O município de Canoas, na Região Metropolitana, tem 41% das empresas ativas lideradas por mulheres, segundo dados do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) e do Cadastro de Pessoa Física (CPF). Das 56 mil empresas ativas na cidade, mais de 23 mil são registradas por mulheres. Os dados, entretanto, acompanham uma tendência presente no município desde o ano passado. Em 2025, das 12 mil empresas abertas, 43% delas foram por mulheres, em torno de 5.400.
Por outro lado, os dados de 2026 até o mês de junho, já alcançam as porcentagens registradas em 2025. Durante o primeiro semestre deste ano, mais de oito mil empresas foram abertas em Canoas, sendo 3.500 por mulheres (43%) e 4.600 por homens (57%). A maior presença feminina está no setor do comércio, com quase seis mil empreendimentos.
Entre as milhares de mulheres envolvidas com o comércio em Canoas está Cristiane Tietze, dona de loja com o mesmo nome. Ela conta que se envolve com o setor comercial do município desde a infância, quando ajudava os pais em seus respectivos empreendimentos. A mãe possui loja ativa há quase 50 anos, onde vende desde vestuário a itens de praia. Já seu pai era comerciante na Central de Abastecimento do Rio Grande do Sul (CEASA). "O meu grande exemplo de empreendedorismo feminino é a minha mãe. Ela começou com lojas em casa, buscando produto. Em 2027, a empresa dela vai completar 50 anos. Então eu tenho uma história com o comércio local, tive essa vivência desde criança", afirma.
Ainda, Tietze também possui trajetória em entidades como a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), primeiro como diretora e em seguida como presidente. O início de sua participação veio após uma iniciativa da entidade para aumentar a presença de mulheres. Para ela, em sua passagem pela presidência pode trazer um olhar feminino para um local predominantemente masculino. "É uma parte da minha trajetória na qual pude contribuir com outras mulheres", afirma.
Empreendedora Cristiane Tietze herdeu paixão pelo setor da mãe, dona de estabelecimento em Canoas há quase 50 anos
Cristiane Tietze/Divulgação/Cidades
Segundo a empreendedora, um dos desafios do trabalho é a necessidade de se impor e ter uma voz forte. "Sempre precisamos nos impor. Já participei de reuniões em prefeitura, em ambientes mais formais e realmente precisamos ganhar o nosso espaço, mostrar nossa opinião, ter firmeza", conta. Ao mesmo tempo, para Tietze , mulheres se afastam do empreendedorismo devido ao trabalho duplo da casa. "Acredito que eu tive algumas oportunidades que facilitaram a minha entrada no comércio, mas eu enxergo que para a mulher, por ter tantas jornadas diferentes, tudo é um pouco mais difícil", reflete.
Desde a abertura da loja, em 2011, Tietze empregou apenas mulheres. Segundo ela, ter um comércio voltado para o vestuário feminino permite com que ela e suas funcionárias criem uma conexão com a cliente. Para a lojista, incentivar o cuidado feminino e ajudar na autoestima da mulher faz parte de seus objetivos como empreendedora.
Empreender também pode ser necessidade
Para Luciane Alves, participante do programa municipal Avança Mulher, empreender veio por necessidade. Formada na área de Publicidade e Propaganda, iniciou sua trajetória como empreendedora em organizações de eventos. Durante sua gestação, quando precisou diminuir o ritmo do trabalho, passou a atuar como terapeuta holística, com atendimentos individuais e venda de óleos essenciais. A partir de sua experiência com o empreendedorismo, Alves vem instruindo outras mulheres a empreender por meio da iniciativa Baita Empreendedor.
Segundo Luciane, a jornada dupla de trabalho também afeta a procura de mulheres por liderarem sua própria empresa. "Mesmo trabalhando, somos responsáveis pelo nosso lar e pela maioria das decisões". Ao mesmo tempo, a falta de autoconfiança e de garantia de estabilidade também são fatores que afastam o público feminino. "Às vezes elas estão há anos trabalhando nessa área, mas ainda não se valorizam como profissionais. Durante minhas aulas também percebo um pensamento de 'só dá para empreender se meu marido for CLT', porque há receio de precisar ter uma garantia", explica.
Mesmo assim, para a empreendedora, Canoas atingir 41% de estabelecimentos liderados por mulheres, é uma conquista importante. Segundo ela, o número representa a busca por autonomia financeira, flexibilidade de horários e a possibilidade de conciliar o trabalho com os cuidados da família.