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Urbanismo Notícia da edição impressa de 06/04/2016. Alterada em 05/04 às 22h02min

Pesci reitera críticas a Plano Diretor da Capital

MARCELO G. RIBEIRO/JC
Para arquiteto argentino, só as regras para construir saíram do papel

Guilherme Kolling

Referência na área de urbanismo, com trabalhos realizados em várias cidades do mundo, o arquiteto argentino Rubén Pesci, 73 anos, conheceu Porto Alegre em 1995, quando foi convidado pela prefeitura para dar consultoria na elaboração do novo Plano Diretor da cidade, implantado em 2000. Desde então, vem todos os anos à capital gaúcha. E, sempre que questionado, critica o resultado final do projeto em que participou.
No sábado passado, quando fez a conferência de encerramento do seminário Virada Sustentável, não foi diferente. "Até hoje, a imprensa daqui me procura perguntando sobre o Plano Diretor. E eu digo: não foi feito." Pesci avalia que a proposta original acabou deturpada na Câmara Municipal - onde os vereadores aprovaram o aumento das alturas dos edifícios e dos índices construtivos - e lamenta que, das sete estratégias previstas no Plano Diretor, apenas a que trata das regras para fazer prédios tenha saído do papel.
"Regular o solo e o investidor privado, isso não é um plano de cidade", resume, cobrando políticas de mobilidade, preservação ambiental e o desenvolvimento de novos centros, para recuperar laços sociais de convivência e economizar energia em deslocamentos.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, concedida logo após sua palestra no auditório Araújo Vianna, Pesci fala sobre suas impressões da cidade, participação de cidadãos no planejamento, Cais Mauá e do projeto que será votado hoje na Câmara de Porto Alegre, a maior mudança proposta para o Plano Diretor nos últimos anos.
Jornal do Comércio - Quais suas impressões da cidade?
Rubén Pesci - Espero que parem com essa coisa de condomínios fechados, que fraturou a Zona Sul de Porto Alegre e está fazendo desaparecer uma cultura semirrural muito interessante. Hoje, o Sul está cheio de problemas, mas o Plano Diretor não permitia fazer urbanizações maiores do que 4 hectares. Isso me preocupa muito. Outra coisa é o índice de automóveis por pessoa, mas é um problema não só de Porto Alegre, é do mundo. Aqui, em vez de a concentração ser para a convivência das pessoas, é uma luta pelo espaço das vias. Queremos que se concentre (a população), mas para a convivência, que os carros fiquem fora. Eu tiraria carros de metade do Centro de Porto Alegre.
JC - A Câmara Municipal vai votar um projeto para incentivar a construção civil no entorno das avenidas que receberão os corredores de ônibus BRT. Qual é a sua avaliação?
Pesci - O erro sempre é uma política de mercado, levar o transporte onde há demanda, ao invés de levar para onde convém à cidade. Se sigo apenas a demanda, mando o transporte para onde o mercado impôs que as pessoas se instalassem. Então, continuo complicando a cidade. Os corredores de desenvolvimento que propusemos há 20 anos iam por onde a cidade deveria crescer - para integrar a periferia, descentralizar. Aí, sim, deve ter incentivo à densificação.
JC - O projeto dos BRTs está longe de ser realidade. Falta concluir corredores, fazer estações, comprar ônibus especiais e implantar o modelo. E neste ano tem eleição. O que acha de incentivar prédios maiores para atrair gente a usar um sistema que ainda não tem previsão de quando vai sair do papel?
Pesci - Aí não. Esse transporte deveria ser factível, senão estamos fazendo negócios antes do tempo. São temas difíceis, me alegro que estejam debatendo. Mas lembre, se apenas seguirmos a demanda, fazemos caso ao mercado. Temos que inventar a cidade.
JC - A tese é atrair mais gente, densificar regiões que teriam uma infraestrutura ociosa.
Pesci - Isso é perigoso, é preciso equilibrar, aproveitar a cidade existente - Porto Alegre é muito densa, hein -, mas criar novos polos para que a descentralização seja possível. Porque já não se pode andar em Porto Alegre, o índice automobilístico de vocês é altíssimo. No México (Pesci trabalhou na cidade de Monterrey), nosso lema é "Uma cidade pedestre". Mas para isso, em algum lugar, quem vem de fora tem que deixar o seu veículo. Então, tem que ir freando a chegada dos carros à cidade, mediante excelentes meios de transporte e meios alternativos, como a bicicleta.
JC - O uso de bicicletas e a criação de ciclovias são a grande novidade de Porto Alegre nos últimos anos. É uma alternativa?
Pesci - Sim, mas minha teoria sobre transporte urbano é fazer cidades nas quais a população não tenha que se deslocar. Não atuar sobre o transporte, mas sim atuar sobre a centralidade. Essa é a mudança. Os ingleses são os especialistas nisso: o melhor sistema é não usar transporte, deslocar-se a pé.
JC - A criação de novos centros na cidade é um dos pontos a que se referia na palestra quando disse que o Plano Diretor de Porto Alegre não saiu do papel?
Pesci - Claro, havíamos planejado corredores de desenvolvimento até Viamão, por exemplo, em que o cidadão podia encontrar a centralidade a cinco quadras de casa. Então, não precisa sair de carro. Mas, para isso, é preciso gerar novos corredores de centralidade.
JC - O senhor também defendeu que está na hora de passar do discurso à prática na questão ambiental. Como o cidadão pode fazer isso?
Pesci - O cidadão deve conscientizar-se, e basta abrir a internet para encontrar informação. Mas é muito importante associar-se. Isso se faz através de grupos, não se faz isoladamente, tem que criar redes. E transformar essas organizações em um caminho em que não apenas se mude o paradigma, como também as formas de conhecimento. A paisagem, por exemplo, é a identidade. Então, assumir-se como atores da paisagem comum é um caminho. Já existem experiências. Em La Plata, temos uma formidável. Começamos por defender a paisagem cultural de La Plata e só depois fomos pedir apoio do governo. Mas veio de baixo.
JC - O tema urbano de maior debate em Porto Alegre é a revitalização do Cais Mauá. Um movimento de cidadãos questiona o modelo de shopping center, prédios altos e estacionamentos. Por outro lado, parte da sociedade critica esse grupo, quer que o projeto saia do papel. Como deve ser a mediação?
Pesci - Uh... É como mediar a situação política do Brasil, mais ou menos assim de difícil.
JC - E a sua opinião?
Pesci - Conheço bem a história do Cais Mauá, mas não o novo projeto. Tenho uma reposta em tese a sua pergunta: primeiro, é preciso fazer participativamente, para que as pessoas se sintam parte do projeto e saibam que a sua opinião está sendo considerada, ou então que expliquem por que elas estão equivocadas. Se um projeto é imposto, a reação é imediata. Não sei se aqui se fez com participação. Em segundo lugar, tudo é possível: pode ter comércio, edifícios altos, mas numa medida justa. Se isso se transformar somente em um lugar de edifícios altos e comércio para as pessoas irem lá comprar, evidentemente a sociedade ficará contra. E nunca os juízos devem ser absolutos. A diversidade e o consenso devem ser as novas formas do debate.
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