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ESPECIAL Notícia da edição impressa de 29/02/2016. Alterada em 29/02 às 08h53min

Plano Cruzado foi da esperança à frustração

SERGIO BORGES/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/JC
Em 28 de fevereiro de 1986, o presidente José Sarney anunciou o conjunto de ações econômicas ao País

Marina Schmidt

Muitos brasileiros, em 2016, não fazem ideia do que era conviver com uma inflação de três dígitos, o que se tornou realidade no País a partir de 1982, quando o IPCA (indicador oficial) sofreu uma variação de 104,8%, iniciando um longo período de sequências de altas dos preços. Para quem tem menos de 30 anos, portanto, pode ser difícil imaginar a angústia de ver os preços acelerarem muitas vezes em um único dia, sem que o poder de compra acompanhe a alta na mesma medida.
Ano após anos, as altas se superavam. Em 1983, o IPCA marcou 163,99%; no ano seguinte, 215,27%; e, em 1985, a inflação passou de 242%, exigindo a adoção de medidas que, de alguma forma, tentassem conter a elevação. É por isso que o Plano Cruzado, lançado em 28 de fevereiro de 1986, foi tão emblemático. Recebido com expectativa pela sociedade, a primeira proposta monetária para estabilizar a economia tinha como principal ferramenta de ação o congelamento dos preços.
Foi uma intervenção radical adotada em um período que simbolizava o renascimento democrático do País. E, naquela sexta-feira que encerrava o mês de fevereiro de 1986, sacramentava a euforia em torno do plano, que estava estampada nas capas dos jornais.
"O regime militar estava acabando, havia uma expectativa enorme das pessoas em relação a um governo mais próximo do povo, mais democrático, e existia um grande clamor das pessoas para a resolução do problema da inflação", contextualiza o doutor em Economia e coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec/MG, Reginaldo Nogueira. A receptividade fazia todo sentido naquele contexto. "Apareceu o plano, e as pessoas o abraçaram e acreditaram nele."
O pacote estabeleceu o congelamento de preços e da taxa de câmbio por um ano. "Só que esse plano vinha com um problema, que era o fato de que vinha com tabelamento (controle) de preços. Isso termina, invariavelmente, em desabastecimento e falta de mercadoria", continua Nogueira.
O congelamento, no longo prazo, se tornaria o grande responsável pelo fracasso da proposta. Começou a ocorrer falta de alguns produtos, que culminou em uma grave crise de abastecimento (prateleiras vazias). Após alguns meses, a cobrança de ágio ficou disseminada entre fornecedores, e a inflação retornou.
"Congelar não resolve, é como cuidar do sintoma, e não da causa, pois faz o preço parar de subir, mas a causa continua lá", acrescenta o doutor em Economia Marcelo Portugal. A inflação, de fato, foi contida naquele primeiro ano, mas era um controle mascarado. "Havia o mercado negro, o que chamamos de inflação reprimida, e que não aparece nos números", lembra Portugal.

Fiscal do Sarney levou pedido do presidente ao pé da letra


Quando anunciou ao País o Plano Cruzado, em 28 de fevereiro de 1986, o ex-presidente José Sarney direcionou aos brasileiros um pedido especial e importante para dar sustentação às medidas propostas. Em seu pronunciamento, dotava a população de poder para agir no caso de descumprimento dos preços tabelados.
O discurso, transmitido em cadeia nacional, chegou com as seguintes palavras à sociedade: "Cada brasileiro ou brasileira será, e deverá ser, um fiscal dos preços. E aí posso me dirigir a você, brasileiro ou brasileira, para investi-los em um fiscal do presidente para a execução fiel desse programa em todos os cantos deste Brasil. Ninguém poderá, a partir de hoje, praticar a indústria da remarcação. O estabelecimento que o fizer poderá ser fechado e ensejar a prisão dos responsáveis".
Assim, estava constituído, desde o primeiro dia do plano, o elo entre o presidente e os consumidores, relação que começou a ser notada já no dia seguinte. Houve situações em que pessoas davam voz de prisão a comerciantes ou determinavam o fechamento de lojas.
O primeiro desses caso foi transmitido pela televisão, no dia seguinte ao anúncio do Plano Cruzado. Naquele 1 de março de 1986, o empresário Omar Marczynski (foto), em Curitiba, protagonizou uma das cenas mais emblemáticas do período.
Dentro de um supermercado, Marczynski fechou as portas do estabelecimento. "Eu fecho esse supermercado, pelo roubo abusivo e extorsivos que estão acontecendo em mais de 30 produtos", bradava, segurando nas mãos dois potes de maionese. Depois de mostrar alguns produtos com preços remarcados, o empresário se direcionou para a entrada do estabelecimento. "Estou fechando em nome do José Sarney, o nosso presidente e presidente da nova República. Está fechado em nome do povo", exclamou cerrando as portas, sob aplausos de uma multidão.
A partir desse episódio, Marczynski ficou conhecido como o "fiscal do Sarney". Sua reação inspirou outros consumidores, que passaram a se proclamar "fiscais do Sarney". Depois de alguns anos, Marczynski foi convidado pelo presidente Fernando Collor de Mello para assumir como superintendente da Sunab. Depois de aposentado, ele se mudou para Manaus, onde morreu, em 2007.

Supermercados trabalharam com preços tabelados aos compradores


JOÃO MATTOS/JC
Viezzer lembra que Plano Real deixou prateleiras vazias
O empresário Mario Viezzer, de Canoas, cometeu uma ousadia surpreendente em meio à aplicação do plano econômico. Enquanto os varejistas enfrentavam o desafio de ver as prateleiras vazias, por falta de produtos vindos da indústria, ou de comercializar itens com preços tabelados que, muitas vezes, não revertiam o lucro esperado, ele abriu o seu primeiro supermercado. Hoje, com quatro lojas, ele é um dos fundadores e integrantes da Rede Unisuper.
"Foi um período muito difícil. Teve gente que foi presa", lembra. Ele compara citando que o empresário, em alguns casos, acabava sendo obrigado a vender um produto por valor inferior ao do preço de aquisição. Quando o Plano Cruzado foi lançado, o empresário ainda era detentor de um estabelecimento menor, uma padaria. "A nossa loja já estava em construção no ano anterior ao plano, então, quando ficou pronta, tivemos que inaugurar", comenta.
Dos tempos de padaria, ele revela praticar o que chama de "preço justo" em alguns produtos. Eram itens importantes para os consumidores, que entendiam a situação, revela. Em outras palavras, era um valor um pouco diferente dos das tabelas, mas, com um público reduzido e muito próximo do empresário, isso não se tornou problema. Quando inaugurou o supermercado, em meados de 1986, os preços tabelados eram praticados na loja com rigorosidade.
Na edição de amanhã: Trinta anos depois, indexação volta a pressionar a inflação
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