Para a indústria do couro, que responde por quase metade das exportações de Estância Velha, e, em alguns tipos de produtos chegou a registrar alta de 21% nas vedas ao Exterior nos primeiros quatro meses do ano, as atenções estão voltadas à Europa, a partir da confirmação do acordo comercial com o Mercosul. Hoje, China e Índia absorvem 34,5% das exportações de Estância Velha, enquanto os países europeus negociaram 15% dos valores vendidos pelas empresas locais entre janeiro e abril. Uma relação que, de acordo com o gestor de inteligência comercial do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), Rogério Cunha, tem potencial para se tornar mais equilibrada.
"O acordo com os europeus era um pleito que buscávamos há muito tempo. Hoje, o couro acabado ou semi acabado passa por diversos processos, com incidência de tarifas. A partir do acordo, já no primeiro ano, 80% das nossas exportações terão zero tarifa e, em quatro anos, serão incluídos outros grupos da produção de couros. Seremos mais competitivos naquele cenário em relação a outros países produtores, como a Índia, que já firmaram acordos", explica Cunha.
O mercado externo é o destino de 70% da produção de couros do Brasil. A estimativa é de que, anualmente, 40 milhões de bovinos resultam em peles e couros na indústria. No Rio Grande do Sul, as indústrias locais finalizam em torno de 9 milhões de couro acabado ou semi acabado anualmente. Atualmente, o Rio Grande do Sul exporta entre 17% e 18% para a Europa. Com a indústria modernizada, e já adaptada aos padrões dos clientes europeus, os gaúchos negociam o couro com mais de 80 países.
Mesmo que 75 dos 222 curtumes ativos no Brasil sejam gaúchos – 49 deles no Vale do Sinos –, a maior parte da matéria-prima vem de outros estados em virtude do rebanho bovino reduzido no Rio Grande do Sul. Com a abertura do mercado europeu, no entanto, há uma oportunidade de valorização do produto originário gaúcho.
"Enquanto 70% do rebanho brasileiro é de zebuínos, com pele branca, no Rio Grande do Sul é bem diferente, com a raça Angus e as britânicas, de pele escura. Essa pele escura do abate gaúcho é mais valorizada na produção do couro. Para a produção calçadista, por exemplo, o couro precisa ser de muito boa qualidade, assim como para setores como o automotivo e de produção de bolsas", comenta o dirigente.
Com um rebanho de 10 milhões de cabeças, com uma redução de 20% nos últimos 20 anos no campo, a indústria gaúcha abate somente 2 milhões de bovinos por ano. Muito abaixo da demanda do setor coureiro, que ainda divide espaço cada vez mais crescente de indústrias especializadas no processamento de colágeno e gelatina.
"É um cenário que estamos acompanhando. Há valorização da proteína animal e uma tendência de retomada dos rebanhos nos próximos anos. Hoje, os curtumes gaúchos reúnem o maior número de certificações de qualidade em nível ouro, que respondem por critérios ambientais e sociais, por isso, temos estreitado o diálogo com os frigoríficos para que se consiga cada vez mais padronizar a produção ao longo de toda a cadeia. Temos um potencial muito grande no Pampa Gaúcho que pode ser diferencial no mercado externo", explica.
Nos últimos 40 anos, o País viu reduzir em mais de 70% o número de curtumes. Algo que, conforme Cunha, não representa retração, mas um filtro de qualidade. Ele garante que hoje a indústria brasileira é a mais preparada do mundo em termos de sustentabilidade. Um processo acelerado na década de 1990.
Agora, o caminho é o da rastreabilidade completa da cadeia produtiva, desde as primeiras etapas da criação do gado até a finalização do couro. Algo que grandes grupos como MInerva e JBS já anteciparam e verticalizaram a cadeia, inclusive com a produção de couro. Em todo o Brasil, a partir de janeiro de 2027 começa a identificação dos rebanhos para serem rastreados, com a meta de encerrar o cadastro em 2032.
O objetivo, de acordo com Cunha, é não ter gado criado em áreas de desmatamento a partir de 2020. Mais um diferencial potencial ao Pampa Gaúcho.