De Santana do Livramento
A fronteira entre Santana do Livramento, no Oeste do Rio Grande do Sul, e Rivera, no norte do Uruguai, é um destino tradicional para quem quer fazer compras a baixo custo nos free shops. Atualmente, são 67 estabelecimentos livres de impostos do lado uruguaio. Na parte brasileira, apenas quatro — que geram cerca de 200 empregos, conforme estimativa da prefeitura santanense.
Mas novos empreendimentos já estão no horizonte da cidade gaúcha e esperam movimentar ainda mais o comércio da Fronteira Oeste do Estado. Afinal, dos quatro free shops ali instalados, três estão em área urbana e foram instalados ao longo do último ano: Mônaco, Brasil e Só Ar. Além deles, há o Almadén, focado em vinhos. Agora, um novo empreendimento já tem inauguração no horizonte e outros dois buscam se instalar, conforme a Associação Comercial e Industrial de Livramento. Com isso, o número de lojas francas dentro da cidade deverá dobrar em um futuro próximo.
Uma das novidades é o Papatudo, free shop já estabelecido em Uruguaiana e que deverá ser inaugurado em junho em Livramento, na esquina entre as ruas Vasco Alves e dos Andradas. “É um segmento novo, que tem muita oportunidade de crescimento. A população, hoje, busca produtos de qualidade, com preço e condição de pagamento acessíveis. E foi isso que baseou nossa escolha”, conta o empresário Mohamad Thalji, responsável pelo empreendimento.
Mas há outras questões em jogo: “os free shops brasileiros são uma atração positiva pela questão do parcelamento em até 12 vezes sem juros, sem IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Tem produtos que são mais baratos desse lado do que no uruguaio. E, além de Santana do Livramento já ser uma cidade consolidada para o turismo de compras, com bastante gente visitando, não tem tantos free shops que abriram ali”, acrescenta.
Papatudo free shop, que já está em Uruguaiana, será instalado em Santana do Livramento em junho
Facebook/Reprodução/JC
Ao todo, deverão ser 50 empregos diretos a partir da instalação da loja. E a proposta é a de atrair mais os uruguaios do que os brasileiros. Principalmente, considerando que, pela legislação do Uruguai, eles não têm permissão para comprar no lado de Rivera — o que, atualmente, é resolvido por uma via ilegal: o empréstimo de documentos de identidade de brasileiros.
“Tem a questão cambial. Hoje, é mais favorável para o uruguaio vir gastar no Brasil. E eles já consomem muito aqui, só que não em free shops. E a nossa intenção é fazer com que ele passe a comprar nos free shops, mas do lado brasileiro. Em Uruguaiana, já atuamos com bastante turistas vindos de fora, além dos brasileiros, muitos argentinos, alguns uruguaios e menos brasileiros”, conta Mohamad.
E esse público estrangeiro tem um perfil de consumo diverso: conforme o empresário, são buscados itens de vestuário, calçados, eletrodomésticos e eletrônicos. “O forte do free shop é o cliente vir e conhecer a gama de produtos que a gente oferece, é um mix. Não existe um produto-chave que seja mais forte”, avalia o empresário.
Rivera, no lado uruguaio da fronteira, tem 67 free shops instalados
TÂNIA MEINERZ/JC
O empresário Raed Shweki, responsável pelas lojas Casa Guri e Casa Palestina, também pensa em abrir um free shop em Santana do Livramento. A loja onde ele recebeu a reportagem, na Rua dos Andradas, foi pensada para esse fim.
“Essa loja foi estruturada para ser um free shop, mas demorou e não tínhamos como segurar ela fechada. Aí abrimos. Mas, possivelmente, se Deus quiser, abriremos um free shop no ano que vem. Hoje, estamos organizando, devagarinho, os contatos e os fornecedores. Para transformar uma empresa que já está estabelecida num free shop tem que limpar toda. Não pode começar com nada. Tem toda uma questão de estoque, também. Tem que pensar como vamos fazer, se vai transferir, se vai liquidar. Estamos organizando, bem devagarinho. Ou, como dizem aqui, bem despacito”, conta Raed.
Preços dolarizados preocupam comerciantes
De acordo com o presidente do Sindilojas de Santana do Livramento, Sérgio Oliveira, a ascensão dos free shops do lado brasileiro da fronteira também traz desafios. Afinal, embora movimentem o comércio e atraiam turistas ao município, as lojas francas possuem incentivos que preocupam outros empreendedores do ramo.
“São segmentos diferenciados (o dos free shops e o do comércio local). Mas tem uma questão de concorrência. As lojas comuns não vendem ar-condicionado ou otros produtos da linha branca, por exemplo, porque não tem como concorrer com o free shop, onde é muito mais barato. Fora a questão da isenção dos impostos”, avalia o líder setorial.
Lojas francas movimentam turismo para compras na região fronteiriça
TÂNIA MEINERZ/JC
Para Oliveira, o que poderá salvar os comércios locais é o investimento na experiência do usuário e em tecnologia. “É um jogo onde tem que ter qualidade do atendimento. Porque a venda não vai estar dentro da loja apenas. Ela vai iniciar no Whatsapp, no Instagram, no Facebook e em outras redes sociais. E quando o cliente chegar em casa e sentir que teve uma experiência propositiva e positiva, vendo que ele comprou um produto que tinha como fundamento aquela busca, aí sim vai ter uma experiência legal e talvez gere recorrência. O varejo precisa estar moderno, adequado, de olhos bem vivos e pensando em encantar e criar uma experiência legal para o cliente”, pontua.
Legislação para free shops brasileiros é recente
Por trás das novidades estão mudanças recentes na legislação. Afinal, foi apenas em 2012 que a instalação de free shops em cidades de fronteira terrestre brasileiras que possuem cidades gêmeas estrangeiras passou a ser permitida. E, há a expectativa de elevação da cota permitida por pessoa nas compras nas lojas francas.
Atualmente, é possível que cada consumidor compre até US$ 500 em produtos a cada 30 dias nos free shops terrestres. Somando as compras no lado brasileiro e uruguaio, é possível gastar, ao todo, US$ 1.000 no período em questão. Mas um movimento articulado pela Frente Parlamentar em Defesa da Implantação de Free Shops em Cidades Gêmeas de Fronteira da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Associação Brasileira de Lojas Francas (ABLF) busca elevar o limite a US$ 1.000, o mesmo previsto para aeroportos e navios e duplicar a cota de 12 para 24 litros de bebidas.