A região Norte do Rio Grande do Sul voltou a confirmar sua vocação como principal polo produtor de milho do Estado. Apesar de períodos de estiagem registrados ao longo da última safra, os resultados obtidos nas lavouras colocam 2024/2025 entre os melhores ciclos da cultura nos últimos anos, reforçando a importância do cereal para a sustentabilidade dos sistemas produtivos gaúchos. Conforme dados da Emater-RS/Ascar, relativos à região de Santa Rosa, no milho a produção deve ser 66.822 toneladas maior do que fora previsto inicialmente. No plantio era esperada a colheita de 1.133.008 toneladas e agora a projeção é de 1.199.830 toneladas. A área também foi revisada para cima, tendo sido registrados 12.703 hectares a mais, quando comparados os 137.501 ha da primeira estimativa com os 150.204 ha de agora. A produtividade média indicada pela estimativa atual é de 7.988 kg/ha, menos 3,1% do que os 8.240 kg/ha iniciais. “O milho tem demonstrado maior estabilidade na produção, especialmente quando cultivado dentro da janela adequada e com práticas de manejo apropriadas”, afirmou o presidente da entidade, Claudinei Baldissera. No estado, a área do milho é de 803.019 hectares, com produtividade de 7.424 kg/ha, que devem resultar em uma produção final de 5.961.639 toneladas do cereal.
De acordo com o assistente técnico em culturas da Emater, Alencar Rugeri, a safra que está na fase final da colheira pode ser considerada uma das mais produtivas da história recente da cultura no Estado. “Foi um ano bom de milho, foi uma das melhores safras que tivemos em termos de rendimento. Está entre as três melhores da nossa história”, afirma. Segundo ele, a região Norte apresentou desempenho ainda mais expressivo por reunir características naturais favoráveis à cultura, especialmente em relação ao regime de chuvas, pois historicamente os municípios localizados nessa faixa do Estado registram precipitações mais regulares, fator que contribui diretamente para a estabilidade produtiva. Mesmo assim, Rugeri ressalta que os resultados variam entre propriedades e municípios, uma vez que houve casos de produtores que enfrentaram perdas significativas devido a escolhas inadequadas de cultivares ou épocas de plantio. No entanto, na média regional, o desempenho foi bastante positivo. “Quando analisamos o conjunto da região, os números são muito bons. É uma área que tem um potencial produtivo diferenciado e isso apareceu mais uma vez nesta safra”, destaca.
Mais do que as condições climáticas, o dirigente atribui os elevados índices de produtividade ao nível de profissionalização dos produtores que mantêm o milho dentro de um planejamento agrícola de longo prazo. Para ele, o sucesso da cultura está baseado em três pilares: planejamento, gestão e profissionalismo. “O produtor de milho não é simplesmente um plantador. É alguém que trabalha dentro de um sistema de produção organizado. Ele define com antecedência o que fará em cada área da propriedade e mantém uma estratégia independente das oscilações de mercado”, explica.
Além do manejo mais técnico, o avanço genético das sementes e a evolução do conhecimento agronômico também têm contribuído para o aumento da produtividade. No entanto, Rugeri destaca que o principal diferencial continua sendo a adoção do milho como componente permanente da rotação de culturas, uma prática que gera benefícios que vão muito além da própria lavoura do cereal: melhora a cobertura do solo, favorece a estrutura física das áreas cultivadas e aumenta a produtividade das culturas seguintes, especialmente a soja. “Quem planta milho está construindo um sistema mais resiliente. Um produtor pode ganhar facilmente mais de 10% de produtividade na soja plantada após o milho. É uma relação de ganho mútuo que precisa ser observada no médio e no longo prazo”, afirma.
