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Rosenfield defende que faxina ética é um princípio republicano
Crítico do governo petista de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), o filósofo Denis Rosenfield está satisfeito com o que considera uma ruptura da presidente Dilma Rousseff (PT) com as práticas de corrupção na administração pública. O professor do Departamento de Filosofia da Ufrgs sustenta que a faxina ética comandada por Dima é um princípio republicano e suprapartidário e, por isso, deve ser apoiado pelos partidos que fazem oposição à presidente.
Rosenfield afirma que PSDB e DEM devem desistir da criação de CPI porque a petista já tomou as medidas corretas afastando suspeitos de corrupção da gestão.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Rosenfield avalia que a oposição ao governo Dilma está desorientada. Ele aponta que o PSDB está centrado demais nas disputas entre líderes que desejam concorrer à presidência e que, no atual cenário, precisa se renovar. Também comenta que o PSD, que se anunciou um partido de centro, ainda não disse a que veio.
Rosenfield ainda avalia que o PT gaúcho está preso a velhas bandeiras. Para ele, um exemplo disso é o governador Tarso Genro (PT) condicionar o apoio à candidatura de reeleição do prefeito de Porto Alegre José Fortunati (PDT) a um purismo ideológico que seu partido não aplica em nível nacional.
Jornal do Comércio - Qual é sua avaliação dos primeiros meses do governo Dilma Rousseff (PT)?
Denis Rosenfield - Tenho uma avaliação muito positiva do governo Dilma (Rousseff, PT). Isso tem surpreendido algumas pessoas porque eu, como um crítico do PT, estou elogiando o governo de Dilma. Não critico o PT por princípio, critico quando acho que deve ser criticado e elogio quando acho que deve ser elogiado. Sou um intelectual, o meu compromisso é com a verdade.
JC - Em que Dilma está acertando?
Rosenfield - O governo Dilma está empreendendo um trabalho absolutamente central de faxina ética. Faço questão de manter o termo "faxina", porque é uma faxina ética mesmo. Essa é a palavra.
JC - Embora a presidente não queira utilizar esse termo.
Rosenfield - A faxina ética é um princípio republicano. É suprapartidário. Não se pode ter uma disputa partidária sobre os princípios da república. No Brasil, estamos acostumados, sobretudo ao PT, que fez a pior oposição possível ao governo Fernando Henrique Cardoso (FHC, do PSDB), contra tudo o que está aí. A presidente está firmando um princípio ético republicano. Mas, para levar adiante o princípio republicano, ela necessita também do apoio da oposição. Aliás, houve uma declaração do ex-presidente FHC recentemente: "Nós temos que apoiar o governo da Dilma no que diz respeito ao princípio republicano, a faxina ética. Então, o PSDB não tem que apoiar a CPI."
JC - E por que desistir da CPI?
Rosenfield - Porque como é que você vai apoiar uma CPI com os corruptos, ou seja, com os infratores? Quer dizer, isso é uma contradição. Ou seja, ela já fez o que tinha que fazer: destituiu ministros e levou outros à demissão. Ela fez o que era impensável no governo Lula (PT), que passava a mão na cabeça dos aloprados, que deu um exemplo de imoralidade na política. Ela está estabelecendo uma ruptura aqui, seja ela do PT ou não. A ruptura é real. Se ela vai manter ou não, é outra questão. Isso depende ainda de outras questões políticas.
JC - Quais?
Rosenfield - O governo Lula estabeleceu um governo de coalizão com alguns partidos e alguns setores que são o que há de pior na política brasileira, em nome da governabilidade. Isso é uma bobageira sem fim, como se só se pudesse governar com corruptos.
JC - E qual é sua avaliação sobre a atuação do Congresso?
Rosenfield - Pior do que o pior Congresso é a ausência de Congresso. Então, muito cuidado com as críticas às instituições Câmara dos Deputados e Senado. Tem que distinguir a instituição de parlamentares corruptos. Não é certo considerar que todos os deputados e senadores são corruptos. Talvez não seja nem a maioria. Devemos ter um processo, que é feito no Brasil, felizmente, pela imprensa, de saneamento do Congresso. O problema é que os nossos eleitores elegem políticos execráveis. Aí, é responsabilidade dos eleitores.
JC - Há quem veja na reforma política uma saída para esses problemas...
Rosenfield - Não haverá nenhuma reforma política. É puro jogo político. Não vejo reforma política no horizonte. Por quê? Porque os mesmos que usufruem da atual situação não vão mudar o sistema.
