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CULTURA EMPREENDEDORA Notícia da edição impressa de 04/01/2016. Alterada em 04/01 às 19h35min

Empresas Júnior aceleram formação de futuros profissionais

FREDY VIEIRA/JC
>> Integrantes da EJ Minas da Ufrgs traçam na sala de aula planejamento estratégico de 2016

Patrícia Comunello

Estruturas que não visam lucros, as Empresas Júnior (EJs) viram sensação entre estudantes universitários. O Estado é quarto em número de EJs no País e viu quadruplicar o sistema em uma década. Práticas de gestão, relação com clientes, trabalho em equipe e colaboração movem as novas gerações de empreendedores.
As aulas terminaram, as provas foram aplicadas e as notas estão fechadas. Acabou o ano letivo para quase 20 alunos da Engenharia de Minas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) no Campus do Vale, em Porto Alegre, mas o trabalho só está começando. Até março de 2016, o grupo terá projetos para desenvolver com clientes e planejamento estratégico da
Empresa Junior (EJ) Minas para arrematar. "Listamos as propostas e agora vamos transformar em ações", explica a universitária Bruna Gava, diretora de Recursos Humanos e prestes a assumir como presidente. "Um dos focos será fidelizar clientes", adianta Bruna, que é só elogios ao envolvimento dos colegas.
Sobre as mesas, cartolinas e post-its (papeizinhos adesivos) receberam as ideias que miram mais receitas e projetos. Para os participantes da EJ Minas, a sala de aula virou plataforma de negócios. Um papo bem sério. Em um ano de existência, são três clientes e receita de R$ 12 mil. A EJ Minas não tem fins lucrativos, todo dinheiro que entra da prestação de serviços é aplicado na formação. Um atrativo é que o trabalho custa metade ou até menos que uma consultoria sênior. "Alguns nos acusam de concorrência desleal, mas somos estudantes, estamos aprendendo", defende-se o atual presidente, Cassiano Haad, que se despede este mês da EJ Minas para se graduar e atuar como engenheiro de Minas. "Não é fácil, a gente tem de aprender a vender, gerenciar pessoas e fazer gestão. Mas saímos bem mais preparados para o mercado", conclui Haad.
O grupo rastreou mercado e identificou 250 potenciais clientes em 2014. O bom é que a grife Ufrgs (melhor universidade federal do País) abre portas, valoriza o universitário-dirigente. Este ano o grupo perseguirá cinco metas - maior reconhecimento no mercado e no ambiente da universidade, afinar a cultura empreendedora, ter excelência em projetos, capacitar os membros e integrar mais a equipe. "O planejamento está sendo um divisor de águas, trouxemos as pessoas para dentro da empresa. Todos se sentem agora responsáveis pela EJ!", vibra a futura presidente.
A iniciativa dos estudantes da Engenharia de Minas é uma das 18 em funcionamento na Ufrgs, que viu sete surgirem em 2015 - todas nas engenharias. O fato elevou a pressão por espaço físico. "A gente não pode crescer mais (em alunos), pois não temos onde funcionar, nem tem como receber clientes", lamenta Haad. No fim do ano, a direção da Escola de Engenharia reuniu os empreendedores juniores e indicou que poderá destinar uma área no prédio Centenário, primeira sede da escola e recém-reaberto após uma longa restauração.
"A falta de estrutura não é um problema só na Ufrgs, é geral, além da burocracia, que impede maior apoio das instituições de ensino", reforça o futuro presidente da Federação das EJ do Estado (Fejers), Nikolas Kohlrausch. O segmento espera a aprovação do Projeto de Lei nº 8084, de 2014, que tramita no Congresso e oficializa a empresa júnior na área acadêmica, para facilitar as atividades, além da inserção das EJs na rede de empreendedorismo e inovação das instituições superiores.

Mundo EJ


O que é uma Empresa Júnior?
Entidade sem fins lucrativos gerida por estudantes de graduação. Missão: formar empreendedores comprometidos e capazes de transformar o País. O modelo surgiu na França, em 1967, e chegou ao Brasil na década de 1990.
Como atua?
Prestam serviços na área de formação dos estudantes, principalmente consultorias e projetos para micro, pequenas e médias empresas. Cobram valores mais baixos (metade até um terço) que o mercado por se dedicar à formação de estudantes e não terem fins lucrativos. Adotam estrutura de cargos e funcionamento de uma empresa, com diretoria, gerência, consultores e trainees. Integrantes passam por seleção, que inclui currículo, entrevistas, dinâmica de grupo.
Onde funciona?
Utiliza a estruturas física e apoio de docentes das faculdades para prestar serviços. Muitas não têm sede física, ocupam salas de aulas. A falta de estrutura limita o desenvolvimento de projetos e formação e relacionamento com clientes.
O que é o Projeto de Lei 8084/2014?
Regulamentará as EJs como associações civis geridas por estudantes universitários. O PL tramita no Congresso Nacional (passou pela Câmara e vai ao Senado, com expectativa de sanção em 2016). Prevê que a IES ceda espaço físico gratuito à EJ, plano acadêmico da empresa júnior elaborado pelos estudantes e professor orientador (quer terá carga horária ao atuar na EJ) e avaliado pelo colegiado da instituição.
A rede de EJ no Brasil: mais de 2 mil, cerca de 300 delas associadas a federações estaduais do movimento de EJ (MEJ). Rio Grande do Sul: 100 (19 filiadas à Federação de EJ-RS) em 20 Instituições de Ensino Superior (IES). O Estado é o quarto em número de EJs.

