A macrorregião Norte, Noroeste e Missões do Rio Grande do Sul registrou, nas três etapas avaliadas pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) – Anos Iniciais, Anos Finais e Ensino Médio –, crescimento acima da média estadual entre 2023 e 2025. Os dados, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), foram cruzados pela reportagem do Jornal Cidades e apontam municípios pequenos, como Paim Filho, Braga e Roque Gonzales, entre os destaques de uma região que soma 220 municípios, distribuídos pelas Regiões Funcionais Norte e Noroeste e Missões, além do Corede Alto Jacuí.
O avanço, no entanto, não é uniforme. Nos Anos Iniciais, a distância entre o melhor e o pior resultado da região chega a 4,5 pontos – a maior disparidade interna entre as cinco regiões do Mapa Econômico do Estado, realizado pelo Jornal do Comércio e que serve como base para as reportagens. Para a professora Rosimar Esquinsani, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo (UPF), o desempenho mais forte dos municípios pequenos tem explicação estrutural, ligada ao tamanho das redes de ensino.
"Um município pequeno vai ter uma, duas, três escolas, poucos alunos, poucos professores, então controlar as variáveis do Ideb é muito mais tranquilo", afirma Esquinsani. Segundo a docente, essa proximidade facilita o acompanhamento individual dos estudantes e reduz a evasão escolar, dois dos três componentes que formam a nota do índice, ao lado do desempenho nas provas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).
Nos Anos Iniciais, além de Paim Filho, Itatiba do Sul (7,9), Lagoão (7,8) e Severiano de Almeida (7,8) têm as melhores notas de 2025. Roque Gonzales lidera com 8,2, mas não tinha registro comparável em 2023. Entre os que mais avançaram, somam-se a Paim Filho os casos de Braga (5,1 para 6,7, alta de 31,4%), Gramado dos Loureiros (5,7 para 7,3, 28,1%), Barra Funda (6,0 para 7,6, 26,7%) e Charrua (5,9 para 7,4, 25,4%).
Na região, os componentes que compõem o Ideb tiveram peso diferente conforme a etapa de ensino. Nos Anos Iniciais, a evolução foi puxada principalmente pela aprendizagem: a contribuição média do resultado do Saeb (cerca de 0,21 ponto) foi mais de três vezes maior que a do componente de fluxo escolar (cerca de 0,06 ponto), já próximo do limite em 2023. Municípios como Paim Filho (+1,80 ponto, alta de 30%), Braga (+1,60 ponto) e Gramado dos Loureiros (+1,60 ponto) puxaram essa evolução.
Já no Ensino Médio, etapa em que a região também superou a média gaúcha (4,34 para 4,96, ante 4,28 para 4,89 do Estado), o movimento se inverteu: o componente de fluxo e aprovação (cerca de 0,43 ponto) teve peso quase duas vezes maior que o de aprendizagem (cerca de 0,23 ponto), indicando mais estudantes aprovados, ainda que o aprendizado medido pelo Saeb avance mais devagar. Os saltos mais expressivos aparecem em Carazinho (2,1 para 4,8, alta de 128,6%) e São Martinho (2,9 para 5,6, 93,1%).
Nos Anos Finais, a média regional passou de 5,18 para 5,63, também acima dos 5,05 para 5,51 do conjunto do Estado. São José do Inhacorá (6,9), Centenário (6,6), Rondinha (6,6) e Colorado (6,6) têm as melhores notas de 2025 nessa etapa. Com os resultados das três etapas, a região ficou entre a segunda e a terceira melhor colocação geral do Estado em 2025, atrás apenas da Serra e, dependendo da etapa, da Central e Vales.
Para Esquinsani, olhar apenas a nota final divulgada pelo Inep pode esconder avanços reais dentro das escolas. "Quando eu abro esses dados, o microdado, eu posso ter um olhar mais específico e singularizado sobre a realidade dos municípios", afirma a pesquisadora, que cita o caso de Passo Fundo: muitas escolas do município, segundo ela, tiveram melhora significativa isoladamente, mas o resultado, ao ser somado ao de toda a rede, aparece de forma mais discreta na nota agregada.
Enquanto a média da região Norte, Noroeste e Missões avançou nas três etapas do Ideb entre 2023 e 2025, alguns municípios pequenos foram na direção contrária. O caso mais expressivo é o de Coqueiros do Sul, no Corede Produção: a nota dos Anos Iniciais caiu de 6,3 para 3,7, retração de 2,6 pontos — equivalente a 41% — e a maior queda entre os 220 municípios da região nessa etapa. Ipiranga do Sul, no Corede Norte, também recuou de forma acentuada, de 8,7 para 7,0 (-1,7 ponto, -19,5%).
Para a professora Rosimar Esquinsani, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo (UPF), quedas como essa em municípios pequenos fogem do padrão esperado e pedem investigação.
"Quando eu tenho um município pequeno que caiu no IDEB, aí ele está fora da média, aí tem alguma coisa que mereceria ser estudada. Isso para mim é um descompasso", afirma a pesquisadora, que associa o bom desempenho de redes menores justamente à maior facilidade de acompanhar de perto alunos.