* Ana Stobbe, de Santana do Livramento
Cidade-gêmea de Rivera, Santana do Livramento está entrando de vez na instalação de free shops. Com três lojas francas já instaladas no perímetro urbano desde 2025 e uma quarta na zona rural, o município espera dobrar o número de empreendimentos num futuro próximo. Mais do que isso, é o setor de serviços, como um todo, que fomenta a economia da “capital” da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul.
Nesse sentido, cresce também o turismo rural e de experiência. O Trem do Pampa, que iniciou as operações em 2024, já recebeu 40 mil visitantes. E, ao mostrar que o pampa merece a atenção dos viajantes, movimentou outros empreendimentos. É o caso das propriedades do interior da cidade que recebem turistas para viver um dia de campo.
Na zona rural, também estão outras matrizes econômicas santanenses. De um lado, a agropecuária, que reúne áreas de preservação permanente, venda de material genético e a produção que levou a cidade a ser considerada a capital da ovelha. De outro, os parques eólicos, que geram energia a partir do vento e contribuem para a transição energética.
É sobre esse cenário que o prefeito de Santana do Livramento, Evandro Gutebier (Republicanos), comenta nesta entrevista exclusiva concedida ao Jornal do Comércio. Além disso, ele avalia o papel da gestão municipal e das universidades no desenvolvimento regional.
Jornal do Comércio — Quais são as principais oportunidades ao desenvolvimento econômico da Fronteira Oeste?
Evandro Gutebier — Somos o segundo maior município em extensão rural no Rio Grande do Sul. A economia se baseia a partir do comércio, do turismo, que está em desenvolvimento, e do setor primário. O agronegócio está se desenvolvendo cada vez mais. Há 20 anos, tínhamos 5 mil hectares de plantação de soja. Hoje, são mais de 75 mil hectares. Temos parceria com Rivera, turismo de caminhada, turismo rural. Tem também os free shops. Do nosso lado da fronteira, são quatro. O primeiro é rural, da Almadén, focado em vinhos. Depois vieram os urbanos. E os nossos índices orçamentários têm melhorado também. Estamos melhorando em todos os sentidos.
JC — No caso do turismo, estão sendo criadas novas experiências na cidade. A rede hoteleira dá conta do fluxo de visitantes?
Gutebier — Hoje, temos em torno de 2 mil leitos para receber pessoas. Mas há projetos de novos hotéis. Sabemos que a demanda é maior do que nós ofertamos. Nos últimos dois finais de semana, por exemplo, os dos dias 9 e 16 de maio, tivemos 100% de lotação. No final de semana de 2 de maio, estava acima de 85% a ocupação. Realmente, somos deficitários em hotéis. Mas através do empreendedorismo, isso deve melhorar. Tem dois novos hotéis que estão vindo para serem construídos em Santana do Livramento.
JC — Tem alguma iniciativa nova no turismo?
Gutebier — Estamos organizando uma meia maratona na cidade que vai chamar bastante o público de fora para percorrerem os 21 quilômetros. Mas tem muita coisa que vem agregando valor à nossa cidade e fazendo as pessoas virem nos visitar.
JC — Como o Trem do Pampa contribuiu para o turismo de experiência do município?
Gutebier — Desde que foi iniciado o projeto do Trem do Pampa, passaram 14 anos. A nossa gestão iniciou em 2021 e priorizamos isso. Porque entendemos que a Giordani Turismo, que é quem movimenta a Maria Fumaça em Bento Gonçalves, era a mesma empresa que tinha feito o estudo técnico do projeto do Trem do Pampa, e que eles já tinham essa viabilidade. Tinha que ter liberação da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) porque era uma concessão da Rumo e tudo isso nos segurava. Mas deu certo. Ao mesmo tempo, a Almadén abriu o free shop. E, hoje, o trem sai da estação Santana do Livramento e percorre 20 quilômetros até Palomas, onde está a Almadén que recebe o turista. Tem algumas caminhadas lá, o museu do vinho, etc.
