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Porto Alegre, domingo, 22 de maio de 2016. Atualizado às 22h44.

Jornal do Comércio

Opinião

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Notícia da edição impressa de 23/05/2016. Alterada em 22/05 às 21h23min

O impeachment nosso de cada dia

Antonio Feldmann
Nosso País transita por um corredor de esperanças a partir do afastamento temporário da presidente da República. Especialistas em Direito engalfinharam-se num amplo embate jurídico quanto à existência de crimes de responsabilidade, cada qual desfiando seu rosário de razões. Sobre esta argumentação e sob a ótica política, deputados e senadores da República sustentaram, dentro do rito jurisdicional, a decisão que levou à interinidade do vice-presidente Michel Temer (PMDB). Embora o episódio tenha maculado e ferido especialmente as práticas políticas do PT e sua ideologia, seria um desperdício cingir o significado do impeachment ao papel que é atribuído pela sociedade aos políticos em geral, de diferentes agremiações. A estes, explicitamente, o movimento que começou nas ruas e chegou aos gabinetes representou um claro recado: não mais será tolerado o discurso sem a prática. Vender sonhos e depois entregar pesadelos é crime punível, independentemente do poder a que tenha sido alçado pela força do voto.
Recorrendo a um dos maiores clássicos da literatura do século XX, "Memórias de Adriano", no qual Marguerite Yourcenar resgata em romance a história do Imperador Adriano, quando se debruça sobre seus feitos e mergulhos filosóficos: "Se alguma coisa me repugnava, eu a transformava em objeto de estudo, forçando-me a retirar dela algum motivo de alegria". Pois o objeto de estudo com o impeachment de Dilma serve para isso. É sobre como nos vemos como indivíduos que aceitamos, e às vezes até participamos, de pequenas transgressões cotidianas. Sabemos que muitas atitudes que adotamos jamais terão prova material. Mas será que não seria justo que o universo nos obrigasse à condição de réu de pedidos de impeachment para todos estes pecadilhos que integram a cultura da vantagem indevida? Da negociação aparentemente legal, mas que, acima de tudo, é imoral? Do furar a fila, de avançar o sinal vermelho, de jogar lixo nas ruas ou de alcançar um "regalo" a um agente público em troca da antecipação de algum benefício? Todos sabemos que a cultura do jeitinho brasileiro deixou de ter limites há muito tempo.
Então, talvez, o ocorrido na República nos leve a reconhecer e corrigir as aparentemente invisíveis transgressões, as falhas morais com as quais nos acostumamos a conviver. Como se percebe, o impeachment de Dilma deixa uma lição para além da política.
Vice-prefeito de Caxias do Sul
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