O som encorpado e emocionante do piano é o elemento que permeou mais de sete décadas da vida da musicista Lúcia Antônia Bezerra de Mello, que começou a tocar o instrumento na casa de sua família, em Bagé, desde os quatro anos de idade. Esse envolvimento com o piano a tornou aluna, pianista profissional, professora, compositora e arranjadora musical e, enfim, um patrimônio inestimável da cultura bajeense.
É nesta condição, portanto, que Lúcia fará uma participação especial no concerto de 15 anos do grupo Os Pianistas de Bagé, do qual foi coordenadora. A apresentação acontece na próxima quinta-feira (15), às 21h, no próprio Imba, dentro da programação da 28ª Feira do Livro de Bagé. A pianista vai tocar um arranjo próprio da música Non, je ne regrette rien, imortalizada pela cantora francesa Édith Piaf.
Natural de Bagé, Lúcia se mudou para Porto Alegre há alguns anos, por questões de saúde. Foi em seu apartamento na Capital que ela recebeu a reportagem do Cidades. Afastada da música erudita há alguns anos, encontrou no bolero e no tango, ritmos cheios de romantismo, a forma de seguir expressando sua arte no piano, instrumento que toca desde os quatro anos, e de relembrar sua carreira profissional, que supera os 60 anos e a tornou uma das figuras mais queridas do cenário cultural de Bagé. Durante a conversa, a pianista de 78 anos apresentou composições próprias e sucessos dos dois gêneros, e ainda protagonizou um dueto com o marido, o diretor de teatro Tadeu de Mello, que cantou El día que me quieras, de Carlos Gardel.
Em casa, são comuns os duetos com o marido, o diretor de teatro Tadeu de Mello
Lívia Araújo/Especial/Cidades
A música chegou cedo e pelo ouvido. A mãe de Lúcia também era pianista: estudou no Imba, formou-se e dava muitas aulas particulares. Em meio aos alunos da mãe, a menina decidia que também tocaria aquelas peças. "Aprendi a tocar dentro do ouvido", relembra. Envergonhada, chegava a se recusar a tocar quando a mãe a preparava para uma apresentação.
Passou a se apresentar fora do ambiente escolar, a princípio sem cobrar. Por volta dos 11 ou 12 anos, começou a receber algum pagamento. Mas, por volta dos 18 anos, decidiu mudar a regra. "Não vou tocar mais de graça para ninguém", recorda. Ela costuma contar o episódio em que tocava, a pedido da direção do Imba na época, para esposas de generais, que "ficavam só tomando chá". Na única vez em que cobrou, pediu um par de botinhas de pelego e as recebeu. A partir daí, recorda, aos risos, que nunca mais foi convidada.
Mais tarde, foi contratada para tocar no Imba. Em sua rotina, também acompanhava a professora de piano em apresentações de ópera. Fora da sala de aula, formou um coral com cerca de 100 meninos e meninas e foi ali, dividindo o grupo em duas vozes, que começou a fazer arranjos. A produção cresceu: das peças a quatro mãos, em que duas pessoas tocam um só piano, chegou a arranjos para cinco pianos.
Entre seus compositores favoritos, Lúcia destaca Ludwig Van Beethoven e outros do período romântico. "Sou apaixonada até hoje por Beethoven", diz, ao afirmar que, ao ouvi-lo, sente vontade de voltar a estudar. A música popular, afirma, a acompanhou a vida inteira, embora na escola onde estudou não fosse permitido tocá-la. Ela a tocava em casa, ouvindo rádio.
A guinada para o bolero e o tango veio por necessidade. "Foi uma opção que eu tive que fazer", explica, ao dizer que já não tem condições de estudar música erudita. Do bolero, aprecia o romantismo das letras. Na juventude, tocou muito tango, e o público dançava. Já como professora, defende começar pelos dois lados: o erudito e o popular, para manter o interesse dos mais jovens. "Um dos meus alunos, que hoje é arquiteto, ia para aula mais para tirar de ouvido músicas de desenhos animados do que para estudar", diverte-se.
A volta ao palco do Imba, porém, será mais enxuta do que o planejado. Lúcia pretendia tocar mais músicas, mas um problema de saúde recente reduziu a participação a uma peça: a de Piaf, em arranjo próprio. "Ficou famoso esse arranjo", afirma. Sobre o piano, resume: "Representa a minha vida inteira".
O grupo Os Pianistas de Bagé comemora 15 anos de retomada com um concerto na noite de 15 de outubro, às 21h, no Instituto Municipal de Belas Artes (IMBA), durante a programação da 28ª Feira do Livro de Bagé. A pianista Lúcia Antônia de Mello, ex-coordenadora e responsável pelo recomeço do grupo, fará uma participação especial.
O conjunto se destaca pela formação: cinco pianos recebem dez pianistas simultaneamente, ou seja, 20 mãos tocam as canções, em arranjos especiais. Reúne diferentes gerações e profissionais e realiza espetáculos de grande alcance social, em estilos que refletem a cultura do piano no Rio Grande do Sul.
O grupo foi fundado na década de 1960, pela professora Gelcy Porto Médici, no Imba, com o nome de Pianos Carlos Gomes. Depois de um período de amplo sucesso, passou por um breve hiato e voltou em 2011, por iniciativa de Lúcia Antônia Bezerra de Mello.
Segundo Lúcia, a retomada teve origem em 2008, quando a professora que mentorou o grupo completou 80 anos. Ela e um colega, também ex-aluno, organizaram uma comemoração e chamaram os antigos alunos. Muitos compareceram, e alguns estavam havia 40 anos sem tocar. "Ficaram com saudade", relata. A apresentação é gratuita.