A Macrorregião Norte do Rio Grande do Sul tem demonstrado uma grande pujança na evolução dos seus indicadores sociais e econômicos. Em franco crescimento puxado pelo agronegócio ligado a produtos de maior valor agregado e por polos de serviços especializados, essa área do Estado também concentra um relevante produto interno bruto per capita.
“Ao olhar as regiões, é possível traçar uma linha e dividir o Estado, saindo da região de Santa Rosa e chegando na Metropolitana. E essa parte de cima é a área mais desenvolvida em termos econômicos e, de certa maneira, sociais também. Por outro lado, as porções sul, central e noroeste do RS têm indicadores menores”, explica o pesquisador do Departamento de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, Martinho Lazzari.
E a explicação para esse maior desenvolvimento é multifatorial: “Se pegar a agropecuária, a região de Passo Fundo, Cruz Alta e Erechim planta soja, milho e trigo, que são altamente produtivos. Os melhores indicadores também estão em áreas mais industriais do Estado, como Região Metropolitana, Serra, Vale do Taquari, e a porção Norte. E alguns municípios contam com serviços especializados, de maior valor agregado”, acrescenta o especialista.
Na equação, é fácil compreender. Crescem as áreas com alta produtividade agrícola e industrial — no caso do Rio Grande do Sul, muitas vezes, como parte de uma mesma cadeia, onde as indústrias estão associadas ao setor primário —, assim como as que se consolidam como polos de oferta de serviços especializados.
Entretanto, é válido ressaltar que nem todos os Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes) que compõem a Macrorregião Norte contemplam bons indicadores. Os números variam bastante, com uma tendência a cifras menores na porção noroeste, próxima à fronteira com a Argentina.
Assim, enquanto o Alto Jacuí, onde está Não-Me-Toque, é o primeiro entre os 28 Coredes do Rio Grande do Sul no ranking do PIB per capita, o Alto da Serra do Botucaraí, que está vizinho ao líder, ocupa a 23ª posição. Também estão na metade final da tabela as regiões Celeiro, Médio Alto Uruguai, Missões e Rio da Várzea. Já entre os dez maiores PIBs per capita estão os Coredes Noroeste Colonial, Produção e Norte.
Serra lidera ranking e Macrorregião Metropolitana possui bons indicadores
Uma das áreas mais dinâmicas do Rio Grande do Sul, a macrorregião da Serra, tem se desenvolvido intensamente. Concentrando 17,20% do produto interno bruto (PIB) gaúcho, essa parte do Estado também tem atraído população. E a combinação desses fatores resulta em uma alta produtividade, a transformando na porção do RS com o maior PIB per capita.
Composta pelas regiões da Serra, Hortênsias, Campos de Cima da Serra, Paranhana e Encosta da Serra e Vale do Caí, a macrorregião se fortalece com base no forte polo metal-mecânico e em atividades de alto valor agregado. É com base nisso que se constrói o indicador.
“A Serra engloba aquela região de Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Farroupilha e Carlos Barbosa, municípios que têm indústrias muito fortes, como a metal-mecânica e a moveleira. São empregos que geram uma produtividade maior e, consequentemente, uma produção e renda maiores. É uma área que tem atraído população exatamente pela oferta de trabalho”, explica o economista e pesquisador do Departamento de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (DEE-RS), Martinho Lazzari.
Ao analisar os Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes), classificação utilizada pelo governo estadual gaúcho e que divide o território gaúcho em 28 zonas, é perceptível a pujança justamente na região onde está a conurbação entre as cidades citadas pelo pesquisador. Afinal, o Corede Serra é o segundo no ranking do PIB per capita seguindo essa divisão, atrás apenas do Alto Jacuí, na Macrorregião Norte.
A Macrorregião Metropolitana é a que concentra as maiores fatias populacionais e econômicas do Estado. Enquanto 37,3% dos gaúchos residem lá, conforme os dados do último censo do IBGE, de 2022, 39,61% do PIB de 2023 estava nessa faixa que engloba a Região Metropolitana de Porto Alegre, o Vale do Sinos e o Litoral Norte. Mesmo assim, no PIB per capita, ela não lidera.
“São regiões muito populosas. E as que têm o PIB per capita maior são áreas menos povoadas, que muitas vezes, têm uma alta concentração industrial numa região menor. E é uma parte do Estado que tem municípios muito ricos, como Porto Alegre, Canoas e Novo Hamburgo. Mas outros, como Alvorada e Viamão, têm uma condição bem inferior. Na média, acaba ficando para trás”, explica Lazzari.
Macrorregiões Sul e Central têm os piores resultados
Quem também varia internamente quanto aos indicadores do PIB per capita embora apresente médias inferiores é a Macrorregião Central. “Teve crescimento nos últimos anos da produção de soja, que desceu das Missões para locais como Santiago e Cachoeira do Sul. Mas é uma região, como um todo, que tem pouca indústria. E, muitas vezes, os serviços qualificados, de maior valor agregado, têm relação com a atividade industrial”, acrescenta Lazzari.
Mas os piores indicadores estão na Macrorregião Sul, composta pelas regiões Sul, Fronteira Oeste, Campanha e Centro-Sul. “Se pegar a região de Uruguaiana, por exemplo, tem indústria. Mas é muito ligada ao beneficiamento de arroz ou de bovinos. São setores industriais que não têm alta produtividade. E um grande PIB per capita é como se tivesse produtividade para todo mundo. Se pegar a indústria de alimentos, ela vai ter uma produtividade bem menor que a metal-mecânica. E isso se traduz em um menor valor agregado”, pontua Lazzari.
Rio Grande e Pelotas, entre as cidades, possuem indicadores melhores, por concentrarem indústrias, especialmente as atreladas ao porto localizado na região. Entretanto, Lazzari destaca que há intensas variações na produtividade atreladas às demandas flutuantes do polo naval.