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Publicada em 11 de Maio de 2026 às 00:25

Potencial dos biocombustíveis é alternativa ao setor do arroz

Grão gigante não é próprio para o consumo, mas pode ser empregado na produção de etanol e de ração

Grão gigante não é próprio para o consumo, mas pode ser empregado na produção de etanol e de ração

/Lanzetta/Embrapa/Divulgação/JC
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Eduardo Torres
Eduardo Torres Repórter
Um arroz de grão gigante, chegando a 52 gramas a cada mil grãos – o dobro do arroz convencional –, com elevado teor de amido e não recomendado ao consumo humano é atualmente desenvolvido no campo experimental da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas, e pode representar mais uma resposta do agro gaúcho à crise dos combustíveis. Mais que isso, é uma maneira de viabilizar economicamente as lavouras de arroz na macrorregião retratada neste capítulo do Mapa Econômico do RS. O BRS AG é desenvolvido para ser matéria-prima na produção de etanol e para ração animal.
Um arroz de grão gigante, chegando a 52 gramas a cada mil grãos – o dobro do arroz convencional –, com elevado teor de amido e não recomendado ao consumo humano é atualmente desenvolvido no campo experimental da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas, e pode representar mais uma resposta do agro gaúcho à crise dos combustíveis. Mais que isso, é uma maneira de viabilizar economicamente as lavouras de arroz na macrorregião retratada neste capítulo do Mapa Econômico do RS. O BRS AG é desenvolvido para ser matéria-prima na produção de etanol e para ração animal.
“Essa cultivar não se diferencia em nada no manejo e no potencial produtivo atual do arroz no Rio Grande do Sul. O grão, diferenciado, é que se destina a outra finalidade e pode agregar valor aos produtores”, explica o pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Ariano Magalhães.
E mesmo que a cultivar soe como novidade em tempos de corrida por combustíveis alternativos e sustentáveis, o BRS AG não é nada novo. Foi apresentado ainda em 2014, como resultado de uma crise de preços no arroz e da primeira onda de biocombustíveis no País. 
"Em 2010, a partir de uma crise, o setor produtivo procurou a Embrapa para desenvolver uma alternativa e este foi o resultado. Mas, na época, houve recuperação do arroz e o interesse diminuiu. A cultivar não chegou a ser produzida comercialmente. Agora, em uma nova crise, fica demonstrado que o setor precisa pensar a médio e longo prazo. Já houve procura de produtores durante a abertura da colheita do arroz, e a indústria de biocombustíveis no Estado também se encontra em um novo estágio de desenvolvimento. O cenário é mais favorável e o BRS AG pode ser uma forma de equilibrar um pouco mais o mercado", comenta Magalhães.
Somente entre janeiro e dezembro, com oferta em alta, o preço pago pelo arroz ao produtor teve redução de 47%. Os cinco municípios com maior produção do grão no Rio Grande do Sul ficam justamente entre a Campanha, Fronteira Oeste e Sul, e mesmo com redução de área plantada, por exemplo, entre 2024 e 2025, o desenvolvimento genético e o manejo aprimorado têm garantido produtividade positiva a cada safra. Em contrapartida, nos últimos 30 anos, o volume per capita de arroz consumido pelo brasileiro reduziu em 27%.
A verticalização da cadeia produtiva também é garantida na região, com a maior concentração dos engenhos de arroz em polos como Pelotas, Uruguaiana e São Gabriel. Uma das alternativas apontadas em estudo do Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA) é a busca de novos mercados internacionais ao arroz gaúcho. No primeiro trimestre deste ano, este movimento foi bem sucedido. A venda de arroz no Exterior representou 47,1% das exportações de Pelotas no período, e registrou uma alta de 90% no arroz com casca no Estado em relação aos três primeiros meses de 2025, mesmo com uma queda de 48% no arroz já processado. No entanto, o setor relata desaceleração nos meses seguintes.
"A nossa estimativa é de que o arroz gigante poderia ocupar 10% da área produtiva com o grão no Rio Grande do Sul. Não comprometeria a demanda por alimento e garantiria um fator de equilíbrio de mercado, com valor agregado, ao produtor", explica o pesquisador.
No atual ciclo produtivo de arroz, a Embrapa fez a primeira multiplicação de sementes, na próxima, o desenvolvimento se dará ainda no campo, e a estimativa é de que em duas safras seja possível ter grãos suficientes para abastecer a demanda industrial para produção de etanol ou ração animal.
Os estudos indicam que a cultivar tem capacidade de gerar 430 litros de etanol por tonelada de grãos, um potencial superior ao milho e à cana de açúcar, por exemplo. O cálculo da Embrapa Clima Temperado é de que, com um cultivo de 100 mil hectares, seja suficiente produzir em torno de 100 quilos por hectare e, com isso, abastecer a demanda industrial.
"Todo cereal se presta à produção de biocombustível por meio da hidrólise, mas essa variedade garante esse processamento com mais eficiência e menor tempo em relação ao arroz fino, por exemplo, além de não representar uma concorrência à produção alimentar", detalha o pesquisador.
A CB Bioenergia, de Santiago, na Região Central, que começou este ano a produção de etanol a partir de trigo, com capacidade para processar outros cereais, já procurou pela entidade e faz testes com o BRS AG. Com o know-how do processamento de arroz instalado na macrorregião, o sucesso dessa variedade pode ainda representar um estímulo à verticalização da produção de biocombustíveis.
Os usos alternativos do arroz – todos vinculados a produtos complementares à produção alimentar – têm na macrorregião expoentes como a produção de proteína, óleo, farelo para nutrição humana e animal e matéria-prima para a indústria alimentícia a partir do farelo que sobra do polimento do arroz nos engenhos. Com a valorização do mercado fit, empresas como a Irgovel, em Pelotas, projetam ampliar sua produção.
Já o uso da casca do arroz, durante muito tempo um problema ambiental ao setor, é combustível consolidado para a geração de energia na região. São pelo menos dez usinas térmicas movidas pelos resíduos do grão e gerando energia para consumo próprio ou para a rede elétrica.
Neste ano, por exemplo, a Camil finalizou seu novo parque industrial, em Itaqui, com área industrial de 50 mil metros quadrados e a construção de uma nova usina térmica, com capacidade para 12 MW e lançando energia no sistema elétrico do Rio Grande do Sul. Com capacidade para geração de 5 MW, a Nova Participações previa investir em um usina em Uruguaiana em 2026, mas o projeto segue sem avanços. 

Maiores áreas e produções de arroz da região

 Uruguaiana: 72,2 mil hectares | 707,2 mil toneladas
 Santa Vitória do Palmar: 68,1 mil hectares | 653,1 mil toneladas
 Itaqui: 57,2 mil hectares | 604,7 mil toneladas
 Alegrete: 50,5 mil hectares | 460,7 mil toneladas
 Dom Pedrito: 36,9 mil hectares | 339,2 mil toneladas

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