JC — A Metade Sul do Estado ainda é bastante dependente da agropecuária. Como repensar o setor primário para agregar valor?
Gutebier — Tem o turismo rural, com fazendas que se organizaram para receber o turista e proporcionar experiências como andar a cavalo e trabalhar com gado e ovelha durante o dia. Existem algumas propriedades no interior de Santana do Livramento que estão estruturadas para isso e é algo que vem acontecendo e aumentando ano a ano. Quem gosta desse tipo de turismo está vindo para cá.
JC — Enxerga necessidade de industrializar mais a produção primária?
Gutebier — Na parte da agropecuária, não somos necessitados. Somos a capital da ovelha, temos 350 mil ovinos e mais 550 mil bovinos. Somos o segundo maior criador de gado e o maior criador de ovinos do País. Temos, hoje, somente um frigorífico que abate ovinos aqui, mas já estamos para inaugurar um outro que vai dobrar a produção e também trazer o abate de bovinos. E essa carne já sai pronta de Santana do Livramento para ser comercializada.
JC — Como enxerga as iniciativas de aliar a pecuária com a sustentabilidade e a preservação do Pampa?
Gutebier — Temos a APA (Área de Preservação Ambiental) do Ibirapuitã que envolve três municípios, Santana do Livramento, Quaraí e Alegrete. E 57% dessa APA está dentro do nosso município. Os produtores têm bastantes restrições para preservar o bioma. Não podem arar, por exemplo, e o gado é criado no campo nativo. Estamos trabalhando junto com o setor privado para agregar valor a isso. Porque, por ser campo nativo, tem uma variedade de plantas que esses animais podem se alimentar, então eles são diferenciados. Também vendemos genética para o resto do Estado e para o País. Somos o berço do Brangus, Hereford e Braford. Temos vários prêmios que ganhamos porque realmente temos várias cabanhas que são símbolo de genética e muito eficientes.
JC — Qual é a contribuição dos parques eólicos para a receita do município?
Gutebier — Não muito. Porque o que gera é mais o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), que vai para o estado e retorna menos de 1% pelo FPM (Fundo de Participação dos Municípios) para Santana do Livramento. Traz uma receita, obviamente, mas não como as pessoas imaginam.
JC — Enxerga potencial de expansão das eólicas na região?
Gutebier — Sim, tem dois projetos prontos aqui, mas que dependem muito dos leilões que são feitos pelo governo federal e que não têm acontecido. Mas temos, no mínimo, dois projetos de parques eólicos a mais para serem instalados aqui em Santana do Livramento.
JC — Qual é o papel dos free shops na economia local?
Gutebier — Primeiro de tudo, temos uma cota de US$ 500,00 que as pessoas podem comprar em Rivera. Mas essa cota é só para lá, em Santana do Livramento tem mais US$ 500,00 para comprar. Além disso, os uruguaios não compram nos free shops de Rivera. Então, eles são potenciais clientes em Santana do Livramento. Porque, além de termos o turismo de compra 100% brasileiro no Uruguai, temos os turistas uruguaios que vêm comprar conosco, nos nossos free shops.
JC — Como o comércio local compete com os preços dolarizados dos free shops?
Gutebier — Não vejo muito problema nisso. A princípio, não teve nenhuma queixa disso. A livre concorrência é sempre boa para o consumidor. Está todo mundo se adequando a isso. E sentimos, como consumidor, uma diferença nos preços a partir dessa livre concorrência.
JC — Como enxerga o multiculturalismo da fronteira?
Gutebier — É muita variedade. E as pessoas procuram variedade. As pessoas vêm para somar e melhorar cada vez mais o nosso comércio também.
JC — Diria que a população tem se transformado pela migração?
Gutebier — Somos a cidade da Fronteira Oeste que mais cresceu. Fomos de 77 mil habitantes, em 2010, para 84 mil, em 2022. Realmente estamos conseguindo atrair novos moradores.
