A cadeia produtiva do arroz segue como um dos principais motores econômicos do Rio Grande do Sul, especialmente nas regiões da Campanha, Fronteira Oeste e Sul do Estado. No entanto, o setor atravessa um período de forte pressão financeira, marcado pelo aumento dos custos de produção, endividamento dos produtores e redução gradual do número de agricultores na atividade. Segundo o assistente técnico regional da Emater/RS-Ascar, Fábio Gallarreta, que atua em 20 municípios da região de Bagé e Fronteira Oeste, a safra 2024/2025 foi impactada diretamente pelo cenário geopolítico internacional, principalmente pelos reflexos das guerras entre Rússia e Ucrânia, e a de 2025/2026 pelo conflito no Oriente Médio.
“O custo da lavoura aumentou significativamente. Hoje, o desembolso direto para implantação e condução da cultura gira em torno de R$ 15 mil por hectare”, afirma. Conforme o técnico, o incremento nos custos da última safra ficou entre 10% e 15%, puxado principalmente pelo encarecimento de fertilizantes, combustíveis e defensivos agrícolas. Os fertilizantes foram afetados inicialmente pela crise envolvendo Rússia e Ucrânia, grandes fornecedores globais de potássio. Já os recentes conflitos no Oriente Médio elevaram os preços do petróleo, impactando diretamente diesel, lubrificantes e diversos insumos derivados da cadeia petroquímica.
Enquanto os custos avançam, o preço recebido pelo produtor permanece abaixo do necessário para cobrir as despesas da lavoura. De acordo com levantamento da Emater, os preços praticados no Estado variam atualmente entre R$ 58 e R$ 65 por saca de 50 quilos, com maior incidência próxima de R$ 61. O problema, segundo o especialista, é que o custo de produção estimado pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) exige um valor próximo de R$ 75 por saca para garantir equilíbrio financeiro ao produtor. “A situação preocupa porque, além do custo elevado, muitos produtores já carregam passivos e endividamento acumulado de outras safras”, destaca.
Diante do cenário econômico desfavorável, a redução da área cultivada na próxima safra é considerada uma possibilidade real. Apesar disso, o técnico observa que parte da produção vem sendo direcionada para exportação, principalmente via Porto de Rio Grande, numa tentativa de reduzir estoques internos e melhorar a sustentação dos preços. Outra alternativa que começa a ganhar espaço dentro do setor é a utilização do arroz para produção de etanol. A proposta já vem sendo discutida junto ao governo estadual e é vista como uma forma de ampliar o consumo do cereal e agregar valor à cadeia produtiva.
“O Rio Grande do Sul é deficitário em etanol e depende muito do produto vindo de São Paulo. A ideia é transformar um problema em oportunidade”, afirma. Segundo ele, já existem plantas industriais em construção no Estado voltadas para produção de etanol a partir de outras culturas, como trigo e batata-doce, e o setor arrozeiro busca apoio para implantação de unidades também na metade Sul.
Além dos custos elevados, a cadeia enfrenta uma redução gradual no consumo. Dados do setor indicam que o consumo per capita de arroz caiu de cerca de 36 quilos para 32 quilos por habitante ao ano na última década. Para o especialista, esse comportamento acompanha uma tendência mundial de redução do consumo de carboidratos e pressiona ainda mais o mercado internacional. “A exportação ajuda a regular estoques, mas não resolve sozinha o problema. Sem aumento de consumo, o mercado continua pressionado”, explica. Ele acredita que a saída passa por agregação de valor, novos usos industriais e diversificação de produtos derivados do arroz, incluindo o crescimento do mercado de farinhas sem glúten.
Apesar das dificuldades econômicas, o técnico não acredita em uma redução drástica da cultura no Rio Grande do Sul, como ocorreu em outras cadeias agrícolas, a exemplo do trigo, pois para ele o arroz irrigado possui maior estabilidade produtiva, graças ao domínio tecnológico dos produtores e à irrigação por inundação, predominante no Estado. “O arroz tem uma estabilidade que outras culturas não possuem. O produtor domina a tecnologia e a irrigação reduz muito o impacto climático”, afirma. Enquanto culturas de inverno, como o trigo, sofrem perdas severas em períodos de excesso de chuva durante a colheita, o arroz apresenta menor vulnerabilidade climática.
Um dos principais sinais de transformação da cadeia arrozeira está na redução do número de produtores. Conforme dados da Associação dos Arrozeiros de Uruguaiana e Barra do Quaraí, repassados à Emater, houve queda entre 30% e 40% no total de produtores desde os anos 2000.
Ao mesmo tempo, o tamanho médio das propriedades aumentou. Há cerca de 25 anos, a média de área por produtor ficava entre 200 e 250 hectares. Atualmente, supera os 500 hectares. O movimento reflete a saída gradual dos pequenos produtores da atividade, pressionados pela baixa rentabilidade e pelo aumento dos custos operacionais. “Muitos migraram para pecuária de corte, leite ou outras atividades. Outros simplesmente se aposentaram”, relata. Mesmo diante das dificuldades, o arroz continua sendo uma das culturas mais importantes para a economia da metade Sul gaúcha, sustentando empregos, movimentando a indústria e mantendo forte presença nas exportações do Estado.