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Porto Alegre, quinta-feira, 14 de julho de 2016. Atualizado às 19h25.

Jornal do Comércio

Fórum Internacional de Resíduos Sólidos

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Inclusão social

Notícia da edição impressa de 15/07/2016. Alterada em 14/07 às 18h29min

Catadores lutam para construir seu próprio caminho

Nubia é catadora e recicladora, e tem muito orgulho de sua atividade, pois cria e transforma vidas com seu trabalho

Núbia Luiza Vargas dos Santos: catadora e recicladora, com muito orgulho


MARCELO G. RIBEIRO/JC
"Tudo o que está sendo discutido aqui eu sei na prática. O preconceito que a gente sofre é imenso, eu senti na pele e na alma. Nunca estudei para vir falar aqui, mas trago isso no coração." As palavras de Nubia Luisa Vargas dos Santos, que trabalha na triagem da Cooperativa de Educação Ambiental e Reciclagem (Cear) Sepé Tiaraju, em Porto Alegre, foram a deixa para que os catadores ganhassem voz no 7º Fórum Internacional de Resíduos Sólidos na Capital.
Durante o II Intercâmbio de Técnicas e Práticas de Gestão em Organizações de Catadores, que encerrou as atividades do evento, os profissionais que lidam diariamente com a coleta e separação de nosso lixo diário trouxeram suas experiências e soluções.
A Cear Sepé Tiaraju integra o programa Todos somos Porto Alegre, criado pela prefeitura da Capital em 2012. O projeto trabalha com a inclusão produtiva de carroceiros e carrinheiros, com cadastro de catadores e projetos de identificação e vínculo. Também estão envolvidos no projeto a reestruturação das unidades de triagem e projetos de educação ambiental. Tudo para atingir a meta prevista na Lei Municipal nº 10.351, que determina a eliminação do uso de tração animal ou carrinhos de mão pelos catadores de Porto Alegre.
"Quem tira um carroceiro da rua atinge todo um vínculo familiar. É o pai que vive da carroça, a mãe que separa os resíduos, os filhos", explica Nubia, que se declara feliz com a parceria de sua cooperativa com a prefeitura. "Eu tenho muito orgulho do que faço. Sou uma agente ambiental, crio e transformo vidas com o meu trabalho."
Porém, a solução proposta pela prefeitura de Porto Alegre não é unanimidade entre os trabalhadores. "Essas pessoas acabam dependentes da prefeitura. Queremos catadores empoderados, não tutelados", contesta Luís Santiago, ligado à Rede Recicla Rio, que, desde 2009, reúne cinco das principais cooperativas da cidade do Rio de Janeiro. A proposta da rede é radicalmente distinta do modelo gaúcho: atuar como prestadores de serviço, com todos os certificados legais e recebendo pagamento por todos os serviços, incluindo o recolhimento dos resíduos.
"As empresas acham que resíduos são um presente", critica Santiago. "Os catadores têm que se entender como agentes ambientais, sem doar trabalho gratuito." O que passa, segundo ele, por estabelecer parcerias estratégicas com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que oferece metodologia, e com empresas como a Odebrecht. "Estamos abertos a apoio e troca de conhecimento, mas quem decide nosso caminho somos nós."
Entre as conquistas da Rede Recicla Rio estão cinco caminhões e um galpão central, que ampliaram a capacidade de trabalho. "Queremos equiparar e padronizar as cooperativas para que sejam competitivas. Nosso objetivo é melhorar a vida do catador, em todos os sentidos", reforça.
Outra experiência veio da Redesol, que, desde 2009, reúne 19 cooperativas de Minas Gerais. "No início, não conhecíamos bem o modelo, o que causou alguns conflitos", explica Ivaneide Souza (ou Neide, como prefere ser chamada), que representou a central durante o Fórum. Hoje, já mais estabilizada, a Redesol leva experiência para cooperativas iniciantes, em uma ideia de empoderamento dos catadores.
Dos três filhos de Neide, dois trabalham na cooperativa onde ela atua. Um deles está na universidade, cursando Administração. "É um negócio, e a gente acredita muito nele. Tem que ter visão empreendedora, profissionalizar".
Consultor técnico de projetos da ONG Gaia Social, Geraldo Virgínio relatou sua atuação junto à Rede de Comercialização Zona Sul, formada por cinco cooperativas da cidade de São Paulo. A partir do trabalho junto aos catadores, alcançou-se a profissionalização da coleta e triagem de resíduos, melhorando as condições de trabalho e elevando a renda. A Gaia Social também atuou junto a cooperativas dos municípios paulistas de Sumaré, Campinas, Vinhedo e Nova Odessa. Também foi trazida a experiência da cidade de Boras, na Suécia, com o relato da professora Marisa Soares Borges, do Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Em Pernambuco, esforço é para cooperativar catadores

Bertrand Sampaio, do Recicla Pernambuco, comemora aumento na eficiência da coleta
Bertrand Sampaio, do Recicla Pernambuco, comemora aumento na eficiência da coleta
ANTONIO PAZ/JC
Dos estados brasileiros que participaram do intercâmbio, Pernambuco vive uma das situações mais difíceis. Dos cerca de 9 mil catadores registrados, apenas 760 estão ligados a alguma das 68 cooperativas do estado. O descarte do lixo também está longe do ideal: segundo dados do Tribunal de Contas de Pernambuco, 70% dos municípios ainda depositam seus resíduos sólidos em lixões, e há apenas nove aterros sanitários licenciados em todo o estado.
"O número de cooperativados é muito reduzido, o que é um desafio para a inclusão socioprodutiva desses catadores", lamenta Bertrand Sampaio, gerente do Programa de Resíduos Sólidos do Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep). Ele apresentou os resultados parciais do Recicla Pernambuco, projeto que busca criar um sistema de coleta seletiva no estado, promovendo melhoras na vida dos catadores e dando um ponto final nos lixões.
No momento, 11 prefeituras assinaram o termo de adesão ao programa - alguma delas se comprometendo a pagar um salário social para os catadores durante a capacitação. "Na medida em que se fecha um lixão, essas pessoas acabam ficando sem trabalho", diz Sampaio, explicando que o projeto passa por oficinas e pela institucionalização das cooperativas.
O Recicla Pernambuco também investe em equipamento e estruturas. Ao todo, 10 galpões de separação e reciclagem foram construídos ou recuperados, e até triciclos motorizados são usados em algumas cidades, numa adaptação à realidade dessas comunidades.
Os resultados são positivos, mas ainda há muito chão pela frente. A renda média dos catadores pernambucanos está abaixo do salário-mínimo (R$ 511, em média), e o principal resíduo coletado é o papelão, de baixo valor de mercado. A eficiência na coleta, porém, aumentou: em 2015, as cooperativas cadastradas chegaram à média de 1,3 tonelada/mês por catador, o que traz esperança de melhorar a situação em um futuro próximo.
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