JC — As universidades que se instalaram na região nos últimos anos têm contribuído?
Gutebier — Muito, porque traz pessoas de outras regiões para virem estudar aqui. Isso enriquece a cultura de Santana do Livramento. Vem pessoas de vários lugares do país, inclusive. E, em geral, todos se adequam à nossa fronteira, porque somos bastante hospitaleiros, é uma característica nossa.
JC — Inclusive, tem o projeto do Parque Tecnológico Binacional, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa)...
Gutebier — Somos parceiros desse projeto. Inclusive, demos o terreno e uma contrapartida financeira para que esse Parque Tecnológico venha se instalar aqui na nossa cidade. A partir disso, a região deve se desenvolver mais, porque foi o que aconteceu em outros lugares em que outros parques tecnológicos estão instalados e que somaram muito.
JC — Como é a cooperação da prefeitura com a cidade de Rivera, no Uruguai?
Gutebier — Muito boa. Os maiores entraves são do ponto de vista da legislação. Mas o que podemos fazer de parceria e cooperação entre as cidades, fazemos. Entendemos que é uma cidade-gêmea e que temos que trabalhar juntos. O que um pode ajudar para melhorar a vida do outro, a gente costuma fazer.
JC — Há projetos de longo prazo nesse sentido?
Gutebier — Temos projetos principalmente na parte ambiental. Inclusive, tivemos um projeto com a União Europeia junto. Essas iniciativas desenvolvem o cuidado ao meio ambiente na fronteira porque a natureza não tem fronteiras, ela passa de um lado para o outro.
JC — Tem sido possível atrair investimentos privados ao município?
Gutebier — A princípio, sim. Tem os dois projetos de eólicas aguardando leilão, tem grandes redes vindo se estabelecer em Santana do Livramento, novos free shops e no mínimo dois hotéis que estão chegando aqui na cidade.
JC — Nos investimentos públicos, qual tem sido a prioridade?
Gutebier — Em infraestrutura. Sempre digo que o privado sabe caminhar sozinho e que é na infraestrutura que precisamos investir. Precisamos disso para a nossa cidade se desenvolver, tanto na parte urbana como na rural, já que somos um município com mais de 4 mil quilômetros de estradas rurais. É uma cidade muito grande. A infraestrutura do ir e vir é muito importante para o desenvolvimento da nossa região. Nunca devemos nos esquecer também da saúde e da educação.
JC — Como está a organização para o Marco Legal do Saneamento? Será possível universalizar os serviços dentro do prazo previsto?
Gutebier — Acredito que sim. Já temos mais de 70% do nosso município coberto com água e esgoto. Estamos acima do Aquífero Guarani. Então, nossa água é 100% de poço e não temos problemas de abastecimento. É uma das melhores águas do País. E a responsabilidade é do DAE (Departamento de Água e Esgoto), que é municipal.
JC — As contas públicas estão equilibradas?
Gutebier — Sim, as contas públicas vêm bastante equilibradas. Estamos muito tranquilos enquanto a isso.
JC — O senhor assumiu a prefeitura há cerca de dois meses após renúncia da prefeita eleita para concorrer às eleições gerais. Como tem sido a experiência?
Gutebier — Muito tranquila. Nós já administrávamos a quatro mãos. Sempre fui um vice-prefeito extremamente ativo. Então, não mudou. Me sinto um pouco mais só, apenas, mas está tudo muito tranquilo.
JC — Qual é o seu objetivo no restante do mandato?
Gutebier — Acredito mutio no empreendedorismo e que nada se resolve sem ele. É preciso acreditar na nossa cidade, fazer com que as pessoas venham e que invistam em Santana do Livramento. E que o setor público seja um facilitador, para que não atrapalhe e atraia os empreendimentos para que possamos nos desenvolvermos cada vez mais. Com o desenvolvimento, o setor público consegue chegar e melhorar mais a vida das pessoas, que é o nosso interesse.