Finanças climáticas podem mitigar desastres naturais, afirma fundadora da EmpoderaClima

"A cada (um) dólar que se gasta na prevenção de desastres, se economizam sete dólares na recuperação e reconstrução", afirma Renata Koch Alvarenga, fundadora da EmpoderaClima

Por JC

Entrevista Especial de segunda com Renata Koch Alvarenga, fundadora e diretora-executiva da organização EmpoderaClima
Bruna Suptitz e Diego Nuñez
 
O setor financeiro global está mais atento às mudanças climáticas e há inclusive um termo para os recursos destinados à mitigação ou recuperação de áreas atingidas por desastres: finanças climáticas.
Quem explica é Renata Koch Alvarenga, fundadora e diretora-executiva da EmpoderaClima, organização baseada no Brasil e com atuação global em pautas sobre igualdade de gênero e ação climática, com foco no empoderamento da juventude da América Latina.
Renata é atualmente consultora no Banco Mundial na área de financiamento de desastres climáticos para países da América Latina, trabalho realizado a partir da percepção de uma mulher jovem do chamado "Sul Global".
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, ela chama atenção para os conceitos de mitigação, que são as medidas preventivas que devem ser adotadas por governos diante dos eventos climáticos extremos, e a adaptação aos seus efeitos. Ainda, aponta que governos, empresas e a sociedade em conjunto precisam ter participação ativa nas ações.
Jornal do Comércio - O que são finanças climáticas?
Renata Koch Alvarenga - No âmbito da diplomacia e dos governos, é a transferência de fundos para mitigar e se adaptar às mudanças climáticas. Mitigação é aquela parte mais científica e técnica de reduzir os gases do efeito estufa, e adaptação é o processo que se tenta melhorar durante e depois de um desastre. O Muro da Mauá seria um exemplo de adaptação climática. A grande questão dos fundos climáticos é sobre como países mais ricos podem fazer transferência de finanças climáticas para países mais pobres. Tem muitos programas de financiamento climático para regiões mais vulneráveis, e também existem as finanças climáticas dentro de fundos, como o Fundo de Desenvolvimento Asiático, o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o Banco Mundial - que é o maior de todos. Tem programas específicos para que os países possam recorrer, por empréstimos ou por grants, que seriam doações. Isso é uma grande complexidade, geralmente são empréstimos e países da região do Caribe, por exemplo, ficam num ciclo e acabam se tornando devedores internacionais para sempre. Quando deixaram de ser colônias e viraram países independentes, eles já vieram com uma dívida gigantesca aos seus países-colônia, uma situação bem problemática. Com as finanças climáticas, muitas vezes o ciclo continua. Falo do Caribe que foi minha dissertação de Mestrado, mas acontece na América Latina como um todo, quando passam por um desastre, recebem algum empréstimo e ficam buscando pagar até que venha outro desastre. Então, eles não conseguem sair desse ciclo vicioso.
JC - As organizações estão mais preocupadas com a questão climática?
Renata - As organizações que lidam muito com o âmbito social e econômico começaram a ver que os desastres e eventos climáticos extremos estavam piorando essas situações, exacerbando a situação social. No exemplo do Caribe, um choque como a pandemia de Covid-19 foi um divisor de águas nesse sentido e mostrou que esses países não estão preparados para lidar com choques. A Covid é quase uma prévia do que vão ser os choques climáticos, com essa questão de ter que trabalhar remoto, crianças não poderem ir às escolas… Vai ser muito mais frequente, recorrente e perigoso por causa da crise climática.
JC - Como, economicamente, convencer empresas e governos a investir na mitigação, em prevenir?
Renata - Se uma empresa tem no seu objetivo final o lucro, tem que pensar nessa questão. Quanto mais se gasta na prevenção de desastres, com essa mesma lógica se aplicando também na mitigação e tentar parar o problema pela raiz, agora, é menos gasto no futuro. Existe um dado que a cada (um) dólar que se gasta na prevenção de desastres, se economizam sete dólares na recuperação e reconstrução após um desastre. Apesar desse dado, observa-se que a menor quantidade de financiamentos vai para o antes, para a prevenção. A maior parte do dinheiro vai para o pós desastre. Tem até um termo que chama "O efeito CNN": quando ocorre um desastre, empresas, governos, fundos ou qualquer tipo de organização tendem a responder, porque está na mídia e vai ser mostrado. Além disso, são situações em que o resultado vem logo, é possível perceber a relação direta. Isso faz sentido, mas, ao mesmo tempo, temos que pensar no outro lado.
JC - Qual seria?
Renata - Tem dados interessantes sobre, por exemplo, promover a transferência de dinheiro, através de um programa estilo Bolsa Família, os Cash Transfers. Transferências pontuais para alguma necessidade trazem benefícios maiores a longo prazo no nível de pessoas. Quando conseguimos fornecer um valor simbólico para isso, é melhor a nível da redução no número de mortes depois ou pessoas em situação de fome. Vamos pensar na proteção social e relacionar isso com os choques e com os desastres. Então, cada vez mais vamos preparar nossa população e prevenir, seja para evacuar das áreas, seja para ter os recursos para sobreviver aos dias de desastre, porque como estamos vendo aqui, não sabemos quando acaba às vezes. Poder ter algum tipo de segurança faz toda a diferença.
JC - Existe a percepção de que a América Latina e o Caribe não estão preparados para lidar com a crise climática?
Renata - O mundo todo ainda está nesse processo. Claro que existem países e comunidades que serão mais afetadas pela questão climática. Falta preparo no mundo todo, mas países da América Latina, do Caribe e da África, que já estão sofrendo com isso em uma frequência maior. Até existe uma discussão, no mundo das finanças e da política climática, de que precisamos falar mais em adaptação, não só em mitigação. Em Harvard, se fala muito mais de mitigação do que adaptação.
