O cancelamento da etapa da Big Wolf Cup, torneio nacional de futevôlei previsto anteriormente para ocorrer em Xangri-lá, no Litoral Norte gaúcho, desencadeou uma disputa pública entre os organizadores do evento e a prefeitura do município. A etapa precisou ser transferida às pressas para Gravataí, na Região Metropolitana, e acabou sendo realizada em arena fechada no último final de semana, após a retirada de apoio da cidade litorânea a poucos dias do evento.
A competição integrou o calendário oficial da Liga Brasileira de Futevôlei e previa, inicialmente, reunir mais de 300 duplas de atletas de diferentes regiões do Rio Grande do Sul, de outros estados e também de países vizinhos, como Uruguai, Paraguai e Argentina. Segundo a organização, o planejamento da etapa vinha sendo feito desde o ano passado, com tratativas iniciadas ainda em dezembro de 2025 junto à prefeitura de Xangri-lá.
De acordo com o representante da Big Wolf Cup, Thales Melo, houve reuniões presenciais com secretários municipais, alinhamento sobre local, estrutura e apoio logístico, além da autorização para divulgação do evento em conjunto com o município. A partir desse aval, afirma, a organização iniciou oficialmente a etapa, com abertura de inscrições, produção de uniformes, compra de passagens aéreas para profissionais envolvidos e confirmação de atletas.
O impasse, por sua vez, começou quando, já em janeiro, a comunicação com a prefeitura teria sido interrompida. Conforme relata Melo, após semanas sem retorno, a organização recebeu a informação de que o apoio inicialmente combinado seria reduzido, limitando-se à cessão de ferros e tendas. A proposta, segundo ele, destoava do acordo previamente estabelecido e colocava em risco a realização do campeonato no formato planejado.
Ainda assim, novas reuniões foram realizadas na tentativa de manter o evento em Xangri-lá. Nessas conversas, a prefeitura teria sinalizado novamente que a competição ocorreria, pedindo apenas que as comunicações passassem a tramitar por meio de protocolos oficiais. Um checklist completo da estrutura necessária - incluindo iluminação, banheiros, arquibancadas e preparação da arena - chegou a ser apresentado e, segundo o organizador, confirmado.
Mas a decisão definitiva veio menos de uma semana antes da data marcada. Conforme a organização, a prefeitura de Xangri-lá informou que toda a estrutura disponível havia sido direcionada a outro evento esportivo programado para o mesmo local, na Avenida Central de Atlântida, o que inviabilizaria a realização da Big Wolf Cup.
“A partir daquele momento, ninguém mais nos atendeu. Secretários pararam de responder ligações e mensagens, e qualquer tentativa de contato passou a ser feita apenas por meio de assessores”, afirma Melo.
Organizador promete entrar na justiça; prefeitura alega não ter firmado compromisso formal com campeonato
Com atletas já em deslocamento, hospedagens reservadas e custos elevados assumidos, a organização optou por não cancelar a etapa. Em menos de um dia, a sede foi transferida para uma arena esportiva em Gravataí, onde o torneio acabou acontecendo no último final de semana. A mudança, no entanto, gerou perdas significativas: mais de 100 duplas desistiram da competição, e novos gastos foram necessários com transporte, nova produção de uniformes e logística.
"O prejuízo total passa de R$ 200 mil. Só em passagens aéreas foram mais de R$ 60 mil, além da produção de cerca de 3 mil uniformes com os logos do evento e da prefeitura, gastos com hotel e o fretamento de ônibus para levar atletas que já estavam no Litoral Norte até Gravataí. Grande parte desses custos não tem como reverter, e não houve reembolso de hospedagens já contratadas", lamenta Thales Melo.
Em nota enviada à reportagem, a prefeitura de Xangri-Lá negou ter firmado qualquer compromisso formal com o campeonato. A administração afirmou que, após verificação nos canais institucionais, não foi localizado plano de trabalho, solicitação formal ou documento protocolado que previsse apoio ao evento. Segundo o município, tratativas informais não podem ser consideradas válidas do ponto de vista administrativo, por não garantirem segurança jurídica nem respaldo legal para ações do poder público.
A prefeitura acrescentou que permanece aberta ao diálogo com organizadores e demais interessados, desde que as demandas sejam apresentadas pelos meios formais e dentro dos trâmites previstos. A nota não comentou diretamente os prejuízos relatados nem a mudança de sede às vésperas do evento.
Diante do ocorrido, a organização do torneio de futevôlei informa que irá adotar medidas judiciais para responsabilizar o município por danos financeiros, morais e de imagem. "Não é só pelo prejuízo financeiro, é pelo impacto na vida dos atletas, dos patrocinadores e de todo mundo que acreditou no evento", finaliza Melo.