Demarcação da Terra Indígena Yanomami teve expulsão de garimpeiros e mobilização internacional

Demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 1992, foi o capítulo final de uma temporada de operações que incluíram explosão de pistas de pouso clandestino e até troca de tiros entre polícias militares e federais

Por Folhapress

Manifestantes indígenas marcham durante uma manifestação para exercer pressão antes de uma decisão crucial da Suprema Corte que poderia tirar suas terras ancestrais, em um acampamento de protesto em Brasília em 10 de setembro de 2021. Grupos indígenas no Brasil acusam o presidente brasileiro Jair Bolsonaro de sistematicamente atacar seus direitos e tentando abrir suas terras para o agronegócio e a mineração. A sentença, que pode afetar mais de 200 terras indígenas atualmente em demarcação, segundo o Instituto de Meio Ambiente Social (ISA), que defende os direitos dos povos indígenas.
A demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 1992, foi o capítulo final de uma temporada de operações que incluíram explosão de pistas de pouso clandestino e até troca de tiros entre polícias militares e federais.
No entanto, antes que o decreto fosse publicado pelo então presidente Fernando Collor em 25 de maio daquele ano, a situação drástica dos yanomamis já corria o mundo, especialmente após os contatos com brancos por causa da empreitada militar da Calha Norte nos anos 1970 e da invasão de garimpeiros na década seguinte.
"A tragédia vem de longe, e a ideia era ocupar a Amazônia com população, dentro de uma estratégia de criar uma barreira humana contra invasões ou avanços na porção norte", diz o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, 63.
Ele havia tomado posse como procurador da República em 1987, e foi designado dois anos depois pelo subprocurador-geral da República da época, Carlos Victor Muzzi, para liderar o inquérito civil público que investigaria a situação, junto com a procuradora Deborah Duprat.
O trabalho inicial consistia em avaliar as denúncias e entender o que se passava com os Yanomami, devastados por doenças, drogas, estupros e prostituição, além dos efeitos deletérios do garimpo para a saúde das pessoas e do meio ambiente. As investigações culminariam numa ação declaratória, anos depois, para a demarcação do território.
A situação também vinha sendo denunciada desde os anos 1970 pela Comissão pela Criação do Parque Yanomami, coordenada pela fotógrafa suíça Claudia Andujar, 91, que viveu por anos entre a etnia e registrou seu cotidiano e seus problemas.
O governo militar, na época, chegou a sugerir, por meio da Funai, a criação de 21 "ilhas" de preservação, descartando a criação de uma faixa contínua de terra.
Em 1979, a Survival International, ONG britânica com sede em Londres, fez as primeiras tentativas para convencer o governo brasileiro a reconhecer os direitos dos yanomamis. Nos anos seguintes, fez denúncias sobre a situação na OEA (Organização dos Estados Americanos) e na ONU (Organização das Nações Unidas), além de protestar em embaixadas contra as "ilhas" para os indígenas.
"Foi quando decidimos convidar o Davi [Kopenawa] a aceitar, em nome da Survival, um prêmio. Isso daria plataforma ao Davi na Suécia. E organizamos no parlamento britânico, em Londres, para o Davi falar aos governos europeus da situação, junto à Claudia Andujar. Esse foi o momento chave", diz Fiona Watson, 62, diretora de pesquisas da Survival International.
A visita foi em 1989, mesmo ano em que o então senador Severo Gomes (PMDB), lançou, com a Comissão de Ação Pela Cidadania, um movimento pela preservação da Amazônia, apoiado por Ulysses Guimarães.
Aragão, visitaria a região naquele ano, especialmente para verificar a situação no rio Catrimani, já poluído pelo garimpo. "Fiquei horrorizado com a situação sanitária", afirma. Quem também ficaria chocado com a situação seria o juiz Novely Vilanova da Silva Reis, que determinou, em 1989, a expulsão dos garimpeiros do território.
"Tiveram que negociar com o Exército, que tinha muita má vontade", diz Aragão, sobre a cessão de pessoal e equipamentos para a expulsão dos garimpeiros do território yanomami, estimados entre 30 mil e 40 mil, na época.
As operações foram muitas, com explosão de pistas, troca de tiros e até um pedido de prisão feito por ele contra o então diretor-geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, por colaboração com os garimpeiros.
"Houve até um ataque na época à sede da superintendência da Polícia Federal em Roraima por parte da polícia militar e do governador, chegaram a trocar tiro pela resistência a retirar os garimpeiros daquela área", diz Aragão.
A década de 1980 terminaria com a eleição de Fernando Collor pelo antigo Partido da Reconstrução Nacional, hoje o Agir, e a necessidade de uma solução para o impasse yanomami.
Em 1991, o então ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, nomeou o indigenista Sydney Possuelo para o comando da Funai, com a missão de impedir a entrada de garimpeiros, segundo Aragão, que era procurador do órgão na época.
Após dois anos de operações, com a terra praticamente sem garimpeiros a determinação do juiz Novely para a criação de uma faixa de terra contínua foi, segundo Aragão, motivo para Collor baixar o decreto de 1992, "contra tudo e contra todos", que cria a área com 9,6 milhões de hectares. O território abrange municípios de Roraima e do Amazonas no Brasil.
Do outro lado da fronteira, na Venezuela, o governo chegou primeiro. Criou, por meio do decreto nº 1.635, de 1991, a Reserva de Biosfera Alto Orinoco-Casiquiare, com 8,2 milhões de hectares, que abrange, entre outros territórios, o Parque Nacional Parima Tapirapecó, onde está concentrada a maior parte das cerca de 15 mil pessoas da etnia no país.
Watson diz que, apesar de anterior, o modelo é mais frágil do que a demarcação, já que não define que o território é específico para os yanomamis da região, mas uma reserva ambiental.
"Na lei venezuelana existe o direito de propriedade coletivo às terras indígenas, mas, no caso dos yanomami, isso ainda não foi reconhecido. A reserva de biosfera tem um grau alto de proteção, mas não dá autonomia aos yanomamis para se reconhecerem como donos da floresta", afirma.
Segundo ela, o modelo é mais frágil para resistir a mudanças na área protegida para a instalação de hidrelétricas, além de proteger os povos originários contra invasões, comércio de terra e mineração.
Watson diz que Collor, durante uma viagem no exterior, ficou preocupado com a imagem do Brasil, em meio aos protestos da Survival e de outras organizações contra as violações de direito dos povos indígenas.
"Por ter ficado chocado com a imagem do Brasil lá fora creio que tenha tomado essa ação mais direta", afirma, sobre a criação da terra indígena que permanece a maior do Brasil.