O momento é da proteína animal. E quando se fala neste assunto, neste recorte do Rio Grande do Sul, naturalmente a suinocultura entra na pauta, já que 75% da produção gaúcha no setor está concentrada entre as microrregiões retratadas neste capítulo do Mapa Econômico. Somente entre o Médio Alto Uruguai e a Fronteira Noroeste, são 45% da produção que, nos últimos anos, surfa muito bem na onda de novos mercados abertos. Entre 11 municípios da macrorregião que figuraram entre os 50 principais exportadores gaúchos no primeiro trimestre de 2026, quatro têm a carne suína e outros derivados como principal produto comercializado no Exterior. E foram justamente os que tiveram maior percentual de crescimento nas exportações em comparação com o mesmo período de 2025.
Em Santa Rosa, a alta nas exportações foi de 37,9% no período, em Santo Ângelo, 18,5%, em Soledade, foi mantida a estabilidade. O caso mais destacado, neste aspecto, porém, foi o de Sananduva, onde os catarinenses da Ecofrigo, que faz parte do Grupo Bugio, passaram a operar e iniciaram as exportações, a partir do frigorífico que antes pertencia à Majestade. No primeiro trimestre deste ano, 100% das exportações locais foram em carne suína e miudezas, colocando o município do Nordeste gaúcho no mapa das exportações, com um crescimento de 56.820% em relação ao mesmo período de 2025.
Com capacidade de abate de cinco mil suínos por dia, o que acontece em Sananduva é o símbolo do que virou rotina em toda a região: quando um frigorífico prospera no cenário internacional, mobiliza toda a cadeia produtiva integrada regional. Conforme o levantamento da Associação dos Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (ACSURS), Rondinha, que fica a aproximadamente duas horas de Sananduva, foi o sexto município da macrorregião com maior volume de suínos enviados para o abate, chegando a 223,7 mil animais abatidos. Uma alta de 6% em relação a 2024.
"A condição que vivemos hoje é resultado direto de um trabalho minucioso e de união de todo o setor para que conseguíssemos, em 2021, a condição de zona livre de aftosa. A questão sanitária nos garante 70% dos embarques que conquistamos desde então, inclusive, pela qualidade sanitária que temos garantido, abrimos novos mercados e já não temos a dependência inicial da China. Filipinas passou a ser o nosso principal parceiro", diz o diretor executivo do Sindicato das Indústrias Produtoras de Suínos (SIPS), Rogério Kerber.
Em 2025, por exemplo, proporcionalmente o Rio Grande do Sul foi o estado que mais ampliou os embarques de carne suína para o Exterior.
"De maneira geral, o Brasil é uma ilha no contexto global em função dos desafios sanitários. No Rio Grande do Sul, há muito investimento das nossas indústrias em biossegurança. A integração plena da cadeia produtiva também é um aspecto importante, com a indústria sendo o elo deste produtor com o que o mercado exige. Detalhes como o cercamento de propriedades, mudanças no fluxo de pessoas nas propriedades e a evolução em relação ao bem estar animal. Por isso, nos tornamos um polo importante de investimentos de grandes indústrias globais e de outros estados, como as catarinenses", explica o diretor.
A condição favorável tem atraído investimentos. Além dos catarinenses como a Ecofrigo ou a Aurora Alimentos, em Marau, a MBRF, responsável pelas marcas Sadia e Perdigão, investe na contratação de funcionários para ampliar a produção de embutidos destinados à exportação. Na unidade, que também processa frango, a empresa produz 14 mil toneladas de alimentos por mês e exporta para mais de 30 países.
Em Seberi, é a JBS, outra gigante do setor que garante novos aportes. A partir do desembolso de R$ 230 milhões, realizado no ano passado, dobrou a sua capacidade de produção de suínos, a partir do incremento em sua fábrica de rações, que abastece os produtores integrados. A capacidade de abates passou de 2,8 mil para 5,6 mil suínos por dia, além de triplicar a base de produtores integrados, de 120 para 360. A estimativa da empresa, que produz a marca Seara, é de que, a partir da movimentação de toda a cadeia produtiva, foram R$ 600 milhões acrescidos à economia regional.
Em Liberato Salzano, onde fica boa parte dos integrados da JBS, a produção de suínos para o abate foi ampliada de 111,4 mil animais em 2024 para 118,5 mil no ano passado, uma alta de 6,3%.
O desafio para o setor, de acordo com Kerber, está justamente no mercado interno brasileiro, com a fragilização do poder aquisitivo do consumidor. Aí, a exigência é por cortes menores e com maior valor agregado. Situação que nem sempre a automação, crescente no setor, consegue atender, em virtude da falta de mão de obra.