O município de Ivoti, no Vale do Sinos, reúne, até agora, o maior conjunto de casas construídas com a técnica enxaimel inventariado no Rio Grande do Sul. O estudo, realizado a partir de 2021, identificou 177 imóveis de valor histórico no município, dos quais 104 são edificações com essa técnica construtiva associada à imigração alemã. Considerando unidades isoladas e conjuntos — como casa e cozinha ou casa e galpão — o número pode ultrapassar 120 exemplares. Apesar disso, levantamentos recentes em Nova Petrópolis indicam que o município pode alcançar uma quantidade semelhante ou superior, o que pode alterar a posição de Ivoti no Estado.
O inventário foi realizado por meio de uma edital da prefeitura e incluiu revisão de dados anteriores, levantamento de campo e entrevistas com moradores. Na década de 1990, um estudo preliminar havia identificado 167 imóveis. Desses, 123 ainda existiam no momento da atualização, enquanto 44 foram demolidos ou descaracterizados. Durante o novo trabalho, foram localizadas outras 53 edificações, ampliando o conjunto analisado.
De acordo com o arquiteto Vlademir Roman, que atuou no estudo, o inventário é um instrumento fundamental para a preservação do patrimônio. “Tu tens que saber quantas são, e onde são, e como estão. Senão tu não tens esse controle”, afirma. Ele ressalta que, entre os anos 1990 e 2020, cerca de 25% das casas anteriormente identificadas deixaram de existir.
A historiadora Gladis Pippi explica que a ocupação da região onde hoje está Ivoti começou a se intensificar a partir da década de 1830, com a expansão das colônias alemãs instaladas inicialmente em São Leopoldo. “A partir de 1830, 1840, começam essas ocupações em Ivoti, se intensificando mais na década de 1840 e 1850”, afirma.
A técnica enxaimel é caracterizada por uma estrutura de madeira montada com encaixes, formando um esqueleto estrutural. Os vãos são preenchidos com materiais como tijolos, pedra ou barro. Esse sistema permite a desmontagem e remontagem das construções, prática utilizada historicamente em situações como deslocamentos por enchentes. “Ela faz uma gaiola, uma estrutura rígida, e aí faz o preenchimento dos tramos”, explica Roman. “Isso permite desmontar a casa e remontar num outro local”, completa.
Segundo o arquiteto, as construções mais antigas de Ivoti apresentam características específicas, como o uso de peças de madeira mais robustas e ausência de viga de baldrame junto à fundação, o que indica fases iniciais de ocupação. Também foram identificadas edificações com fechamento em pau a pique, o que ajudou a equipe a identificar as construções mais antigas.
As casas estão distribuídas em diversas localidades do município, com maior concentração no Núcleo Enxaimel, onde as edificações permanecem, em grande parte, nos locais originais. O conjunto está localizado próximo à Ponte do Imperador, o que contribuiu para a preservação da área. Conforme os especialistas, o fato de as casas permanecerem no local de origem é um diferencial em relação a outros conjuntos do Estado. “Ali no Núcleo Enxaimel, elas são do local original, elas estão aí desde a sua construção”, afirma Roman.
Atualmente, parte dessas construções tem usos diversos, incluindo residências, espaços comunitários e atividades comerciais. A secretária de Turismo e Cultura, Raiama Trenkel, afirma que o núcleo concentra eventos e iniciativas ligadas ao turismo. “Hoje o núcleo de casas em enxaimel é um dos principais pontos de eventos”, diz. Segundo ela, algumas edificações abrigam associações e atividades ligadas à economia local. “Tem casas que abrigam associações fomentando o turismo da cidade”, afirma.
A secretária também destaca a relação entre o patrimônio e a identidade cultural do município. “A importância é extrema, muito grande, uma vez que uma das nossas culturas que mantém a identidade do município é a cultura alemã”, afirma. Segundo ela, o inventário municipal orienta as ações de preservação e catalogação das edificações históricas.
Entre essas ações está o restauro do Salão Holler, construção em enxaimel localizada no centro da cidade e considerada a maior do tipo no Estado em área construída. O prédio possui tombamento estadual e passa por etapas de recuperação.
Além de Ivoti, outros municípios do RS desenvolvem iniciativas voltadas à preservação desse tipo de patrimônio. Em Nova Petrópolis, há legislação específica para proteção das casas enxaimel e programas de incentivo financeiro para manutenção. A historiadora Gladis Pippi cita que o modelo inclui exigências para reformas e deslocamentos. “A lei exige que, no caso de deslocamento, tem que haver uma justificativa e um laudo técnico”, afirma.
Levantamentos recentes realizados em comunidades do interior de Nova Petrópolis indicam o crescimento no número de edificações catalogadas. Em uma única localidade, foram identificadas cerca de 50 casas. A continuidade desses inventários pode resultar em um total superior ao registrado em Ivoti.
Para os especialistas, independentemente da disputa por números, o inventário detalhado é essencial para a preservação. “As pessoas estão ocupando, mesmo fazendo reformas, e elas valorizam isso”, afirma Roman. Segundo ele, o uso das edificações, inclusive para fins turísticos, contribui para a manutenção do patrimônio ao longo do tempo.