Para a próxima safra as perspectivas são positivas, pois as projeções climáticas associadas ao fenômeno La Niña indicam condições potencialmente favoráveis ao desenvolvimento da cultura durante a primavera, período decisivo para o milho no Rio Grande do Sul. Com maior expectativa de chuvas, muitos produtores já demonstram disposição para ampliar os investimentos na cultura, especialmente em áreas onde o planejamento agrícola prevê a manutenção da rotação. “Em anos favoráveis ao milho, o produtor pode trabalhar com populações maiores de plantas e intensificar o manejo nutricional, porque o potencial de resposta da cultura é muito grande. O milho é extremamente responsivo às boas condições climáticas”, explica Rugeri. Enquanto a área destinada ao trigo enfrenta incertezas e tende a recuar em algumas regiões, o milho aparece como uma alternativa estratégica para produtores que buscam produtividade, sustentabilidade e estabilidade dos sistemas agrícolas. Para a principal região produtora do Estado, a expectativa é que o cereal continue exercendo papel fundamental tanto na rentabilidade das propriedades quanto na construção de uma agricultura mais resiliente diante dos desafios climáticos e econômicos dos próximos anos.
Embora a safra principal tenha apresentado resultados satisfatórios, o mesmo não ocorreu com parte das lavouras de milho safrinha. O presidente da Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (Aprosoja), Irineu Orth, relata que as geadas registradas em maio provocaram perdas importantes em áreas semeadas mais tardiamente. “O milho da safra principal teve comportamento praticamente normal, especialmente nas áreas irrigadas. A falta de chuva teve poucos efeitos. Já o milho safrinha sofreu bastante. As geadas atingiram lavouras plantadas em janeiro e fevereiro e causaram prejuízos significativos”, afirma. Segundo Orth, algumas áreas ainda serão colhidas, mas com produtividade inferior ao esperado e perda de qualidade dos grãos. Em outras propriedades, os danos foram tão severos que a colheita sequer deverá ocorrer. “Tem áreas em que o produtor não vai colher nada. Em outras, vai colher menos e com qualidade comprometida. Esse é um problema sério para quem apostou na segunda safra”, ressalta.
Orth destaca ainda que a baixa remuneração do produtor continua sendo um dos principais desafios da atividade, com a saca de 60Kg de milho negociada em torno de R$ 64 no mercado gaúcho, valor considerado insuficiente para cobrir adequadamente os custos de produção e garantir margem de rentabilidade. “Para equilibrar melhor a atividade, seria necessário trabalhar com preços entre R$ 70 e R$ 80 por saca. Hoje estamos cerca de 20% abaixo desse patamar”, observa Orth. A situação preocupa especialmente em um momento em que fertilizantes, defensivos agrícolas, combustíveis, máquinas e serviços continuam pesando no orçamento das propriedades. Para Rugeri, o atual cenário exige um nível de gestão cada vez mais profissional. “Não é aumentando gastos que o produtor necessariamente ganha mais dinheiro. O que faz diferença é a eficiência. É preciso avaliar alternativas, observar oportunidades e usar os recursos de forma estratégica. Quem não fizer gestão terá dificuldades”, afirma. Entre as estratégias adotadas estão o aproveitamento de fertilizantes orgânicos, como cama de aviário, e o uso mais criterioso de defensivos, sempre com base em monitoramento técnico e análise das condições climáticas. A preocupação com os custos se soma ao desafio de manter a área cultivada com milho. Atualmente, a participação da cultura na agricultura gaúcha é considerada inferior ao ideal pelos especialistas: enquanto sistemas mais sustentáveis recomendam uma presença próxima de um terço da área agrícola em rotação, o percentual efetivamente cultivado permanece bem abaixo desse patamar.
Além dos desafios de mercado, o setor enfrenta um problema que se arrasta há várias safras: o elevado endividamento dos produtores gaúchos após sucessivos eventos climáticos extremos.
Orth avalia que a indefinição em torno das medidas de renegociação e alongamento das dívidas rurais pode comprometer o planejamento da próxima temporada. “O grande problema hoje não é a falta de máquinas, de tecnologia ou de conhecimento. O problema é recurso para plantar. Muitos produtores estão descapitalizados e aguardam definições sobre o alongamento das dívidas para poder acessar novos financiamentos”, afirma.
Segundo ele, a preocupação já afeta o planejamento das culturas de inverno, como trigo, cevada e aveia. “A área de trigo deve diminuir e muitos produtores vão investir menos em fertilizantes e tecnologia. Isso tende a repercutir também no milho, porque a compra dos insumos para a safra de verão começa agora, entre junho e julho”, explica.