No momento em que o mundo volta as atenções para áreas potenciais à exploração de terras raras, a região da Campanha é apontada por especialistas como um lugar para ser visto com lupa. Pesquisa conjunta entre Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e Universidade Federal do Pampa (Unipampa), iniciada em 2022 (bem antes da onda mundial por terras raras), já localizou pelo menos oito pontos de concentração dos chamados carbonatitos – rochas formadas pelo resfriamento do magma originário do manto terrestre –, que concentram os elementos de terras raras. Ao todo, no mundo, são apenas 500 destes locais mapeados. Os elementos de terras raras podem surgir ainda nos solos, plantas e na água. Todos eles fazem parte do estudo em andamento.
A geóloga Luísa Caon, da Ufrgs, que faz parte da equipe de pesquisadores, recomenda cautela quanto ao potencial comercial do que tem sido encontrado especialmente entre Caçapava do Sul e Lavras do Sul, mas confirma que, em dois pontos, há concentrações de elementos de terras raras semelhantes ao que é observado na área de uma mineradora na China, que já faz o processamento destes elementos como matéria-prima para a indústria de alta tecnologia.
"É uma região para se estar atento no mundo, sem dúvida. Vale a pena aprofundarmos ainda mais os estudos, porque esses elementos não ocorrem de forma muito concentrada ou em grandes volumes. Todo o cuidado ambiental em uma eventual exploração comercial futura é necessário, sob risco de tornarmos a região um Brumadinho", alerta a geóloga.
Entre os elementos encontrados no eixo entre Caçapava do Sul, Lavras do Sul e Bagé, especialmente nos carbonatitos, está desde o nióbio até o lantânio, que tem aplicações industriais desde os ímãs à metalurgia, passando por sistemas de defesa e baterias, como as usadas em carros elétricos. Não à toa, empresas já sondaram o grupo de pesquisa, que reúne mais de dez especialistas entre geólogos e químicos, interessadas em aprofundar estudos.
O planejamento do atual trabalho é encerrar os estudos no final deste ano. Mas novas linhas de pesquisa devem ser desenvolvidas a partir desse resultado. No caso da Luísa Caon, ela seguirá traçando o perfil dos carbonatitos da Campanha e o motivo para terem sido formados ali. Para que se tenha uma ideia, cada bolha de magma resfriada, que forma esse tipo de rocha, tem entre 603 milhões e 1 bilhão de anos.
"Estudar esses elementos é como a análise do gelo na Antártida. É possível registrarmos fluxos históricos deste magma até a crosta terrestre e o consequente processo de concentração de elementos minerais nessas formações", conta a pesquisadora.
Chegou ao mercado de fertilizantes em maio o primeiro produto a base de fosfato explorado na Campanha pela Águia Fertilizantes, após 15 anos de pesquisas e investimentos na região. A produção inicia por uma jazida em Lavras do Sul, com previsão de avançar, em 2027, para uma segunda jazida, em Caçapava do Sul.
Em 2028, a Águia Fertilizantes projeta estar produzindo até 300 mil toneladas de fertilizantes por ano e, no ano seguinte, chegar a 420 mil toneladas, o que representa 5% da demanda gaúcha pelo produto para as lavouras. Foram R$ 230 milhões desembolsados ao longo de todo o projeto.
A operação inicia com a mina em Lavras do Sul e a indústria de processamento, encampada em Caçapava do Sul. Neste município, há uma nova jazida em fase de licenciamento. A partir dessa liberação, a empresa pretende erguer uma segunda planta industrial em Lavras do Sul.