O projeto Patrimônio Industrial e Memória Operária Nova Rheingantz teve início no mês de fevereiro, em Rio Grande. A iniciativa promove visitas guiadas pela antiga fábrica da Rheingantz, a primeira manufatura têxtil do Estado. À frente do projeto está a arqueóloga industrial e educadora patrimonial, Vanessa Avila Costa, que planejou a abertura do local junto com a instituição.
As visitações são abertas para o público, com valores exclusivos para grupos escolares e moradores de Rio Grande. Os passeios pela fábrica já acontecem desde 2022, quando Costa coordenou um projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) voltado apenas para escolas. Foi dele que surgiu a nova iniciativa, que estende a possibilidade de conhecer o local a todos que procuram. "Sempre havia outras pessoas interessadas em realizar essas visitas. Então, o objetivo agora é abrir esse importante patrimônio industrial para a comunidade riograndina, para que todos possam conhecê-lo", afirma a pesquisadora.
Segundo Costa, o projeto tem a intenção de unir o turismo, o patrimônio industrial e a memória operária da usina. Com as visitações guiadas, a iniciativa consegue criar um atrativo turístico ao mesmo tempo que conta a história de trabalhadores invisibilizados, explica a arqueóloga. Fora isso, dentro da fábrica ainda é possível conhecer os seus antigos maquinários, como as máquinas de tear e de costura.
Para a coordenadora do projeto, as visitas são uma maneira da população conhecer esse patrimônio material, ou seja, as edificações, os maquinários e as relíquias presentes na manufatura. Mas não somente ele; Costa explica como é necessário trabalhar com o patrimônio imaterial do local, isto é, as memórias e lembranças que foram construídas na usina. "É uma forma de trazer o passado à tona a todas as pessoas interessadas em conhecer não só a estrutura, como também a história da fábrica. Essas memórias para nós são tão valiosas quanto as paredes que estão lá hoje", afirma.
O reconhecimento daqueles que construíram essa história, fez com que o programa garantisse a gratuidade para ex-operários da empresa nas visitas guiadas. O vínculo com a fábrica pode ser comprovado com documentos, registros, fotografias ou até mesmo com o compartilhamento de relatos do trabalho durante a visita.
A inspiração para a criação do projeto e estudos sobre a fábrica por parte da arqueóloga tem um lado pessoal. Costa afirma que desde criança escuta histórias sobre a empresa, uma vez que sua avó era funcionária da Rheingantz. Por isso, ela busca valorizar essa mão de obra que era presente no local. "Eu comecei este projeto por conta da minha avó que trabalhou na fábrica. Cresci ouvindo as histórias dela lá e sempre tive curiosidade de conhecer o local", conta.
A fábrica da Rheingantz foi tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Estado em 2012, mas teve suas portas fechadas ainda no século XX. A primeira fábrica têxtil do Estado declarou falência primeiro em 1968, mas reabriu na década de 1970 e fechou definitivamente nos anos 1990. Desde seu fechamento oficial até as visitações escolares em 2022, não era possível conhecer a usina e isso gerou uma curiosidade por uma parte da população, que não a viu funcionando.
O impacto da indústria têxtil em Rio Grande é visto no próprio pórtico na entrada da cidade: uma máquina de costura. Construído em 1950, quando a Rheingantz já completava 77 anos, o município era conhecido pela exportação de roupas e tapetes. Fundada em 1873, por um alemão, a empresa se destacou no manuseio da lã, confeccionando produtos de alta qualidade. Hoje, segundo Costa, é possível encontrar tapetes produzidos pela fábrica da Rheingantz até mesmo no Palácio do Piratini, em Porto Alegre.
Projeto busca valorizar trabalho feminino presente na fábrica
Durante a conversa, Costa explica como a mão de obra dentro da fábrica sempre foi majoritariamente feminina. Segundo ela, toda a produção era feita por mulheres, desde a classificação da lã até a costuraria. Mesmo assim, museus que tratam sobre a história industrial de Rio Grande tendem a inviabilizar o trabalho dessas operárias, afirma. “Percebemos que a memória dessas mulheres não está presente nos museus. A narrativa que eles geralmente contam é relacionada ao fundador das indústrias”, diz a pesquisadora.
Com a gratuidade para ex-funcionários, histórias sobre a rotina na fábrica revelam a presença do trabalho feminino. Entre elas, uma se destaca como a mais contada pelos visitantes. “Um acidente de trabalho no tear ficou muito marcado na memória dos operários. Sem a utilização de equipamentos de Proteção Individual, as mulheres não tinham como prender seus cabelos. Quando uma operária estava trabalhando no tear, precisou se agachar na máquina para pegar algo que havia caído. Então, a máquina puxou seu couro cabeludo e arrancou todo ele”, conta Costa.
Com a iniciativa, a estudiosa tenta honrar o trabalho dessas mulheres. A abertura da fábrica possibilitou valorizar o trabalho, as histórias e os saberes têxteis das ex-operárias, conta a arqueóloga. “Não falamos sobre isso, é uma história que foi invisibilizada, que não foi contada. Por isso é importante reforçar a importância das trabalhadoras têxteis para a economia da nossa cidade”, conta.