Os precursores


ANTONIO PAZ/JC
Custódio (primeiro, à direita) e colegas da PS Júnior: meta de dobrar o faturamento em 2016
A primeira EJ do mercado gaúcho foi a PS Junior, que nasceu na Escola de Administração da Ufrgs há 23 anos, na década de 1990, quando chegou o modelo ao Brasil. Hoje, a PS, que começou com três membros, tem mais de 40. Depois de tanto tempo no mercado, a veterana revê o tamanho. Para 2016, os integrantes cravaram a meta de dobrar a receita, que se mantém em R$ 100 mil ao ano desde 2013. O desempenho foi traçado no planejamento estratégico discutido em recente retiro de alguns dias, seguindo prática de médias e grandes empresas. Agora, cabe ao grupo ir atrás dos números. "É uma meta ousada, é nosso sonho grande", diz o diretor de marketing, Lorenzo Custódio, prestes a sair da PS. Custódio está encerrando a jornada, que começou de baixo, como trainee, virou consultor, chegou a gerente e diretor. O último degrau é ser presidente. "Não é todo mundo que chega a esse posto. Mas, aos 21 anos, virei diretor de empresa. Não chegaria a isso em outro lugar", orgulha-se Custódio. A carreira na EJ não costuma ser longa, a rotatividade faz parte do modelo para dar espaço aos mais novos. Otávio Schulze, que se habilitou à EJ em 2015, primeiro semestre da graduação, atesta que se envolver com projetos e consultorias permite conhecer como funciona a administração. "Vou saber melhor onde quero atuar", resume Schulze. Na sede da PS, no prédio da Escola de Administração e emprestada pela Ufrgs, o ambiente também ficou pequeno. Cada membro cumpre quatro horas semanais de tarefas. "Se não tem espaço aqui, vamos para bibliotecas, salas de aula e cafeteria", diz o diretor financeiro, Vicente Piccoli. Receber clientes também fica difícil. Nas paredes da sala, lemas da EJ reforçam o engajamento. Além disso, valores como performance, responsabilização e pensar ganham relevância com a meta do grupo de ajudar pequenos negócios a avançar. Um atrativo é o preço da consultoria, 40% do cobrado por uma equipe sênior. "Nós também não aceitamos projetos cujas causas não acreditamos", emenda Piccoli.

Recorde na crise


MARCELO G. RIBEIRO/JC
Alunos da EJ ESPM com Trein (primeiro em pé, à esquerda) validam ano de carteira cheia de clientes
Se para a maioria dos negócios no País o ano que passou é para esquecer, na Empresa Júnior ESPM, 2015 não podia ter sido melhor. Além de marcar o começo dos festejos dos 15 anos da primeira das cinco EJs em operação na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-Sul), em Porto Alegre, o período foi de recorde de projetos, que somaram 21, comemora o diretor comercial, Nicolas Skowronsky, 18 anos, primeiro ano de faculdade. Depois de três meses na EJ (liderada pela Administração), ele disputou e alçou ao posto de diretor. Com média de R$ 10 mil por projeto, a EJ se gradua a ter a maior receita (mais de R$ 200 mil em 2015) entre as mais de 100 Empresas Júnior gaúchas. Segundo o diretor comercial, a empresa já tem nome no mercado, costuma ser indicada por professores, por isso os pedidos de reunião para briefing de novos trabalhos são frequentes. "Temos de passar credibilidade, não estamos aqui para brincadeira", preocupa-se Skowronsky, reforçando que o envolvimento e desenvolvimento dos colegas é efeito do ambiente da EJ. A sede é ampla, com design atrativo e estrutura de uma empresa comercial. Agora é tempo de férias na faculdade e de muito trabalho para boa parte dos mais de 80 alunos que formam a EJ ESPM. "Vamos ter planejamento estratégico em janeiro e quem estiver com projetos para entregar a clientes vai trabalhar normalmente", avisa o diretor. O coordenador da EJ, o professor Fernando Trein, destaca que a seleção para novas vagas (duas vezes ao ano) prioriza alunos novatos. A EJ quer ser mais atrativa que estágios, que costumam ser a primeira experiência de mercado na formação. "Acelerar o aprendizado é o grande trunfo do modelo da Empresa Júnior. Cobramos postura, há entregas a fazer", pontua Trein.

