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Notícia da edição impressa de 15/04/2016

Sobre falar mal dos outros

DIVULGAÇÃO/JC

A detração - Breve ensaio sobre o maldizer (Editora Unisinos, 102 páginas, R$ 25,00), apresentação do professor Carlos Alberto Gianotti e do professor doutor pela USP Leandro Karnal, que leciona na Unicamp, trata, fundamentalmente, do inescapável hábito que o ser humano tem de toda hora ficar falando do outro.
Karnal nasceu em São Leopoldo, cursou História na Unisinos, tornou-se curador de exposições e palestrante conceituado no Brasil e no exterior. Publicou várias obras, entre as quais Teatro da fé (Hucitec), Conversas com um jovem professor (Contexto) e Pecar e Perdoar (Nova Fronteira).
Mesmo que a gente não se dê conta, a detração, a mania de falar mal do outro, envolve nosso cotidiano. São múltiplas as modalidades do maldizer e justamente esse é o aspecto abordado pelo pensador Leandro Karnal. O professor, todavia, optou por uma narrativa leve, clara e com uso do bom humor, mas sem deixar de lado, claro, o rigor intelectual. O tom combina com o conteúdo.
Carlos Alberto Gianotti, editor e apresentador do volume, explica que certo dia passou pela frente da TV e ouviu um político dizendo horrores sobre seu colega. Pensou depois que não só políticos são maledicentes, mas também bispos, sindicalistas, professores, jurisconsultos, psicanalistas, chanceleres, balconistas, colegas de trabalho, familiares, amigos, companheiros de bar, de academia e de futebol também falam mal dos outros. Todo mundo. Aí pensou que a detração está no nosso cotidiano e convidou o autor para escrever esse envolvente Breve ensaio sobre o maldizer.
Depois de uma brevíssima introdução que o autor pede que não seja pulada, os cinco capítulos tratam de história como detração; política ou a arte de desviar a detração; Deus te vê; Da detração na Terra de Santa Cruz e em outras terras e Detração e preconceito.
O autor, já de início, explica que, onde há pessoas, há falas; onde houver fala, há detração. A detração nasce com a sociedade humana e não desaparecerá enquanto houver seres humanos.Contra ela, há princípios bíblicos, regras morais, manuais de etiqueta, formadores de caráter, uma luta de milênios que só demonstra a permanência do problema. Para o autor, somos todos fofoqueiros contumazes.
No final, sábias palavras: se fôssemos sábios, não atacaríamos a ninguém, nem faríamos piada de ninguém, nem teríamos preconceitos com ninguém. Se fôssemos sábios, não haveria detração nem problemas no mundo causados pelo preconceito. Em vez de risos nervosos por piadas preconceituosas, riríamos com as crianças, com o sol e o mar. Se fôssemos sábios...

Lançamentos

  • Jovens de elite (Rocco, 304 páginas, R$ 34,50, tradução de Rachel Agavino), da chinesa Marie Lu, autora da trilogia Legend (best-seller do New York Times), tem uma trama num mundo medieval alternativo tomado por uma estranha febre. Quando ela não mata, deixa uma marca física nos sobreviventes. Poucos sobreviventes, com estranhos poderes, jovens de elite.
  • Guerra sensorial - Música pop e cultura underground em Manchester (Modelo de Nuvem, 198 páginas), do jornalista e escritor santa-mariense Fabrício Silveira, autor de Grafite Expandido e Rupturas Instáveis. Entrar e sair da música pop (finalista do Açorianos e Ages) resultou de pesquisa do autor em Manchester. Ele fala da história cultural da cidade, era pós-punk e outros temas.
  • Matéria lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz (Ateliê Editorial, 302 páginas), do professor Mario Higa, do Vermont College, reúne quatro ensaios de leitura crítica de poesia com vistas ao entendimento e à interpretação de textos poéticos. O autor estuda o "combate entre a clareira e a ocultação" que se trava diante do leitor.

