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Publicada em 11 de Maio de 2026 às 00:25

A relação que deu a Santana do Libramento, no Brasil, e Rivera, no Uruguai, o título de Fronteira da Paz

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Ana Stobbe
Ana Stobbe Repórter
O multiculturalismo é uma das principais características das comunidades de fronteira. Andando pelo centro de Santana do Livramento, no Brasil, que faz fronteira com Rivera, no Uruguai, o portunhol é a regra. De frases iniciadas em espanhol e terminadas em português ou vice-versa, a perguntas realizadas em um idioma e respondidas em outro, a mistura de diferentes nacionalidades é nítida. E a liberdade de ir e vir em uma cidade cortada por uma linha imaginária a rendeu justamente o título de “Fronteira da Paz”. 
O multiculturalismo é uma das principais características das comunidades de fronteira. Andando pelo centro de Santana do Livramento, no Brasil, que faz fronteira com Rivera, no Uruguai, o portunhol é a regra. De frases iniciadas em espanhol e terminadas em português ou vice-versa, a perguntas realizadas em um idioma e respondidas em outro, a mistura de diferentes nacionalidades é nítida. E a liberdade de ir e vir em uma cidade cortada por uma linha imaginária a rendeu justamente o título de “Fronteira da Paz”. 
Conforme o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, Santana do Livramento possui 84.421 habitantes. Mas coexistem com eles os 84.775 moradores de Rivera, mapeados pelo recenseamento uruguaio mais recente, de 2023. É uma população, que, somada, quase alcança 170 mil pessoas e que transitam cotidianamente de um lado ao outro da fronteira. 
Recentemente, a população imigrante foi ampliada, conforme o cônsul brasileiro em Rivera, Anuar Nahes. “Tem cubanos que se estabeleceram aqui porque o Uruguai aceita automaticamente o diploma deles. E eles ficam na fronteira para buscar oportunidades em ambos os países”, exemplifica. Raed acrescenta que a comunidade paquistanesa também tem crescido, especialmente para atuarem como médicos. E até mesmo chineses são vistos pelas ruas, embora em menor intensidade.
E é na cidade que nacionalidades em guerra, muitas vezes, se unem. “Um médico que era muito amigo do meu pai, palestino, era judeu. Uma história muito interessante. Uma vez, minha irmã veio para cá e trouxe os filhos dela, que eram crianças. Aí veio visitar ela uma amiga que levou os filhos de ascendência judaica, ou israelense. As crianças estavam brincando até descobrirem que um era palestino e o outro judeu. Perguntaram para a mãe sobre isso e ela disse que não tinha problema nenhum. As crianças brincaram e choraram quando foram embora. Fomos ensinados a brigar, mas não precisamos”, relembra o empresário Raed Shweiki, descendente de palestino e lojista no lado brasileiro da fronteira.
Nasser Judeh, presidente da Sociedade Árabe Palestina do município, acrescenta que a comunidade árabe foi bem acolhida, com facilidade de adaptação – embora questões como o idioma tenham se mostrado como barreiras, como conta Raed sobre os anos iniciais do pai no Brasil. Há o entendimento que a condição de imigrantes une pessoas de diferentes nacionalidades. “Hoje, as festas da Sociedade Árabe Palestina de Santana do Livramento congregam diferentes pessoas que se reconhecem como imigrantes e se sentem acolhidas, o que nos deixa muito felizes”, celebra Raed.
Assim, na linha invisível que separa Brasil e Uruguai, Santana do Livramento segue vivendo uma rotina de encontros. Entre vitrines, conversas em portunhol, dólares, pesos e reais, as famílias de brasileiros, uruguaios e imigrantes coexistem. E a fronteira reafirma diariamente que pertencimento não se limita a mapas.

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