"Lógica de tributação segue sobre o consumo", diz Melchionna sobre abstenção de voto na reforma tributária

Uma de apenas três deputados que optaram pela abstenção na votação da reforma, deputada gaúcha explica no que baseou sua escolha

Por Bolívar Cavalar

Dep. Fernanda Melchionna (PSOL - RS)
A Câmara dos Deputados aprovou em primeiro e segundo turno a proposta de reforma tributária, nesta quinta-feira (6). Na votação, apenas três deputados federais optaram pela abstenção. São eles o carioca Glauber Braga, a paulista Sâmia Bomfim e a gaúcha Fernanda Melchionna. A parlamentar que representa o Rio Grande do Sul na casa legislativa revelou à reportagem do Jornal do Comércio a sua motivação para se abster do voto. 
Os três deputados são do Partido Socialismo e Liberdade (PSol), que integra a base do governo Luís Inácio Lula da Silva (PT). Apesar disso, os parlamentares decidiram não seguir os governistas e optaram pela independência do voto no âmbito da reforma tributária. Melchionna explica que os políticos avaliam que a proposta aprovada na Câmara é apenas "uma reforma cosmética", e que não beneficia o povo trabalhador, mas sim os mais ricos do País.
"Em primeiro lugar, é uma reforma cosmética - de forma, e não de conteúdo. A lógica dela ainda é a tributação sobre o consumo e não avança sobre uma taxação, uma mudança da matriz tributária para taxar patrimônio e renda. Esta tributação no consumo que faz com que o povo trabalhador e a classe média sejam quem mais paga imposto no Brasil. Nós somos um dos países campeões de desigualdade de renda, e obviamente essa lógica de tributação sobre o consumo é parte desta estrutura que mantém esta regressividade", argumenta a deputada.
Melchionna mantém o discurso de que a tributação não deve ser sobre o consumo. Ela propõe, então, que a taxação seja sobre as grandes fortunas. "Nós temos uma compreensão de que é urgente e necessária uma revolução tributária que taxe grandes fortunas, que taxe lucros e dividendos, que inverta este patamar de tributação sobre o consumo e aumente a tributação sobre o patrimônio e renda, para que os bilionários paguem a conta da crise", afirma a parlamentar.
Sobre o movimento de ir contra o que a base do governo na Câmara orientou para os deputados, Melchionna diz que busca manter independência política como uma alternativa à esquerda. "Nós participamos e fizemos a campanha para o Lula. Óbvio que era fundamental derrotar o Bolsonaro na eleição, e nós vamos seguir fazendo toda a luta política para defender o governo contra ameaças golpistas e ataques da extrema-direita", afirma a deputada. Ela ainda completa: "Ao mesmo tempo, nós defendemos, e eu defendo, manter independência política para termos o nosso posicionamento programático, ideológico, coerente, baseado justamente nos princípios e nas bandeiras históricas da classe trabalhadora e da juventude e das necessidades do povo".
Ela afirma que, ao invés de rejeitar a proposta, os parlamentares optaram pela abstenção para "não se misturar com o bolsonarismo". "Nós não podíamos dar um salvo conduto (à reforma tributária) que não apontasse estas críticas, e por outro lado não poderíamos nos misturar com o bolsonarismo, que obviamente nós temos uma posição totalmente oposta à deles. Então nós optamos por uma abstenção justamente para um alerta sobre estes temas, e a necessidade de seguir a luta pela taxação das grandes fortunas, pela taxação de lucros e dividendos, pela ampliação do imposto sobre renda e patrimônio, para que os bilionários paguem a conta da crise", afirma a deputada.
Para Melchionna, a proposta ideal seria "uma reforma tributária que vá à raiz dos problemas". Ela explica: "que seja uma reforma que combata a regressividade, que taxe os mais ricos, e ao mesmo tempo que garanta direitos e desoneração para os mais pobres, para os trabalhadores, para a classe média. Eu acho que isso é urgente e necessário, se não a gente não vai combater a desigualdade".