Os sebos na era da web

Não faz muitos anos, a gente entrava na Rua do Livro, a Riachuelo, ali no Centro Histórico de Porto Alegre e, a poucos metros do maravilhoso prédio da Biblioteca Pública do Estado, entrava naquela simpática casa antiga, de dois andares, onde ficava o sebo, a casa de livros usados do Comendador Martins. Tinha também o sebo do seu Sétimo Luizelli, pai do Eduardo, Livraria Aurora, na Marechal Floriano, e aquele da esquina da Duque com a Espírito Santo, que tinha um porão, além do térreo.
Nessas livrarias, a gente entrava, conversava com o livreiro e com seus assessores. Não perguntava por novidades. Perguntava por raridades. Mas o bom era sair garimpando as pepitas literárias nas prateleiras. Obras raras, livros autografados, livros com anotações de leitura, com marcas de lágrimas, café, com alguma flor ou folha seca, ou até com alguma cartinha de amor perdida entre as páginas. E-books nunca terão essas possibilidades, por mais que tentem fazer com que eles fiquem parecidos com os livros de papel, inimitáveis, insubstituíveis.
Principalmente nos sábados de manhã, os bibliófilos inveterados, os ratos de sebo e amantes de livros se encontravam nas livrarias. Jovens poetas e escritores, alguns promissores, senadores, deputados, juízes, promotores, professores, escritores consagrados, acadêmicos, outsiders e demais cidadãos do povo trocavam figurinhas, informações e, às vezes, até livros, como se fossem meninos trocando gibis na porta do cinema Rio Branco. Muitos leitores levavam os livros no Almada, no Menino Deus, para encadernação. Se possível, se a grana dava, em couro. Mandei encadernar toda a Comédia Humana do Balzac. Tempos depois lançaram uma edição completa, em conta, encadernada...
Os donos de sebo davam uma lida nos obituários, se informavam sobre o passamento de velhos professores, médicos, magistrados, jornalistas, intelectuais e, depois de alguns contatos com as famílias , mandavam alguma velha Kombi buscar as centenas ou milhares de livros que, segundo algumas viúvas, estavam estorvando, ocupando espaço e juntando poeira nas casas e apartamentos. Algumas faziam doações para entidades. No fundo, elas tinham algum ciúme dos livros dos maridos, mas isto é outra história.
Sebos tradicionais ainda existem, mas agora muitos leitores usam os sebos eletrônicos, as Estantes Virtuais, a compra de livros usados pela internet. É mais rápido, mais limpinho, o acervo é maior, geralmente os preços são bons, mas, claro, não é a mesma coisa que curtir o ambiente de uma loja de livros usados tradicional. O leitor não vai encontrar livros e pessoas ao acaso. No Rio de Janeiro, tinha até um guia de sebos. Em Paris, as livrarias de usados fazem parte da história.
Com o ingresso dos livros eletrônicos, a tendência das livrarias de usados é a diminuição, mas, no fundo, fico torcendo para que, no Centro Histórico ou em algum ponto do Bom Fim, do Menino Deus, da Cidade Baixa ou outro bairro, sempre exista algum sebo, mesmo pequeno, com algum livreiro, mesmo pequeno, para passar um livro, umas histórias e aquela imperdível conversa de livraria.

A propósito...

Certa vez, eu estava numa livraria de usados e novos que ficava dentro do Campus Central da Ufrgs. Dei de cara com uma belíssima coleção de livros sobre Ciências, acho. Abri um dos volumes e havia um carimbo da biblioteca da universidade. Mostrei para o velho e honesto livreiro, meu amigo, que já está em outra reencadernação. Ele disse: "uma professora da Ufrgs deixou aqui para eu vender, vou devolver imediatamente para a faculdade. Que coisa, não tinha visto". Conhecido meu, escritor, gostava de furtar livros nas livrarias de Porto Alegre. Um dia, um livreiro o pegou. Levou-o até sua casa. Lá recuperou os livros roubados e, dizem, levou mais alguns, para dar uma lição ao meliante literário...

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