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Coluna

- Publicada em 03 de Setembro de 2010 às 00:00

Reflexões sobre a função do teatro contemporâneo


Jornal do Comércio
Por iniciativa do Instituto Goethe e do Departamento de Arte Dramática da Ufrgs, há poucos dias estiveram em Porto Alegre os pesquisadores alemães Hans-Thies Lehmann e Eleni Varopoulou. Ela abordou especialmente a modernidade contemporânea da dramaturgia clássica grega, e ele enfocou a proposta teórica que vem desenvolvendo sobre o que denomina de teatro pós-dramático. Tive a oportunidade de participar do debate final, numa sexta feira à noite, fria e chuvosa mas, para minha surpresa, com o auditório do Instituto Goethe totalmente tomado por interessados que já haviam passado as duas jornadas anteriores mais ou menos encerrados naquele espaço, em outros debates.
Por iniciativa do Instituto Goethe e do Departamento de Arte Dramática da Ufrgs, há poucos dias estiveram em Porto Alegre os pesquisadores alemães Hans-Thies Lehmann e Eleni Varopoulou. Ela abordou especialmente a modernidade contemporânea da dramaturgia clássica grega, e ele enfocou a proposta teórica que vem desenvolvendo sobre o que denomina de teatro pós-dramático. Tive a oportunidade de participar do debate final, numa sexta feira à noite, fria e chuvosa mas, para minha surpresa, com o auditório do Instituto Goethe totalmente tomado por interessados que já haviam passado as duas jornadas anteriores mais ou menos encerrados naquele espaço, em outros debates.
O tema de encerramento discutia o político e sua interrupção, sob a perspectiva do teatro pós-dramático. Lehmann, inteligentemente, fez uma síntese de suas ideias e preferiu transferir para o diálogo – através de perguntas e respostas – aquilo que pretendia dizer. Em síntese, para ele, o político não se encontra no texto ou no conteúdo explícito, propriamente dito, mas sim na forma que o espetáculo possa assumir, o que, como princípio geral, alcançou certamente o consenso de todos. Para ele, o teatro pós-dramático deve interromper os rituais políticos tradicionais que significariam apenas a busca de legitimação do poder que se teria alcançado, contudo, de maneira ilegítima e que, por isso mesmo, deveriam, sim, ser interrompidos e denunciados.
Ele citou, para tanto, a obra do diretor radicado na Alemanha, René Pollisch, e depois, deteve-se especialmente na peça Blasted, da britânica Sarah Kanes, que teria provocado enorme celeuma quando de sua estreia, em 1995.
Para ele, tais espetáculos evidenciam que, ao contrário do teatro anterior, em que se referia uma guerra que se encontrava lá longe, distante da plateia e do espectador, o teatro pós-dramático procura mostrar que, de fato, esta guerra encontra-se presente no próprio espaço do espetáculo e do espectador. Responsável por abrir o diálogo com o visitante, levantei a questão de que isso nos levava a alguns questionamentos em torno do teatro que depende de bilheteria, e que, portanto, deve “agradar” ao público, ou dependerá de subvenções oficiais que, no entanto, a não ser em um Estado democrático bastante consolidado, não aceitaria financiar aquilo que discursa contra esse próprio Estado.
Lehmann foi enfático ao defender um teatro subvencionado, mas onde o Estado se abstivesse de intervir nas propostas a serem desenvolvidas. Numa segunda intervenção minha, em que recordei a importância maior da comédia do que da tragédia grega, quanto a este questionamento do Estado, graças à liberdade da “parresia”, em que o dramaturgo ele mesmo intervinha na cena e expressava suas próprias ideias, o pesquisador alemão reconheceu que a paródia, o grotesco e a comédia, de um modo geral, são mais eficientes para tal objetivo do que o próprio drama, embora ressalvasse sua paixão pela tragédia clássica grega. Mas acrescentou: o problema é que, em geral, nas ditaduras, muitas vezes nos refugiamos nos clássicos, como o fez o próprio nazismo alemão. O debate, marcado por questões instigantes da plateia e com forte fundo filosófico, evidenciando preparo, conhecimento e seriedade por parte dos participantes, ultrapassou com certa facilidade a eventual dificuldade do distanciamento linguístico, graças a uma tradução eficiente e fiel, cuja dinamicidade acompanhou, mesmo com as dificuldades da expressão de conceitos abstratos, as ideias colocadas em discussão.
Para os que puderam acompanhar todo o seminário, não tenho dúvidas de que deve ter sido um excelente momento de reflexão, não apenas sobre a arte em geral, quanto sobre o momento contemporâneo. Para mim, uma quebra de rotina e uma retomada de ideias que me inquietam, ainda que deva reconhecer que, no dia a dia de nosso teatro, mesmo que Lehmann tenha sugerido que talvez seja mais difícil viver de teatro em Nova Iorque do que aqui, se não se pretender fazer um espetáculo apenas de divertimento, muitas vezes a gente sai frustrado de um trabalho. Mas, enfim, nem sempre podemos ter o que queremos e, como ele reconhece, poucos são aqueles que querem mais do teatro do que em geral ele pode realmente dar.        
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