Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo, estão entre os 20 municípios brasileiros que mais ampliaram horizontalmente suas feições urbanizadas entre 2019 e 2022. As duas cidades são as únicas do Rio Grande do Sul no ranking do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ocupando, respectivamente, a sétima e a décima posições. O levantamento identifica transformações territoriais a partir de imagens de satélite.
O resultado acompanha o avanço de bairros e loteamentos sobre áreas antes rurais, além do surgimento de condomínios e da ocupação de terrenos próximos a eixos de circulação.
Para a professora Grazielle Betina Brandt, da Unisc, o desempenho reflete o dinamismo econômico e imobiliário do Vale do Rio Pardo. “Em Venâncio Aires, a expansão ocorre especialmente em áreas rurais que conectam distritos ao município-sede. Em Santa Cruz do Sul, há crescimento em direção ao Distrito Industrial e aumento no número de condomínios fechados”, afirma.
A duplicação da RSC-287 e a implantação de anéis viários também alteram a dinâmica regional. Segundo Grazielle, a rodovia “passou a funcionar como um corredor urbano-industrial integrado”, atraindo empresas, investimentos e trabalhadores.
Em Venâncio Aires, desde janeiro de 2019 até 21 de agosto de 2026, foram aprovados dez loteamentos e um condomínio horizontal. Os empreendimentos somam 815 lotes habitacionais e outros 188 lotes em condomínio fechado. Também foram abertas áreas de ruas que totalizam 110.909,23 m² e emitidos habite-se para 2.781 unidades residenciais. A prefeitura informa que não houve ampliação do perímetro urbano.
O secretário de Governança e Gestão, Tiago Quintana, afirma que a expansão também ocorre pelo adensamento de áreas já incorporadas à cidade. “A expansão urbana não acontece somente quando o perímetro aumenta. Também há ocupação e adensamento de áreas que já estavam incorporadas à cidade”, explica.
Segundo Quintana, Venâncio recebeu moradores após as enchentes de 2024. Cerca de 200 imóveis foram adquiridos pelo programa de compra assistida, e a estimativa é de que entre 500 e mil pessoas tenham chegado diretamente em decorrência das enchentes. O secretário também cita a logística, a geração de empregos, a cadeia produtiva do tabaco e programas de qualificação profissional como fatores que estimulam a construção e a aquisição de imóveis.
Imagens de satélite mostram evolução da mancha urbana de Venâncio Aires nos anos de 2004 e 2026
Reprodução/Google Earth/Cidades
Em Santa Cruz, o crescimento é mais visível em regiões como Linha Santa Cruz e Linha São Alves. O secretário de Planejamento e Mobilidade Urbana, Vanir Azevedo, afirma que áreas antes rurais passaram por forte urbanização. “Eram regiões com características mais rurais e, nos últimos anos, receberam muitos loteamentos e condomínios”, relata.
O avanço pressiona a infraestrutura. Santa Cruz avalia os impactos de novos empreendimentos sobre trânsito, mobilidade e drenagem. “O desafio é garantir que o crescimento dessas áreas esteja acompanhado de boas conexões viárias e de infraestrutura adequada”, afirma Azevedo.
Os dados populacionais mostram que a expansão física ocorre em ritmo superior ao crescimento demográfico. Santa Cruz passou de 118.374 habitantes em 2010 para 133.230 em 2022, com estimativa de 138.270 em 2025. Venâncio Aires passou de 65.946 para 68.763 habitantes no mesmo período, com estimativa de 70.842 em 2025.
Para Grazielle, a mobilidade pendular ajuda a explicar o fenômeno. “Muitas pessoas moram em um município, mas trabalham ou estudam em outro. Por isso, o movimento diário é maior do que o número de moradores registrado oficialmente”, explica.
A pesquisadora avalia que as manchas urbanas das duas cidades tendem a se aproximar e defende planejamento integrado. “O crescimento já exige uma visão regional, porque os impactos não ficam restritos aos limites de cada município”, conclui.
O crescimento das áreas urbanizadas de Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul expõe um desafio que ultrapassa os limites administrativos dos dois municípios: acompanhar a expansão territorial sem ampliar desigualdades, pressionar a infraestrutura ou comprometer áreas ambientalmente sensíveis.
Para a professora Grazielle Betina Brandt, da Unisc, o fenômeno está ligado ao dinamismo econômico e imobiliário da região, marcado por novos loteamentos, condomínios fechados e ocupação de áreas antes rurais.
A proximidade entre os municípios reforça essa dinâmica. Segundo Grazielle, a RSC-287 funciona como um corredor urbano-industrial integrado, atraindo empresas, transportadoras e estruturas de distribuição. A rodovia também facilita o deslocamento de trabalhadores e estimula a criação de áreas residenciais próximas aos eixos de circulação. Com isso, as manchas urbanas avançam e os vazios entre as cidades diminuem.
O processo, porém, aumenta a pressão sobre a mobilidade e a infraestrutura. Regiões afastadas dos centros podem exigir novas vias, transporte coletivo e redes de água, esgoto e energia. A pesquisadora também alerta para o risco de ocupação de áreas sujeitas a alagamentos ou de interesse ambiental.
Em Santa Cruz do Sul, um dos pontos de atenção é o Cinturão Verde. Grazielle afirma que alguns condomínios avançam em direção a áreas que deveriam ser preservadas. O secretário municipal de Planejamento e Mobilidade Urbana, Vanir Azevedo, ressalta que existem trechos protegidos por legislações federal e municipal e que os empreendimentos são analisados por conselhos técnicos e ambientais.
A drenagem é outro desafio. A expansão de áreas pavimentadas reduz a absorção da água e pode agravar alagamentos, especialmente após as enchentes recentes. A valorização imobiliária também preocupa, pois pode afastar famílias de menor renda das áreas centrais, empurrando-as para regiões periféricas e menos atendidas por serviços públicos.
Por isso, Grazielle defende um planejamento que considere a região como um conjunto. “A bacia do Rio Pardinho envolve diferentes municípios e pode exigir soluções compartilhadas”, afirma. Para ela, consórcios intermunicipais, Coredes e associações de municípios podem contribuir para ações conjuntas.
Santa Cruz do Sul se prepara para discutir uma nova revisão do Plano Diretor, enquanto Venâncio Aires avalia formas de direcionar a expansão para áreas mais altas e fora de zonas de alagamento. A questão não é apenas quanto as cidades vão crescer, mas como esse crescimento será organizado e sustentável.