Porto Alegre,

Publicada em 10 de Março de 2026 às 17:35

Estiagem diminui ritmo de abertura de empresas nas Missões e Campanha

Estiagens e eventos climáticos extremos têm impactado diretamente a economia local e a dinâmica de novos negócios

Estiagens e eventos climáticos extremos têm impactado diretamente a economia local e a dinâmica de novos negócios

Gustavo Mansur/Palácio Piratini/JC
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Lívia Araújo
Lívia Araújo Repórter
Apesar do crescimento recorde na abertura de empresas no Rio Grande do Sul, duas regiões do Estado apresentaram desempenho inferior em 2025. As regiões funcionais (RF) 6 e 7, que abrangem a Campanha, Fronteira Oeste, Missões e parte do Noroeste, registraram avanço menor no saldo de novos negócios ou até queda nesse indicador, em contraste com a expansão observada em outras áreas.
Apesar do crescimento recorde na abertura de empresas no Rio Grande do Sul, duas regiões do Estado apresentaram desempenho inferior em 2025. As regiões funcionais (RF) 6 e 7, que abrangem a Campanha, Fronteira Oeste, Missões e parte do Noroeste, registraram avanço menor no saldo de novos negócios ou até queda nesse indicador, em contraste com a expansão observada em outras áreas.
Levantamento do Jornal Cidades, com base em dados da Junta Comercial, Industrial e de Serviços do Rio Grande do Sul (JucisRS), mostra que o Estado fechou 2025 com saldo positivo de 111.829 empresas — a diferença entre aberturas e extinções de CNPJs. O número representa crescimento de 17,5% em relação a 2024, quando o saldo havia sido de 95.095 empresas.
Mesmo dentro desse cenário positivo, algumas regiões apresentam dinâmica distinta. É o caso da RF7, que inclui Fronteira Noroeste, Missões, Noroeste Colonial e Celeiro. Embora a abertura de empresas tenha crescido 18,2% em 2025, o saldo de negócios - indicador que considera também os encerramentos - caiu 6% em relação ao ano anterior.
Em números absolutos, a diferença entre empresas abertas e fechadas na região foi de 4.892 CNPJs em 2025, abaixo do saldo de 5.193 registrado em 2024. No nível municipal, 20 dos 77 municípios da macrorregião apresentaram queda no saldo de empresas.
Dentre os municípios da macrorregião, Bozano, no Noroeste Colonial, registrou a maior retração proporcional, com saldo 67% menor que no ano anterior. Entre cidades de maior porte, Horizontina, na Fronteira Noroeste, teve queda de 13,7% na abertura de novos negócios - foram 333 empresas iniciadas em 2025, contra 386 em 2024 - e saldo 14% inferior ao registrado no ano anterior.
Situação semelhante ocorre na RF6, que abrange Campanha e Fronteira Oeste. A região registrou saldo positivo de 3.993 empresas em 2025, crescimento de 7% em relação a 2024 — percentual inferior ao observado em outras regiões do Estado.
No período, foram abertas 13.101 empresas e encerradas 9.108 atividades. Mesmo com saldo positivo, sete dos 20 municípios da região tiveram desempenho inferior ao do ano anterior. Uruguaiana apresentou queda de 21% no saldo de empresas, enquanto Santa Margarida do Sul registrou recuo de 233%.
Para o gerente de Competitividade Setorial do Sebrae RS, Augusto Martinenco, um dos fatores centrais para explicar esse desempenho é a forte dependência do agronegócio nessas regiões. Segundo ele, problemas recentes enfrentados pelo setor, especialmente estiagens e eventos climáticos extremos, têm impactado diretamente a economia local e a dinâmica de novos negócios. “Quando o agronegócio não vai bem, os outros segmentos também não vão bem. Comércio, serviços e indústria acabam sendo impactados, porque a geração de renda e de investimentos diminui”, afirma.
De acordo com Martinenco, o agronegócio funciona como um motor econômico em muitas dessas regiões. Quando há retração na atividade rural, toda a cadeia econômica sofre reflexos. “Se o produtor investe, ele compra insumos, contrata serviços, movimenta o comércio e gera emprego. Quando isso não acontece, a necessidade de novos empreendimentos diminui ou cresce menos”, explica.
Outro fator apontado por entidades empresariais é a dificuldade de acesso ao crédito e o custo elevado dos financiamentos. Para o vice-presidente de Micro e Pequenas Empresas da Federasul, Douglas Winter Ciechowiez, juros altos e endividamento do setor produtivo acabam afetando diretamente a abertura de novos negócios. “O agro não conseguiu repactuar suas dívidas e isso impacta toda a economia regional. Se o produtor não investe e não consome, o comércio e os serviços também sofrem”, observa.
Segundo ele, a dificuldade de crédito também atinge pequenos empreendedores, que enfrentam custos financeiros elevados para iniciar ou expandir atividades.
Como forma de amenizar esse cenário, a entidade ampliou em 2025 o programa Estímulo RS, iniciativa multissetorial voltada ao financiamento de pequenos negócios com juros subsidiados. A iniciativa já destinou cerca de R$ 5 milhões em empréstimos para micro e pequenas empresas em diferentes regiões do Estado. “São recursos com juros próximos ao CDI, que ajudam o empreendedor a reorganizar o caixa e manter o negócio funcionando”, afirma Ciechowiez.
Para especialistas, a diversificação econômica e o estímulo ao empreendedorismo local são caminhos importantes para reduzir a dependência de setores mais sujeitos a oscilações climáticas ou de mercado. Nesse contexto, programas de capacitação, incentivo à inovação e identificação de oportunidades regionais são apontados como estratégias para fortalecer o ambiente de negócios e ampliar a criação de empresas.

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