De Santana do Livramento
O pampa gaúcho está preservado nas diversas canções nativistas e tradicionalistas que ressoam pelo Rio Grande do Sul. O imaginário e a realidade, às vezes próximos e, em outras, distantes, podem ser comparados ao visitar a Fronteira Oeste do Estado. E é nesse sentido que Santana do Livramento tem apostado no turismo de experiência.
Atualmente, são dois mil leitos no setor hoteleiro do município, conforme a Secretaria Municipal de Turismo de Santana do Livramento. E o perfil do turista que se hospeda neles tem se transformado. Se, inicialmente, os viajantes chegavam para realizar compras nos free shops uruguaios e brasileiros, hoje, chega para permanecer por um período maior para conhecer a gastronomia, as paisagens e a produção agropecuária.
O secretário municipal de Turismo, Matheus Medina, afirma que o município ainda tem no turismo de compras sua principal característica, mas observa uma diversificação crescente das experiências oferecidas aos visitantes. “O turismo é pautado muito ainda no turismo de compras, que é histórico. Nós somos o principal destino de turismo de compras do estado do Rio Grande do Sul. Hoje também, com o fechamento do primeiro ano de operação do Trem do Pampa, nós tivemos 40 mil visitantes”, destaca.
Segundo ele, a cidade também registra um fluxo expressivo de turistas estrangeiros. “Somente nesse ano a gente teve mais de 112 mil entradas ali pela migração, tendo mais de 90% argentinos, mais de 8% uruguaios e demais nacionalidades que passam ali. Então, é um número bem importante de turistas argentinos, mas que, claro, somente passavam na nossa fronteira. O destino final era, na grande maioria, o litoral catarinense e um pouquinho no litoral gaúcho”, explica.
Quem percebe isso de perto é a proprietária do Hotel Ermitage, Elisa Ermida. “A chegada do Trem do Pampa foi um divisor de águas, porque as pessoas passaram a ver que tinha mais coisa para fazer aqui além das compras. Os argentinos, por exemplo, vêm para cá ficar alguns dias antes de seguirem ao litoral catarinense no verão. Estamos cada vez mais nos consolidando como destino turístico”, conta.
Conforme sua análise, em momentos de alto fluxo, as hospedagens não dão conta da demanda. De janeiro a março, os argentinos são os principais turistas. No restante do ano, o turismo de experiência ligado ao bioma pampa é o atrativo. “Já não é mais uma realidade começar a organizar e procurar hospedagem 30 dias antes. Agora, é preciso dois meses de antecedência”, avalia a empresária.
Medina afirma que a ocupação da rede hoteleira já atingiu a capacidade máxima em alguns períodos recentes. “Nos últimos quatro fins de semana, duas vezes nós tivemos a capacidade máxima da hotelaria. Então imagina que eram dois mil turistas de certeza, porque essa é a nossa capacidade aqui em Santana do Livramento no fim de semana”, relatou à reportagem em entrevista realizada no dia 15 de maio.
Na sua propriedade rural, Elisa possui uma cabanha que aposta justamente nesse perfil de turista. “Minha propriedade é de pecuária e dentro da Área de Preservação Ambiental (APA) do rio Ibirapuitã, há 40 minutos da cidade. Mostramos como é trabalhar nesse formato, os marcos da linha divisória, contamos as histórias, as nossas origens, vemos as eólicas ao fundo. É uma vivência de campo, de entender como funciona. O turismo de experiência é uma tendência hoja em todo o mundo, das pessoas se desconectarem, voltarem às suas origens”, relata a empresária.
