado, que fala do contexto brasileiro imediato e da própria condição humana, em seu sentido mais amplo.
Foram muitas as passagens emocionantes; foram inúmeras as tiradas cômicas e irônicas do texto; foram enormes as identificações, as memórias de outros textos de Caio; foram múltiplas, enfim, as referências a contextos de época. A peça voltou a ser apresentada no âmbito do Porto Alegre em Cena. O que vale a pena registrar é a atualidade e a expressividade do texto. Como naquelas bonecas russas, as matrioskas, o dramaturgo que, muitas vezes, explorou as potencialidades da paródia (como em "A maldição do Vale negro", talvez seu texto mais conhecido), aqui fez uma verdadeira transcriação: de dentro de cada personagem, idealizou um outro, e assim enriquece cada um deles, com o cruzamento das características dos demais. Marca da pós-modernidade? Certamente sim, mas, sobretudo, disponibilidade do artista que ele era: o escritor, como o ator, traz dentro dele outras figuras, suas matrioskas que, por seu lado, são nossas réplicas.
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