Segmento reforça rede


No Estado, são hoje mais de 100 Empresas Júnior (EJs), com principais núcleos nos polos universitários de Porto Alegre, Pelotas e Santa Maria. Há pouco mais de uma década, eram 20 EJs. O Rio Grande do Sul é o quarto em número no País. Minas Gerais lidera, com mais de 200, entre as mais de 1 mil espalhadas em 19 estados. "Aqui, cresceu muito nos anos recentes, a demanda de clientes aumentou, e o movimento bombou", informou o presidente da federação mineira de EJs, Douglas Souza. Para os dirigentes, a multiplicação atesta que o modelo fisgou as novas gerações ao conjugar atitudes em que a colaboração é irmã do compartilhamento e a preocupação em gerar impactos é pai das duas.
Consultora da EJ Minas (da Ufrgs), Clara Mendes aposta que o aprendizado pode aproximar a formação do que a carreira profissional exigirá. "O movimento das Empresas Júnior está fazendo a diferença na minha vida, de quem me cerca e na dos companheiros desse projeto empreendedor", define Clara, 20 anos, há um ano na EJ e onde entrou como trainee, primeiro nível de colaboração. "A Empresa Júnior é uma pedagogia", resume o atual presidente da Fejers, Daniel Reis. Os dirigentes gaúchos perseguem agora a maior profissionalização das organizações. A meta é reforçar a rede, aumentando as EJs federadas, hoje de apenas 16 entre as mais de 100 existentes. Não é fácil ser "aceita", é preciso passar por uma sabatina e cumprir 18 exigências.
"Somos a EJ mais nova a se federar", comemora Bruna Gava, da EJ Minas. Ao se filiar, a organização tem acesso a programas exclusivos para capacitar gestores e acessar a rede estadual e nacional e interagir com empresas e ações voltadas a negócios. "As EJs federadas somam 2,2 mil estudantes e receita de até R$ 2 milhões ao ano, quem não faz parte da rede costuma ter baixo faturamento", alerta Souza. Em Minas Gerais, 58 das 200 EJs são federadas. No País, são 302 federadas (30%) do total. Além de integrar a Fejers, Reis cita que é possível ajudar as EJs nos momentos mais delicados, como a troca de gestão, pois a rotatividade é marca registrada do segmento. Um dos programas é o módulo de cogestão. "Preparamos a troca da direção. A transição pode quebrar uma EJ", adverte Reis. "Tivemos essa preparação, quem está saindo precisa ajudar", diz Valentina Tramontin, de uma das EJs da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), polo do movimento.

Modelo ganha reconhecimento


De grandes companhias, como Braskem e Ambev, a ações focadas na eficiência da gestão, como o Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade (PGQP), e ligadas a polos de inovação. Todos reconhecem as Empresas Júnior (EJs) como players na rede de empreendedorismo. A Braskem apoia as federações gaúcha (Fejers), do Rio de Janeiro e Bahia, estados em que opera. A Ambev atua com a Fejers. O setor privado busca o movimento para reforçar a cultura empreendedora e elevar a maturidade de jovens antes de encararem clientes e mercado.
"Precisamos de profissionais que tenham visão mais crítica para receber informação e transformar em resultados. Nas EJs, eles podem desenvolver isso rapidamente", aposta Ian Lopes, que atua nos programas de jovens e universidades na Braskem e integrou uma Júnior na faculdade. "A rede permite experiência mais completa e com diferentes atores." A companhia costuma valorizar candidatos com passagem pelo modelo. "O apoio da Braskem e Ambev é fundamental", diz o presidente da Fejers, Daniel Reis. Os patrocínios permitiram ampliar eventos, que atingiram 3 mil universitários em 2015. A ideia agora é dobrar o número de federadas (20% das existentes) para qualificar a rede, adianta Reis.
O coordenador executivo do PGQP, Luiz Pierry, viu no movimento um canal para se aproximar das novas gerações. A intenção é trazer ao programa a cultura dos jovens. "Queremos projetos focados em empreendedorismo e plataformas digitais interativas e de colaboração", detalha Pierry, que foi a eventos para conhecer o funcionamento do setor. "Mudou a forma de se engajar. Esses jovens querem ganhar dinheiro, mas aliados a causas", cita o coordenador. A Zona de Inovação Sustentável (ZIS), situada entre o Quarto Distrito e Centro Histórico de Porto Alegre, pretende abrir espaço físico às EJs e aproximá-las de startups da ZIS, revela o estudante Arthur Mallet Dias.
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