"A canola será a soja do inverno".
A frase é do presidente da CCGL, Caio Vianna, que responde por mais de 70% da soja exportada pelo Rio Grande do Sul e por 52% de todas as exportações agrícolas gaúchas. A estimativa é de que neste ano o Estado deve plantar mais de 500 mil hectares com canola na safra de inverno, mais do que o dobro do último ano, tendo justamente a faixa Noroeste e Norte do Estado como as principais áreas de cultivo. O estímulo vem da indústria de biodiesel, vitaminada pela crise do petróleo mundial e uma previsível alta na demanda por biocombustíveis.
Tendo a soja como base dessa produção, a macrorregião tem todo o know-how para garantir um papel importante nesta nova onda de combustíveis limpos. Atualmente, são nove indústrias produtoras de biodiesel autorizadas pela ANP no Rio Grande do Sul atualmente, e cinco ficam na macrorregião, e há investimentos em andamento para aumentar essa cadeia. Entre os protagonistas do setor está a Be8 que, a partir de Passo Fundo e também da produção no Centro-Oeste e no Norte do País, garante hoje a liderança no mercado de biodiesel brasileiro, com produção de 1,4 bilhão de litros de biocombustível à base de soja anualmente.
Neste ano, a empresa chamou atenção do mundo, na Feira de Hannover, com o seu BeVant, biocombustível próprio, menos poluente e mais eficiente. Uma evolução que, naturalmente, avança para outros grãos e, no caso do Rio Grande do Sul, para o estímulo ao crescimento das safras de inverno.
"Se não tivéssemos a presença de 15% de biodiesel no combustível hoje, no Brasil, a dependência, e por consequência, a crise em relação ao petróleo seria muito maior. E nós temos no Rio Grande do Sul hoje a segunda maior capacidade de produção, mas ainda subaproveitada. Temos, no verão, entre soja e milho, até 8 milhões de hectares plantados, mas no inverno, entre trigo, canola e pastagens, não chegamos nem a 2 milhões de hectares. Temos muito a desenvolver, porque agora há demanda crescente da indústria e possibilidade real de rentabilidade ao produtor", explica o vice-presidente de operações da 3tentos, Luiz Augusto Dumoncel.
A empresa, que opera uma unidade de processamento de grãos em Cruz Alta e produz biodiesel em Ijuí, investe este ano R$ 100 milhões para ampliar a capacidade de esmagamento de soja em Cruz Alta e, principalmente, consolidar uma indústria "flex", com produção de biodiesel a partir da soja, mas também a partir da canola na planta de Ijuí.
Entre dezembro e fevereiro, a empresa já produziu seus primeiros lotes de combustível a partir do grão de inverno, mas ainda contratando uma empresa esmagadora de Guarani das Missões para a primeira parte do processamento da canola. O plano da 3tentos é ampliar a sua capacidade produtiva de biocombustível de 1 mil para 1,5 mil metros cúbicos por dia. Para isso, em Cruz Alta a empresa passa de 3 mil para 4 mil toneladas de soja esmagadas por dia e, em Ijuí, serão 2 mil toneladas de soja e 1,2 mil toneladas de canola a serem esmagadas por dia.
A escolha pela canola não foi aleatória. De acordo com Dumoncel, enquanto a soja concentra 20% de óleo em cada grão, o percentual da canola chega a 40%. Dos até 500 mil hectares previstos para cultivo de canola neste ano no Estado, mais de 100 mil terão fomento a 3tentos.
"Via de regra, aquele produtor que produz soja para nós, também passou a produzir a canola no inverno. Se a demanda seguir alta, como é a tendência, eu acredito que o Rio Grande do Sul passará de 1 milhão de hectares cultivados com esse grão", avalia Dumoncel.
E isso representará também um novo papel para o Rio Grande do Sul no mercado de biocombustíveis mundial. Hoje, 70% da produção de soja da empresa é destinada ao biodiesel, com o restante comercializado em farelo. Na canola, a expectativa é de quase 100% da destinação aos óleos, em especial, ao usado como combustível.
"A canola abre um leque mais extenso de oportunidades. Pensando na União Europeia, por exemplo, a alimentação humana, como o óleo, é bem valorizada. Mas a médio prazo, trabalhamos com a ideia de exportar para a Europa como matéria-prima no processamento de outras formas de biodiesel, como SAF, para a aviação", comenta.
Desde 2021, a 3tentos dobrou a sua capacidade produtiva no Rio Grande do Sul, e é uma das principais fomentadoras na ampliação de áreas cultivadas com canola. Mas a indústria pioneira nessa parceria com o campo no Noroeste gaúcho foi o Grupo Camera, que trouxe as primeiras sementes para a região há mais de 20 anos.
Com uma unidade de produção de biodiesel já em operação em Ijuí, onde é processada a soja, no final do ano passado, a partir de uma parceria técnica com o Grupo Celena, a empresa inaugurou a primeira fábrica de processamento exclusivo de canola em São Luiz Gonzaga, finalizando um investimento de R$ 150 milhões. A unidade, que ainda não consta na lista de indústrias autorizadas pela ANP para fornecimento de biodiesel, tem capacidade para processar 750 toneladas de canola diariamente. Até meados do ano passado, a empresa já processava canola nessas instalações, mas em conjunto com a soja.