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Porto Alegre, quinta-feira, 21 de julho de 2016. Atualizado às 21h55.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 22/07/2016. Alterada em 21/07 às 16h26min

Refletindo sem discursividade

Conheço o diretor e dramaturgo Valter Sobreiro Júnior há muitas décadas, desde seus primeiros trabalhos com grupos estudantis e amadores em Pelotas. Há algum tempo, Sobreiro Júnior me havia enviado o texto de Pai-de-Deus para que eu o lesse e, agora, faz a estreia deste texto com um ator oriundo de Pelotas e que completa 50 anos de cena, Mauro Soares, e Bernardo Pawlak. O enredo de Pai-de-Deus se estrutura em duas partes, com cerca de uma hora total de encenação. Na primeira metade, o velho chamado Pai-de-Deus recebe a visita de um provável ex-torturado, dentro da cadeia política. Ele não pretende uma vingança, no sentido comum do termo, mas, como ele mesmo expressa, primeiro, confirmar sua identificação (a do velho); segundo, fazer com que o velho algoz experimente de sua própria tortura e, terceiro, que não fica explicitado, cabe ao espectador definir. Para tanto, é necessário assistir à segunda parte e tratar de ligar a ambas.
Sobreiro Júnior é, evidentemente, um poeta. Como dramaturgo, não gosta das coisas óbvias. Poderia escrever um texto que buscasse uma espécie de "acerto de contas", numa perspectiva de militância de esquerda, acusando aos torturadores do golpe pós-1964. Mas Sobreiro Júnior prefere "complexificar" a trama. O Velho é a figura central de ambas as cenas. Na primeira, aparece um ex-torturado. Mas para que a gente saiba quem ele é, precisa conhecer a segunda parte da trama. Pode ser aquele Alfredo, que havia dialogado com o filho do Velho, num restaurante qualquer. Então, podemos imaginar que este jovem que visita o Velho é aquele Alfredo. Sua vingança é estar permanentemente - eternamente - na memória-medo do Velho torturador.
Mas na segunda cena, outro rapaz chega à casa do Velho. Curiosamente, ambos os jovens chegam a descobrir o Velho a partir de cartas por ele enviadas e que o denunciavam. É como que, numa espécie de jogo de purgação, o torturador se sinta obrigado a se revelar, colocando-se à disposição de quem o possa executar, vingativamente. O jovem ex-torturado, depois de dominado pelo Velho, recupera-se mas longe de executá-lo, vai-se embora, lembrando ao Velho que ele jamais poderá, de fatio, matá-lo. Ele será uma espécie de presente contínuo a pressionar sua memória. Quanto ao segundo jovem, pretensamente filho do Velho, hoje um dependente químico, ao visitar o pai, também não está realizando uma ação de apoio ao pai, mas, sim, tentando um acerto de contas. O pai imagina que o jovem teria dado à mãe a arma (do pai) com que ela teria se suicidado. O filho, por seu lado, revela ter ido ao quarto da mãe para suicidar-se frente ao pai, mas na tentativa de ser impedido no gesto, pela mãe, a mesma acabara por se matar. O acerto de contas é feito diante do espectador, mas não exatamente entre pai e filho. O dramaturgo não pretende dar solução ao drama: prefere deixar a avaliação das situações ao espectador. A peça termina sem um fecho.
Mauro Soares que, habitualmente interpreta figuras complementares nas tramas dramáticas, vive, aqui, o papel central, contracenando com o jovem Bernardo Pawlak. Mauro passa profundo sentimento, ora de pânico, ora de medo, mas sobretudo, de solidão. É emocionante em sua interpretação. Pawlak, por seu lado, tem excelentes passagens, mas, às vezes, é um pouco mecânico, demasiadamente enfático, talvez pelo excesso de preocupação em "dar sentido" aos personagens que incorpora. Precisa deixar os personagens fluírem com maior naturalidade, que vai melhor convencer ao espectador.
A direção de Valter Sobreiro Junior, com assistência de Plínio Mosca, acentua as emoções, mas nem sempre foi capaz de distanciar-se do personagem para favorecer ao espectador. A ambientação cênica é minimalista, mas suficiente para o desenvolvimento da cena. A música incidental é suficientemente emotiva para captar a atenção e a emoção do espectador.
Em síntese, eis um espetáculo a se prestar atenção. Pelo texto, pela proposta apresentada, pelas interpretações, eis um momento de bom teatro e, sobretudo, de seriedade quanto à percepção da função da arte na sociedade: não se trata de discursar, mas, sim, de refletir e de sentir. É isso que Pai-de-Deus nos propõe.
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