Conselho Municipal de Turismo de Santana do Livramento reúne representantes de entidades públicas e privadas para fortalecer o setor na cidade
TÂNIA MEINERZ/JC
A experiência rural também é oferecida pela Agência Corticeiras, que oferece diferentes passeios explorando a questão da binacionalidade de Livramento. “Trabalhamos bastante com enoturismo. Uma das experiências que a gente oferece é o café de fronteira, que é esse café feito com os produtos locais, nas propriedades rurais. Antes a gente tinha uma propriedade que oferecia esse café campeiro, esse café de fronteira. Hoje a gente já tem três e já vamos para a quarta propriedade que está se preparando para receber porque há uma demanda muito grande e a gente tem que atender”, conta a sócia do empreendimento, Vera Reis.
O crescimento do ecoturismo também é apontado pela Secretaria Municipal de Turismo como uma tendência consolidada na região. “Hoje está super na moda e muito debatido dentro da área, principalmente econômica do turismo, que é o ecoturismo”, afirma Medina.
Segundo ele, iniciativas como o Caminho do Pampa, realizado dentro da APA do Ibirapuitã, têm atraído visitantes de diferentes partes do Brasil e até do exterior. “Semana passada eu fui com eles. Turista americano, carioca, paulista, de pessoas que vêm caminhar mais de 90 quilômetros durante seis dias dentro do campo, na total conexão com a natureza, sem telefone, vivendo ali de forma quase que primitiva, de contato total com a natureza”, relata.
E Vera concorda com Elisa no motivo para o aumento recente no fluxo dos turistas. “O Rio Grande do Sul é o nosso principal cliente, mas também recebemos turistas de todo o País, principalmente paulistas e mineiros. Antes do Trem do Pampa, eram, em média, dois grandes grupos por mês na Agência Corticeiras, hoje, são até três grandes grupos por final de semana”, explica.
O Trem do Pampa, inaugurado em 2024, levou 14 anos para sair do papel. E, hoje, percorre um trajeto de 20 quilômetros ao longo das estações Livramento e Palomas, misturando música, vinho e paisagens da região. A operação é da Giordani Turismo.
Além da ampliação dos atrativos, a Prefeitura busca melhorar a infraestrutura turística da cidade. “A gente tem investido muito na estrutura, buscado investir na infraestrutura turística, que é melhorar as praças, colocar mais atrativos gratuitos para o turista”, afirma Medina. Entre os objetivos futuros, está a implantação de um voo comercial ligando o Aeroporto Internacional de Rivera-Livramento a Porto Alegre. “Hoje é um entrave, o voo comercial, para a gente ter esse salto de turismo na cidade”, conclui o secretário.
Evento debaterá o turismo na região
Elisa Ermida está à frente do Connect Pampa, que deverá debater o turismo pampeano
TÂNIA MEINERZ/JC
Além de empreender, Elisa também idealiza um projeto: o Connect Pampa, que deverá integrar diferentes atores do turismo da Fronteira Oeste — do lado brasileiro e do uruguaio — entre os dias 2 e 3 de junho. “O turismo não é para daqui a 10 anos. O turismo já está acontecendo agora”, afirma ela.
Além disso, o encontro contará com experiências práticas, como um passeio noturno no Trem do Pampa. “Vamos trazer para o palco o turismo, que vai ser a pauta principal do evento. Porque a gente identificou que tem uma demanda para o setor, que já é uma realidade, mas que as pessoas ainda não entendem que isso é uma realidade”, destaca a empresária.
Segundo Elisa, o projeto também pretende fortalecer a integração entre poder público, iniciativa privada e empreendedores locais. “Turismo não se faz sozinho, é sobre coletivo. E principalmente também sobre público e privado junto. Eu não acredito que o turismo se realize de outra forma”, avalia.
A organizadora afirma ainda que o Connect Pampa nasceu como uma proposta local, mas já ganha dimensão regional e binacional. Para ela, o principal desafio da região é consolidar a imagem da Fronteira Oeste para além do turismo de compras. “O nosso desafio agora é que as pessoas entendam que não é só isso, que a gente tem vinícola, que a gente tem o Trem do Pampa, que a gente tem turismo rural, que a gente tem muita coisa legal”, conclui.