JC - Os países ditos desenvolvidos conseguiram atingir esse patamar por não se preocupar com a questão ambiental, muito menos a climática. Mas se cobra que os países que não se desenvolveram reduzam a poluição. Essa lógica se sustenta?
Renata - É complexo. Na última COP (Conferência das Partes para o Clima, da ONU) se falou muito de perdas e danos, que seria o último estágio, ficando além da adaptação. A ideia é lidar com casos como, por exemplo, as várias ilhas do Pacífico que vão sumir. Ponto. Não tem mais o que fazer. Então, como é que a gente lida com essas perdas? Até se fala muito de reparação, se vão ter finanças para reparações, mas é muito complexo. Entra na parte do colonialismo, que é uma área difícil no âmbito internacional. Essa discussão está vindo muito mais à tona. O próprio secretário-geral da ONU já falou que agora precisamos rever esses paradigmas e o tal do status quo, onde está cada país, qual é a sua posição de relevância. Se fala muito em reforma do Banco Mundial para justamente não ser só empréstimos e ter mais doações ou mais acordos que possibilitam com que países possam se desenvolver. O desenvolvimento sustentável é isso. Tem essa discussão também, bem mais ampla, da transição energética, sobre como os países vão se desenvolver sem os combustíveis fósseis se sabemos que todos os países, ou a grande maioria, se desenvolveram e enriqueceram com petróleo e gás. Como falar para um país que recém está conseguindo ter esse crescimento econômico que não pode mais? Existe ainda um receio dos países mais ricos de financiar a transição energética, e precisa ser dessa forma, porque a justiça climática é isso. A própria ONU fala sobre responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Todos temos responsabilidades pela crise climática, mas alguns têm mais do que os outros. Os EUA e a China, que são os maiores emissores historicamente, agora têm responsabilidade de ajudar os países que não causaram a crise climática.
JC - Quem tem que tomar a frente é o governo ou precisaria que o setor empresarial olhasse com mais atenção para a pauta climática?
Renata - Tem que ser um conjunto. Não dá para um funcionar sobre o outro, já que é um sistema. Eu acredito muito no trabalho da sociedade civil, porque sem esse agente, não conseguimos pressionar os governos, não importa qual seja. Mas, realmente, o setor privado é essencial, porque os maiores emissores e poluidores do mundo são empresas. Claro que se fala muito em governo, eu citei Estados Unidos e China, mas, querendo ou não, são as empresas dentro desses países. E precisa de cuidado porque também existe o Greenwashing. Por exemplo, na COP27, a Coca-Cola foi um dos maiores patrocinadores da conferência, sendo que é um dos maiores produtores de plástico do mundo. Sim, é importante estarem lá e ter essa conversa, mas o que eles efetivamente estão fazendo?
JC - O mercado de carbono, em que os países ricos seguem poluindo e compram cotas de não-emissão dos países em desenvolvimento, não serve como ferramenta para que os países ricos disfarcem seus altos níveis de poluição sem efetivamente atacar o problema?
Renata - É bem polêmica essa questão do mercado de carbono. É muito discutido na COP e, realmente, vimos essa divisão nas negociações do que se chama de Norte Global e Sul Global. Se fala muito nos EUA, por exemplo, sobre o mercado de carbono como uma solução mais inovadora e é justamente esse argumento que os países em desenvolvimento estão pensando. Há também o argumento de que eles não diminuiriam as emissões. "Com dinheiro a gente consegue resolver." Eu tendo a pensar que a gente tem que realmente transformar os nossos sistemas, em vez de buscar soluções de curto prazo. A questão climática não foi criada a curto prazo.
JC - E o que se pode fazer para mitigar isso?
Renata - Essa é a grande questão. Alguns países não estão sendo tão ambiciosos quanto poderiam, porque o resultado não é imediato. Podíamos diminuir o funcionamento de certas indústrias, fazer a transição energética. Vai no início retirar alguns empregos, tem esse fato. Mas tem muitos dados interessantes falando sobre como de médio a longo prazo vai ter essa mudança no mundo do trabalho.
JC - Com o agravamento da emergência climática, podemos ver desastres como ocorreu no Vale do Taquari se repetirem?
Renata - Infelizmente, sim. Não é que a gente não tenha mais saída. Eu gosto de ser uma otimista...
JC - Mas...
Renata - Mas tem pouco tempo. O secretário-geral da ONU fala que a juventude global atual é a última geração que pode fazer alguma coisa no enfrentamento às mudanças climáticas. Isso é meio assustador de pensar. Nós vamos ter que mudar os modos de produção e consumo, isso é fato. E eu acredito muito mais na parte de a gente tentar se adaptar. É urgente.
JC - Mitigar não dá mais?
Renata - Eu acredito que dá, mas a gente vai sofrer as consequências. Até por isso tenho frisado bastante nessa área dos desastres. E quando vemos essas regiões no meio de ilhas… é assustador pensar em áreas que estarão submersas no futuro. Por isso temos que mudar nossa visão enquanto coletivo. Tem muito a fazer. Ainda estamos pensando na Agenda 2030 (dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, criada em 2015). Esse ano chegamos na metade. Vamos resolver o mundo inteiro até 2030? Acho que não. Mas temos prazos que são para agora. É preciso mais seriedade e ação dos governos.
JC - Como observa a situação que ocorreu no RS, em que cidades menores e menos preparadas foram atingidas? O que falta no debate nos municípios, informação, dados, vontade política?
Renata - Um dado do governo do Estado aponta que 79,1% da população gaúcha vivem em cidades que não têm um planejamento para prevenir os riscos de enchentes, enxurradas, inundações e deslizamentos. Está totalmente conectado. Não é só porque as chuvas estão muito fortes. O evento extremo das chuvas e das enchentes é uma coisa, mas, para se tornar uma catástrofe ou desastre, tem que ter um aspecto humano, que impactou as pessoas, deixando mortos e feridos. É aí que está a conexão. Tem gente que argumenta que as mudanças climáticas sempre aconteceram, e é verdade. A diferença é que agora está muito mais intenso e mais rápido, isso após a revolução industrial, e está afetando muito mais pessoas.
 
