Uma pesquisa realizada pela Fundação Marcopolo revelou que dois a cada três jovens em Caxias do Sul deixariam a cidade se tivessem oportunidade. O dado, que representa 67% desse estrato da população, faz parte do levantamento "O Futuro que Queremos" realizado pela entidade.
O estudo, apresentado em um evento da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) de Caxias ouviu 1.044 jovens entre 15 e 29 anos e traz um contraste: 81% acreditam em uma vida próspera no futuro e mais de 80% dizem gostar de Caxias do Sul, mas a maioria iria embora se pudesse.
Ouvidos pela reportagem do Cidades, dois jovens caxienses corroboram esse dado: o estudante de física Vinícius Felipeto Rui, de 23 anos, e o recém-formado em história Gustavo Uez Silva, de 22 anos, que ilustram dois lados desse movimento. O primeiro já trocou Caxias por Porto Alegre para estudar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs); o segundo ainda mora na cidade natal, mas planeja deixá-la assim que encontrar uma oportunidade, possivelmente fora do estado.
Vinícius mora sozinho em Porto Alegre desde que ingressou no curso de bacharelado em física na Ufrgs, hoje entre o quinto e o sexto período. Recentemente, passou a se interessar por física médica, ligada a diagnóstico por imagem, e afirma que a capital gaúcha concentra mais oportunidades nesse campo. "As oportunidades em Caxias não são tão abertas. O que mais aparece é o emprego de professor", afirmou.
Apesar da mudança, o estudante mantém um vínculo afetivo com a cidade natal, onde moram sua família e amigos. "Eu diria que eu sou conectado com as pessoas que estão ali . A cidade é só um ponto de encontro", disse. Para ele, a pesquisa reflete a busca por oportunidades que a cidade ainda não oferece, mais do que uma rejeição a Caxias.
Vinícius (e) e Gustavo buscam oportunidades profissionais fora da Serra gaúcha
Vinícius Rui/Gustavo Uez/Arquivo Pessoal/Cidades
Já Gustavo, que se formou em história pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) há duas semanas, segue morando na cidade da Serra Gaúcha, onde vive desde que nasceu, mas projeta se mudar assim que conseguir uma posição como professor em outra cidade. Para ele, a valorização salarial do magistério no RS é um obstáculo, o que o leva a considerar estados do Nordeste brasileiro, favorecidos, segundo diz, por um clima mais quente.
O motivo é também de saúde: desde criança, o estudante sofre com alergias associadas ao frio da cidade. "Sempre que eu vou para o calor, dá uma boa melhorada", contou. Ele aponta ainda a falta de espaços culturais como outro fator de peso. "Sinto que em Caxias peca muito em não ter espaços de cultura, principalmente para os jovens de 16 a 20 anos", avaliou.
Mesmo com o desejo de partir, Gustavo reconhece vínculos com a cidade, onde já trabalhou em um museu e hoje atua em um instituto local. "Eu gosto de Caxias, tenho minha família toda aqui", afirmou. Mas, na avaliação dele, faltam políticas de valorização profissional e de investimento cultural que vão além das tradições italianas mais divulgadas no município, o que reforça, para ele, o sentido do dado revelado pela pesquisa.
Para o gerente da fundação, Luciano Balen, o resultado é motivado pela busca por oportunidades de trabalho, cultura, esporte e lazer, e não por rejeição à cidade.
Balen classificou o dado como um alerta sobre a capacidade do município de reter as novas gerações. "A nossa cidade está perdendo talentos", afirmou. Segundo ele, muitos jovens caxienses têm acesso a boas escolas e buscam qualificação, mas encontram fora do município as oportunidades que procuram. "A nossa força, a nossa mentalidade vai embora com eles", completou.
Qualidade de vida é tema sensível para jovens caxienses e pesa nos dados da pesquisa, pontua Balen
Júlio Soares/Objetiva/Divulgação/Cidades
Ao citar Medellín, na Colômbia, como referência de transformação urbana, Balen destacou investimentos em educação, cultura, esporte, mobilidade e espaços públicos como caminho para tornar Caxias mais atrativa às novas gerações. "A gente tem muito mais aspectos que nos unem do que nos separam nesse lugar, nessa cidade", afirmou.
O presidente da CIC Caxias, Ubiratã Rezler, avalia que o município já reúne boa parte das condições apontadas como ausentes pela pesquisa. Segundo ele, o levantamento desafia a cidade a mostrar melhor o que já oferece e a criar oportunidades para que os jovens enxerguem ali um lugar para construir o futuro. "Acredito que, diferentemente do que o dado aponta, Caxias do Sul oferece aos jovens oportunidades de trabalho, estudo, qualificação, saúde, cultura, lazer e desenvolvimento profissional", defendeu.
O levantamento realizado pela Fundação Marcopolo também identificou desafios de qualidade de vida citados pelos jovens caxienses: quatro em cada 10 jovens dormem menos de seis horas por dia, 38% disseram sentir ansiedade algumas vezes e 24% relataram o sentimento na maior parte do tempo. Há ainda registros de solidão mesmo na companhia de outras pessoas, além de tristeza e irritação frequentes.
Na convivência, 83% citaram conversar com amigos como atividade preferida, 50% gostam de passear pela cidade e 44% apontaram os esportes. Ainda assim, cerca de um terço não pratica esportes com regularidade e cerca de 40% não frequentam parques e praças. Já 24% dos jovens afirmam não manter vida cultural ativa.
Além dos 1.044 participantes do levantamento quantitativo, cerca de 300 jovens foram ouvidos em entrevistas audiovisuais feitas por alunos da Escola Marcopolo de Criatividade. Segundo a pesquisa, 93% dos jovens estudam e 91% querem continuar estudando ao longo da vida. Já 51% trabalham, e, questionados sobre o setor em que gostariam de atuar daqui a dez anos, 52% apontaram serviços, 43% administração, 30% indústria e 12% comércio.