JC - E se diz que hoje no Brasil não há oposição...
Rosenfield - E não há mesmo. O Brasil é hoje uma desorientação na oposição. O que os tucanos e os democratas estão apresentando hoje? Absolutamente nada. Você vê que eles estão desorientados.
JC - A oposição está dentro do governo?
Rosenfield - Sim. O PT trouxe para dentro do governo todos os conflitos. Dilma tem muito mais problemas em gerir os problemas internos da sua coalizão do que com a oposição. Porque a oposição está completamente perdida. É importante que se estabeleça uma outra postura por parte da oposição, que a oposição diga: nós vamos apoiar aquilo que nós achamos digno de ser apoiado. Uma oposição responsável.
JC - E há maturidade para isso?
Rosenfield - Não existe maturidade, hoje, nem na situação nem na oposição. Agora, se o Brasil pretende um dia ser uma democracia estável, ele tem que valorizar as instituições. Muito mais do que hoje se valoriza, acima dos partidos. A disputa partidária não pode atingir os princípios republicanos, os princípios democráticos. Pega os Estados Unidos, tem lá os Republicanos e os Democratas. Há alguma discussão contra o direito de propriedade? Não, porque o direito de propriedade é um eixo basilar da sociedade americana. É suprapartidário. Aqui não, aqui a gente discute a democracia representativa que tem que ser participativa. O direito de propriedade é relativizado - invasões do MST, indígenas, quilombolas. E, lá pelas tantas, o mundo jurídico fica dividido: o Ministério Público Federal de um lado, os tribunais, de outro. Mas, sobretudo, o que mais me preocupa é que são os partidos que não se entendem sobre nenhuma base programática. O PSD, por exemplo, até hoje ainda não mostrou a que veio.
JC - Há condições para o surgimento de um novo partido forte?
Rosenfield - Em um primeiro momento, pensei que o PSD pudesse preencher essa função. Não vou dizer que ele não vai preenchê-la. Mas a que veio? Quais são as ideias, os princípios e os valores? Onde estão? Não basta dizer que é a favor disso ou daquilo. Existe uma grande falta de questões programáticas. Tem apenas uns três partidos que chegaram a esboçar isso.
JC - Quais?
Rosenfield - O PT, só que o PT hoje é um partido ideologicamente cada vez mais dividido entre revolucionários, reformistas, social-democratas, mas, sobretudo, inúmeras ideias. Eles ainda mantêm uma retórica revolucionária que, na prática, é social-democrata. É visível. Aliás, até petista diz que tenho razão. Só que o partido não se renova doutrinariamente. Então, é um partido esquizofrênico. Porque, do ponto de vista ideológico, continua defendendo a revolução, mas do ponto de vista prático, onde está a revolução? Quer dizer, não tem nenhum projeto. Então, tem que fazer uma transição para a social-democracia, no sentido europeu da palavra. Os tucanos vão por essa linha social-democrata, mas aí cria um problema com o PT. Eles estão, na verdade, disputando o mesmo campo. Mas, cada vez está mais descaracterizado.
JC - O PSDB está sem liderança?
Rosenfield - Sim. Tem o (senador) Aécio (Neves), o (governador de São Paulo, Geraldo) Alckmin e o (José) Serra, mas eles estão preocupados com os seus respectivos projetos pessoais. Todos querem ser presidente. Os três têm estatura para ser presidente, mas um partido não pode se organizar em torno dos interesses de cada um. E antes havia o Ceará, em que era o Tasso Jereissati. Ele conseguiu a proeza de destruir o PSDB no Ceará, graças àquelas questões regionais, alianças com Ciro Gomes (PSB). Então, esse é o problema, eles têm grandes figuras nacionais que servem no momento eleitoral. Tem uma nova geração. O (governador) Beto Richa, por exemplo, no Paraná. Estão tentando se articular um pouco. Mas, se perguntar qual é a importância do Beto Richa, é nenhuma do ponto de vista partidário. Os tucanos estão muito prejudicados. O DEM, que chegou a alinhar um processo de oposição, ficou perdido no seu processo de renovação no meio do caminho, e o novo caminho agora é a cisão com o PSD.
JC - Então, pode-se prever que o PT elegerá o próximo presidente novamente?
