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Consumo Notícia da edição impressa de 17/02/2016. Alterada em 17/02 às 00h45min

Vendas do varejo recuaram 4,3% em 2015

ELZA FIÚZA/ABR/JC
Segmento de artigos farmacêuticos foi o único a apresentar avanço

Com a economia em recessão, inflação em alta e oferta restrita de crédito, as vendas do comércio varejista do País tiveram queda de 4,3% no ano passado, segundo dados divulgados ontem pelo IBGE. É o pior desempenho desde 2001, início da pesquisa. O último ano em que o varejo teve queda nas vendas foi 2003 (-3,7%), afetado pelas incertezas do mercado com um primeiro governo PT.
Isoladamente em dezembro, as vendas do varejo recuaram 2,7% em relação a novembro, apesar do Natal. Foi o pior desempenho para o mês da série histórica.
A atividade que mais pesou no resultado do varejo em 2015 foi a de móveis e eletrodomésticos, com queda de 14%, a maior desde 2001. O setor é mais dependente do crédito e da confiança das famílias.
A vida não foi fácil, contudo, para nenhum segmento. Das oito atividades pesquisadas pelo IBGE, sete tiveram queda no ano passado. O varejo sofre com a queda do consumo das famílias, efeito do desemprego, queda da renda e falta de confiança na economia. O crédito farto é coisa do passado. Um quadro ruim para quem depende da demanda interna.
O setor de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo teve queda de 2,5% em 2015, a segunda maior contribuição para o fechamento do ano. O desempenho chama atenção porque os supermercados comercializam produtos considerados de primeira necessidade, os alimentos. O ramo costuma ser, portanto, mais resistente em tempos de crise.
Também fecharam o ano em queda as atividades de tecidos, vestuário e calçados (-8,7%), combustíveis e lubrificantes (-6,3%) e livros, jornais, revistas e papelaria (-10,9%). O único setor que apresentou crescimento foi o de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, perfumaria e cosméticos, com avanço de 3%.
O resultado interrompeu um ciclo de uma década de crescimento do varejo. O setor aproveitou como poucos o ganho de renda no País na última década. Foram 11 anos de alta nas vendas, a uma taxa de 7% ao ano.
Diante de uma mudança tão brusca, o jeito foi repensar os negócios. Foram 95.400 lojas fechadas pelo País em 2015, segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio). O número desconta as lojas abertas. "Isso mostra que os varejistas não mantiveram seus investimentos, incluindo as grandes redes de varejo. Fechar uma loja é a total falta de perspectiva de uma recuperação", disse o economista Fábio Bentes, da CNC.
O IBGE também divulgou o resultado do varejo ampliado, que inclui os setores de automóveis e materiais de construção. O dado é apresentado separadamente porque as duas atividades absorvem parte do atacado.
As vendas do varejo ampliado tiveram queda de 8,6% no ano passado e de 0,9% na passagem de novembro para dezembro. E mesmo com todo o aumento dos preços, a receita nominal (que não desconta a inflação) do varejo ampliado teve queda de 1,9% no ano passado. No ano, as vendas de automóveis, motos e peças registraram queda 17,8% em comparação com 2014. Já os materiais de construção tiveram baixa de 8,4% frente ao ano anterior.

Para economistas, comércio vai piorar neste ano e deve cortar 200 mil vagas


Após registrar a primeira retração em mais de uma década em 2015, o varejo brasileiro pode ter um desempenho até pior neste ano, segundo as expectativas de cinco economistas consultados pela reportagem. As projeções para este ano apontam para retração de 2% a 5,7% no varejo restrito (que exclui automóveis e materiais de construção).
Segundo economistas, 2016 promete ser um ano de consumidores cautelosos e retraídos diante de um quadro de perda de empregos, inflação em alta e crédito caro. A previsão mais sombria veio do banco de investimentos Credit Suisse, do economista-chefe Nilson Teixeira. Em relatório, ele prevê retração de 5,7% nas vendas do varejo este ano, citando o cenário de inflação, emprego e crédito.
A retração será disseminada entre os ramos do varejo, segundo Thiago Biscuola, economista da RC Consultores. Para ele, o maior impacto virá das vendas que dependem do crédito, como móveis e eletrodomésticos. "É uma compra que pode ser postergada e, por isso, prevemos retração de 12,5% nas vendas de móveis e eletrodoméstica", disse. "Os supermercados também devem ser afetados pela inflação e vender 3% menos."
Um caminho para amenizar as perdas na economia este ano seria uma desaceleração mais rápida da inflação, o que reduziria a perda na renda real (descontada a inflação dos trabalhadores) e permitiria juros menores. Esse quadro, contudo, passa longe do cenário dos economistas. O IPCA (inflação oficial) deve fechar o ano em 7,61%, segundo a média das projeções dos analistas consultados no boletim Focus, do Banco Central.
Para Thaís Marzola Zara, economista da Rosenberg Associados, a inflação alta, renda em baixa e mais desemprego devem continuar afetando o consumo das famílias e derrubar a venda do varejo em 4,5% em 2016. "Estamos prevendo alguma recuperação somente a partir de 2017, com um crescimento de 1,5% a 2% do varejo. Nada suficiente para compensar as perdas do ano passado e deste ano", disse a economista.
O volume de vendas do varejo regrediu no ano passado aos níveis registrados em março de 2012: em um ano, regrediu-se mais de três anos. O setor está 9,47% abaixo de seu pico histórico, registrado em novembro de 2014. "Considerando o que o varejo ainda pode perder de vendas neste ano, o setor só deve voltar a registrar vendas iguais a de novembro de 2014 lá em 2019", disse Thaís.
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