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Porto Alegre, quinta-feira, 23 de junho de 2016. Atualizado às 11h41.

Jornal do Comércio

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Saúde

Notícia da edição impressa de 23/06/2016. Alterada em 23/06 às 11h41min

Restinga tem ação em prol de autodeclaração de raça

Pessoas foram fotografadas com placas dizendo com que cor se identificam

Pessoas foram fotografadas com placas dizendo com que cor se identificam


FREDY VIEIRA/JC
Isabella Sander
"Eu sou preto", afirmava com convicção Luiz Carlos da Rosa Lopes, de 57 anos. Morador da Restinga há mais de 30 anos, o funcionário dos Correios foi um dos participantes de uma ação de estímulo à autodeclaração de raça-cor em atendimentos em saúde realizada ontem na esplanada do bairro. A mobilização foi promovida pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Hoje, há subnotificação desse quesito nos dados colhidos, por exemplo, para a confecção do cartão do Sistema Único de Saúde (SUS). As informações contribuem para a qualificação do atendimento e a organização de políticas públicas.
Para Lopes, é importante não haver vergonha na hora de declarar sua raça. "Brasileiro é tudo misturado, ninguém é puro, mas a minha origem é africana. As pessoas se confundem na hora de dizer qual sua origem e acabam falando a cor que querem, e não a que são de fato", pontua.
A ação envolveu o registro de fotografias de pessoas com placas dizendo a cor com que se identificam - preto, branco, pardo, indígena ou amarelo. Durante todo o mês de junho, a gerência distrital Restinga Extremo-Sul também realizará encontros de formação com as equipes das unidades de saúde, a fim de sensibilizar os servidores sobre a importância de perguntar aos pacientes qual consideram sua raça-cor. O quesito raça-cor existe desde 2009 nas políticas de saúde.
O jardineiro Oni Matos Alves, de 52 anos, foi fotografado se autodeclarando indígena. "É difícil falar sobre a sua própria raça, mas é necessário se autodeclarar, porque pode fazer diferença no diagnóstico", observa. Em seu registro de nascimento, no entanto, Alves consta como branco.
O mesmo ocorreu com a aposentada Dejanira Correia da Conceição, de 63 anos. "Eu me considero parda, mas sou registrada como branca. Minha mãe era loira de olhos azuis e meu pai era negro, aí o dono do cartório onde foi feito o registro, que era primo-irmão da minha mãe, colocou que eu era branca e tirou os nomes do meu pai, só deixou o 'Conceição'", conta. O racismo fez com que a família materna rompesse relações com a mãe de Dejanira depois do casamento.
A aposentada considera o Brasil um "país de cínicos", que dizem não ter preconceito, mas têm. "Na minha casa, todo mundo diz que meu pai era moreninho, e não negro. Era vergonhoso antigamente se autodeclarar negro. É algo enraizado, que exige muita luta para mudar", comenta.

Como a minoria se declara negra, números são distorcidos

Segundo Márcia Noronha, coordenadora do Comitê da Saúde da População Negra da Restinga, a população negra é mais propensa a ter diabetes, hipertensão arterial, anemia falciforme, tuberculose e miomas. Além disso, há maior incidência de mortalidade materna, infantil, ausência em consultas pré-natal e são mais vítimas de homicídios.
A taxa de pessoas que se autodeclaram negras, contudo, é baixa. "Pelos números oficiais, apenas cerca de 30% da população da Restinga é negra e o resto é de brancos, mas esses são falsos dados, pois, se circularmos pelo bairro, veremos uma maioria negra", destaca Márcia.
Ainda há pouca consciência entre os servidores da saúde de que é necessário informar como o paciente se identifica, conforme a coordenadora. "Eles acham que não é necessário perguntar sobre a autodeclaração. Mas, se existe essa política, deve ser cumprida. Por que é normal perguntar a data de nascimento, mas não a raça-cor?", questiona.
De acordo com Luís Eduardo Nunes, assessor da área técnica da Saúde da População Negra, é preciso sensibilizar servidores e população sobre a vulnerabilidade da população negra. "No caso da mulher negra, por exemplo, quando chega grávida para atendimento, o profissional precisa ter um olhar diferenciado, pois há toda uma realidade diferenciada para o nascimento daquele bebê", explica.
O principal foco não é em doenças que atacam negros por motivos genéticos, e sim as que surgem por motivos sociais. "A criança negra entra na creche e já é vista de forma diferente do que a branca. É só andar pelo Centro de Porto Alegre que podemos ver que a maioria das pessoas em situação de vulnerabilidade social, morando na rua, é negra. Elas estão ali por conta de um descaso da sociedade, que as coloca em um estágio que causa transtornos mentais como alcoolismo e dependência de drogas", ressalta Nunes.
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