A queda no preço médio pago ao produtor de tabaco e o atraso na comercialização da safra 2024/25 estão reduzindo a circulação de recursos nos municípios produtores do Vale do Rio Pardo e ameaçam a arrecadação das prefeituras da região nos próximos anos. O alerta foi feito por prefeitos e lideranças do setor reunidos em Santa Cruz do Sul no dia 25 de maio, em encontro mediado pela Associação dos Municípios Produtores de Tabaco (Amprotabaco) com representantes da indústria fumageira e dos trabalhadores.
O preço médio pago ao produtor nesta safra está entre R$ 50 e R$ 70 por arroba, abaixo do que foi registrado nas duas safras anteriores, segundo o prefeito de Vera Cruz e presidente da Amprotabaco, Gilson Becker. O gestor também chama atenção para o ritmo lento das vendas: no final de maio, menos de 50% do tabaco da região havia sido comercializado — volume que, em anos anteriores, já estava integralmente vendido no início do mesmo mês. A retenção reflete a estratégia dos produtores de aguardar uma possível recuperação dos preços, mas prolonga a escassez de recursos na economia local. "Isso vem fazendo com que esteja atrasando muito o ciclo de comercialização", afirmou Becker.
O cenário é agravado pelo peso que a cultura tem nas economias locais. Em 22 municípios do Vale do Rio Pardo dentre um total de quase 200 municípios produtores no RS analisados pela Famurs, o tabaco responde, em média, por 50,4% da produção primária — dado que evidencia a dependência estrutural da região em relação à cadeia fumageira. Em municípios como Sinimbu, Vale do Sol e Herveiras, essa participação supera 90%. Em Vera Cruz, o tabaco representa 73,1% da produção primária e é responsável por 70% da arrecadação municipal proveniente do setor primário.
O impacto imediato é sentido no comércio. Giovane Weber, produtor de tabaco de Santa Cruz do Sul e representante da terceira geração da família na atividade, descreve com precisão o efeito em cadeia. Com metade da safra ainda no galpão e preços abaixo dos R$ 20 por quilo — ante mais de R$ 21 registrados no início da safra — o produtor estima uma perda de R$ 10 mil a R$ 20 mil em relação ao esperado. "É um dinheiro que não vai circular no comércio. O produtor está pagando as contas que tem, mas não está fazendo conta nova", disse.
Municípios temem perdas na arrecadação com problemas no setor
O efeito sobre as finanças públicas tende a se aprofundar nos próximos anos. Segundo levantamento da Famurs com base na safra 2024/25, o setor fumageiro responde por fatias expressivas do ICMS estimado para 2026 em municípios do Vale do Rio Pardo: Herveiras (48,4%), Vale do Sol (43,1%), Boqueirão do Leão (41,3%), Segredo (29,5%) e Sinimbu (29,0%) lideram o ranking regional. Em Vera Cruz, o tabaco representou 13,8% do ICMS estimado para 2025.
Gilson Becker alerta que qualquer redução na arrecadação compromete diretamente a capacidade dos municípios de manter serviços públicos e realizar investimentos. "Os orçamentos municipais já são bastante limitados e comprometidos. Qualquer impacto que ocorrer numa diminuição da arrecadação vai estar comprometendo a prestação desses serviços", afirmou.
Para Gilson Becker alerta para redução na arrecadação dos municípios
Cristiano Rosa/Amprotabaco/Divulgação/JC
A situação é semelhante na região Centro-Sul do estado. Em Dom Feliciano, onde o tabaco representa 56,6% da produção primária e cerca de 20% do ICMS municipal — equivalente a aproximadamente R$ 3 milhões —, o prefeito Tiago Szortyka estima que apenas 14% dos cerca de 13 milhões de quilos produzidos na safra foram comercializados até o início de junho. No ano passado, a arroba era negociada em torno de R$ 350; nesta safra, os valores estão entre R$ 240 e R$ 270. "Isso vai trazer um impacto enorme no município, na economia direta, que é aquele dinheiro que vai entrar nas famílias para poderem pagar suas contas", disse o chefe do executivo.
A preocupação com o êxodo rural também está presente. O produtor Weber avalia que anos de dificuldade funcionam como gatilho para jovens produtores migrarem para o meio urbano. "Às vezes falta aquele último empurrão, e em um ano como esse, aquele empurrão é dado", disse.
Diante da queda nos preços e do atraso na comercialização do tabaco, produtores e municípios do Vale do Rio Pardo buscam alternativas para atravessar a má fase sem comprometer a continuidade da atividade. Uma das principais queixas dos produtores na safra atual é que a indústria passou a comprar por média de preço, sem levar em conta a classificação individual do produto.
Para Giovane Weber, produtor de Santa Cruz do Sul, isso desestimula quem investe em qualidade. "O produtor está pedindo que se olhe a classe, que se valorize o produto que o fumicultor conseguiu colher", disse, destacando que os produtores integrados seguem normas rígidas de cultivo impostas pelas próprias empresas.
Mesmo com as perdas desta safra, Weber já está preparando a próxima. "O produtor sabe dos prejuízos que está tendo, mas não pode passar a janela de plantio se quer continuar a plantar", explicou.
A perspectiva climática adiciona uma camada de incerteza ao planejamento. As previsões de El Niño mais intenso para o segundo semestre preocupam tanto gestores quanto agricultores. Weber já adota medidas preventivas, como adubação verde e reforço de curvas de nível, mas reconhece que volumes excessivos de chuva tendem a reduzir a produtividade do tabaco.