Perfil
Renata Koch Alvarenga tem 26 anos e é natural de Porto Alegre. É Mestre em Políticas Públicas pela Escola de Governo da Universidade de Harvard (Cambridge, EUA) e cursou a graduação em Relações Internacionais na Escola de Diplomacia da Seton Hall University (New Jersey, EUA) e na Unisinos (Porto Alegre). É fundadora e diretora-executiva da EmpoderaClima, organização baseada no Brasil e com atuação global, sobre igualdade de gênero e ação climática, com foco no empoderamento da juventude da América Latina através da educação e acesso a espaços de tomada de decisão, com parcerias junto ao Fundo Malala, ONU Clima, e Unicef. Representa a juventude formalmente em espaços como a ONU Mulheres, o Fórum Econômico Mundial e o New York Times, além de ser conselheira da Fundação Amazônia Sustentável. Tem experiência profissional em política e diplomacia e já trabalhou na Missão Britânica no Brasil e no Escritório da Juventude das Nações Unidas em Nova York. Atualmente, é consultora do Banco Mundial (Washignton DC, EUA) para financiamento de desastres na América Latina e Caribe, área que estudou durante o mestrado - tendo pesquisado sobre resiliência climática no Caribe (em Porto Rico e Barbados) junto à ONU e Harvard.