Rosenfield - Se o PT não fizer bobagem, ele tende a permanecer no poder. Porque tem uma máquina montada e um aparelhamento partidário e sindical do Estado brasileiro que é absolutamente importante do ponto de vista eleitoral. Mas, na política, amanhã pode mudar, por isso falo do contexto de hoje. Não vejo nenhuma liderança oposicionista capaz de enfrentar uma reeleição de Dilma ou uma volta de Lula, salvo se o PSDB, que é o único que tem condições de apresentar um candidato alternativo, conseguir se renovar. Ainda tem tempo para isso, tem três anos pela frente. Mas o que estamos vendo não anuncia isso.
JC - E as eleições municipais?
Rosenfield - É diferente. O PT vai crescer. Mas o PMDB também é muito forte. É só ver o que aconteceu em Porto Alegre. E, em que pese o fato de o PT ser muito forte na Capital, está sem candidato natural. O (prefeito José) Fortunati (PDT) e a (deputada federal) Manuela (D'Ávila, do PCdoB) estão na frente, e eles estão mesmo cogitando não apresentar um candidato próprio.
JC - O PT, inclusive, estaria disposto a abrir mão da cabeça de chapa.
Rosenfield - O PDT também faz parte da aliança, tem um ministro importante, o (do Trabalho) Carlos Lupi, que está pressionando - com razão - por uma aliança em torno do Fortunati, para que possam reproduzir aqui a aliança que têm nacionalmente. Claro, via retribuições, fala-se no Rio de Janeiro, ou em estados do Nordeste. Vai depender muito de como isso se configura. O grande problema do Rio Grande do Sul é que o PT gaúcho ainda é muito rançoso ideologicamente. Não se nota esse ranço em outros lados do País.
JC - O senhor se refere às velhas bandeiras?
Rosenfield - Às velhas bandeiras contra as privatizações e o mérito. Pela democracia participativa. Tem democracia participativa no governo federal? Oito anos de Lula e um de Dilma e eles nem falam nisso.
JC - Qual é a sua avaliação sobre os primeiros meses do governo Tarso Genro?
Rosenfield - Ainda acho o governo do Tarso Genro muito rançoso ideologicamente. Dei um exemplo de uma possível aliança com Fortunati. Seria reproduzir a mesma base do cenário nacional. O governador acha que não vale para o Estado porque incluem partidos opostos ao PT. Então, não vale para o Estado, mas vale para o País? Quer dizer, o PT no nível nacional faz aliança com PDT, PTB, PMDB... Faz aliança com todos. É conversa fiada, portanto. Isso é simplesmente descartar a aliança em nome de uma pureza ideológica que não existe. É até uma gracinha o governador Tarso Genro (PT) dizer que só fará alianças com o Fortunati (PDT) se ele fizer outras alianças partidárias. Mas o PMDB (aliado do governo Fortunati, mas oposição ao PT no Estado) está onde? Está na vice-presidência da República, em uma aliança com o PT. Isso é ranço ideológico para não querer apoiar o Fortunati. O que nós temos que fazer é uma política livre de ranços ideológicos, uma política que se paute por princípios básicos de racionalidade política. E, em nível nacional, implica também que, do ponto de vista da oposição, o PSDB e o DEM não podem fazer oposição como o PT fazia.
Perfil
Denis Lerrer Rosenfield nasceu em Porto Alegre, em 1950. Estudou no Colégio Israelita, na Capital, e prestou vestibular para os cursos de Filosofia e Economia, na Ufrgs e na Pucrs. Em 1972, já cursando Filosofia na Ufrgs, mudou-se para o México em função do regime militar, que dissolveu a Faculdade de Filosofia da universidade em diversos institutos e chegou a expurgar professores. Passou a viver na França em 1976, permanecendo no país até 1982. Lá, concluiu seu doutorado pela Université Paris 1 (Panthéon-Sorbonne). De volta ao Brasil, foi integrado ao corpo docente do Departamento de Filosofia da Ufrgs. Atualmente é professor da universidade e vem atuando, principalmente, em estudos sobre democracia, política, coisa pública e ética. Tem 21 livros publicados no Brasil, na Argentina, na França e no México. Sempre interessado pela atividade política, foi convidado a escrever artigos sobre o Orçamento Participativo (OP) e o Fórum Social Mundial (FSM), dos quais é crítico. Desde então, vem sendo convidado a contribuir para diversos jornais de circulação nacional, como o Correio Braziliense e a Folha de S. Paulo. Atualmente, é articulista dos jornais O Estado de S. Paulo, O Globo e Diário do Comércio. Tem 60 anos, é casado e tem quatro filhos.