O dólar atingiu no fim da manhã desta quinta-feira (10) a menor cotação desde 1 de setembro de 2015, quando a moeda chegou a ser negociada a R$ 3,67 (fechamento daquele dia). A cotação abriu nesta quinta a R$ 3,65 e subiu a R$ 3,68 no fim da manhã (em linha com o fechamento desta quarta-feira), o que reforça o ambiente de alta volatilidade, disse o economista da Quantitas João Souza Fernandes. No começo da tarde, a moeda norte-americana recua ainda mais, em R$ 3,66.
O piso de R$ 3,70 não era rompido desde 20 de novembro, citou o economista. Fernandes destaca que a situação é gerada pela combinação de dois fatores: eventos políticos dos últimos dias e a valorização das commodities, principalmente as minerais e petróleo.
O descompasso do momento, observou o economista, está por conta do Comitê de Política Monetária (Copom). A
ata da reunião da semana passada, liberada nesta quinta-feira, dá sinais para a trajetória das taxas de juros, com estabilidade e possibilidade de queda ainda este ano. O documento detalha a decisão recente de manter, pela quinta vez consecutiva, a taxa básica (Selic) em 14,25% ao ano.
“O Banco Central indica juros estáveis e com queda, com isso mostra que não está reagindo às novas informações e adota postura mais leniente, sinalizando a flexibilização monetária”, analisou Fernandes.
Volatilidade em alta
O efeito de fatos recentes para o câmbio – vazamento da delação premiada do senador Delcídio do Amaral, condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e previsão de protestos) - já vem sendo capturado pelo mercado. Quanto mais o cerco se fecha sobre Lula e contamina o governo Dilma Rousseff, o câmbio cai.
Fernandes atenta para mais nuances do mercado. “Há os eventos políticos para justificar a queda da moeda, mas há outros fatores no Exterior que influenciam, como os preços das commodities.” No caso dos minérios, a alta ajuda o Brasil, que depende das exportações desse setor para melhorar o saldo comercial.
O economista da Quantitas acredita que um maior recuo da moeda norte-americana, ampliando a valorização do real, dependerá de alguma ocorrência mais forte na cena política. O especialista cita ainda que a forte reversão das cotações de produtos ocorre há três semanas e foi pouco antecipada pelo mercado. Essa situação pode estar sendo impulsionada por fatores sobre os quais há muita incerteza, como a intensidade da desaceleração da economia chinesa.
O quadro afeta economias emergentes, como o Brasil. O petróleo, que desceu a US$ 25,00 (barril) chega a US$ 37,00. Fernandes lembra ainda que não é só o real que se valoriza, e que as moedas de Rússia, Colômbia (os dois com reservas de petróleo), Austrália (minérios) e até Chile apresentam escalada das moedas.
O momento, pressionado por ingredientes políticos e externos, acabou subvertendo o que estava no visor do mercado, que era apostar na desvalorização do real, admitiu Fernandes. A Quantitas projetava câmbio a R$ 4,50 até o fim do ano, e pode rever essa estimativa. Ao mesmo tempo, não acredita que as quedas da temporada fiquem abaixo de cotação a R$ 3,60.
“Os indicadores econômicos não sustentam esta queda, já que a situação fiscal piora, o crescimento é baixo e a inflação resiste”, citou o economista. “O que comanda agora é a volatilidade.” Um maior risco de mudança de governo (que pode validar ou não mudanças no rumo da política econômica) pode aumentar o efeito, elevando ou reduzindo o dólar”, lembrou o especialista da Quantitas.
Caso não se confirme a piora do ambiente político, Fernandes aposta que os chamados fundamentos da economia imperem, aí a lógica é dólar subindo.