O Rio Grande do Sul é o principal responsável pela produção de arroz no País: 70% dos grãos consumidos no Brasil são oriundos das lavouras gaúchas, ou seja 7,5 milhões de toneladas na safra 2025/2026. Desse montante, 80% saem dos campos cultivados nas regiões Centro-Sul, Sul, Campanha e Noroeste. Mas, ao mesmo tempo em que as regiões são gigantes na produção e beneficiamento do cereal, com mais de 130 anos de know-how e tradição no cultivo orizícola, amargam problemas crônicos: preços achatados no mercado interno, dificuldades logísticas e concorrência tributária desigual com estados como Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina seguem sendo apontados como empecilhos para um melhor escoamento do produto para o restante do Brasil. Sofrem a indústria e sofrem os produtores, que enfrentam custos de produção elevados, baixa remuneração e endividamento.
“Aqui no Rio Grande do Sul, apesar de o Estado ser o maior produtor de arroz do País e de ter a maior concentração de indústrias arrozeiras fora da Ásia, estamos perdendo importância e competitividade. Embora hoje o Estado produza 70% do arroz nacional, estamos atendendo pouco mais de 50% do consumo brasileiro”, afirma o presidente do Sindicato da Indústria do Arroz do Rio Grande do Sul (Sindarroz), Carlos Eduardo Borba Nunes.
Entre os principais problemas da indústria está o fato de as regiões produtoras estarem geograficamente deslocadas, e por isso arcarem com o maior custo logístico do Brasil para chegar nos mercados consumidores de outros estados. Além disso, têm a maior carga tributária no arroz dentro do País, sofrendo com a concorrência principalmente de Minas Gerais, São Paulo e Paraná. “Minas Gerais importa com zero, vende com zero e passa o crédito em bolsa para o comprador. O Paraná, importa com zero, vende com destaque do ICM e paga 1%”, afirma Nunes.
Segundo o diretor do Sindicato das Indústrias de Arroz de Pelotas (Sindapel) e proprietário da Arrozeira Pelotas, Dilnei Sander Portantiolo, a tabela mínima de frete elevou os custos operacionais da indústria gaúcha, e a questão tributária tirou competitividade. “Quando vendemos para Minas Gerais, por exemplo, pagamos 7% de ICMS. Já o arroz importado do Paraguai entra sem essa tributação e ainda sem tabela de frete internacional”, afirma. Para ele, o cenário atual acaba favorecendo a instalação de indústrias fora do Rio Grande do Sul. “Hoje é mais vantajoso instalar uma indústria em Minas Gerais e importar arroz do Mercosul do que manter uma indústria no Rio Grande do Sul”, critica.
Diante da crise, Nunes teme que a cultura do arroz padeça do mesmo problema que acometeu a cadeia do trigo, que dos 150 moinhos dos tempos áureos, restaram pouco mais de 20. “Não podemos deixar que a indústria do arroz venha a minguar e sucatear. Há 20 anos, o Estado contava com uma área de 1.150.000 hectares de arroz no Rio Grande do Sul e hoje temos 900 mil, menos 250 mil hectares. Se não for tomada alguma atitude para atacar essa situação, o setor não vai resistir e os produtores vão realmente migrar para outras culturas”, afirma o presidente do Sindarroz, entidade que representa 100 indústrias no Rio Grande Sul.
Com a colheita encerrada, a safra 2025/2026 teve produtividade de 8.818Kg/ha, menor do que a registrada no período passado que chegou a 9.044Kg/ha. “Além da perda de produtividade, o produtor enfrenta um problema grave de comercialização. Hoje o arroz está sendo vendido em torno de R$ 65 a saca de 60 quilos, valor que não cobre o custo de produção”, afirma.
Diante do cenário econômico desfavorável, a expectativa do setor é de nova redução na área cultivada com arroz na próxima safra, em torno de 10%, conforme estimativa do Sindapel. O próprio dirigente afirma que pretende reduzir em cerca de 8% sua área cultivada, o equivalente a aproximadamente 120 hectares. “Se não houver redução de área, não há como melhorar o preço, pois o arroz não trabalha com mercado futuro, é basicamente oferta e procura. Quando a oferta é maior que a demanda, o preço despenca”, explica Portantiolo.
Além do preço, os custos de produção seguem entre as principais preocupações do setor, com foco nos valores do diesel e dos fertilizantes, em função dos reflexos da guerra no Irã que coincidiu com o pico da colheita, fazendo os produtores pagarem R$ 8,40 pelo litro do diesel. No caso dos fertilizantes, o dirigente do Sindapel diz que os produtores ainda não iniciaram as compras de fósforo e ureia para a próxima safra devido aos preços elevados. Apenas o potássio já foi adquirido, já que mantém valores semelhantes aos do ano passado.
“Existe uma preocupação muito grande sobre quais tecnologias serão utilizadas, porque muitos produtores terão dificuldade de capital para manter o mesmo padrão de adubação dos últimos anos”, diz. Portantiolo define o momento como uma crise prolongada e admite preocupação crescente dentro da cadeia produtiva, com empresas em recuperação judicial e outras avaliando a mesma medida. “Nós estamos vivendo cerca de 18 meses consecutivos de queda nos preços. É impossível uma empresa ter lucro quando o produto baixa de valor todos os meses”, afirma.
Entre as saídas está exportar o grão para os mais de 138 destinos que compram o arroz gaúcho. No primeiro trimestre de 2026, as exportações gaúchas do cereal cresceram 137%, em comparação ao mesmo período anterior, com 529,4 mil toneladas embarcadas. “Estamos em busca de novos mercados compradores de fora do País para aumentar nossa participação no mercado. Temos grande reconhecimento também pelo padrão de qualidade, especialmente em relação ao arroz norte-americano, porque é um produto ou híbrido ou transgênico”, diz Nunes. A Arrozeira Pelotas, por exemplo, destina aproximadamente 25% das vendas ao mercado externo e 75% ao mercado interno. “Ainda assim, a exportação não tem sido suficiente para equilibrar as contas do setor”, diz Portantiolo.