Para além do debate recorrente na Capital sobre o futuro do Campeonato Gaúcho, a presença de Grêmio e Inter no Interior segue sendo vivida como um acontecimento especial. Ao fim da primeira fase do Gauchão, quatro cidades receberam jogos da dupla: Caxias do Sul e Erechim, com o Inter; Bagé e Santa Cruz do Sul, com o Grêmio, e ajudam a ilustrar como o futebol, fora do eixo metropolitano, extrapola o gramado e movimenta a economia local, o turismo e a própria identidade regional.
Os números de público ajudam a dimensionar esse efeito. Em Caxias do Sul, o duelo contra o Inter levou 4.230 torcedores ao estádio, praticamente o dobro do registrado nos jogos diante de Avenida (2.176) e Guarany (2.418). Em Erechim, o contraste foi ainda mais evidente: 4.353 pessoas acompanharam Ypiranga x Inter, frente a públicos inferiores a 800 torcedores nas partidas contra Guarany (598) e São José (727).
Em Bagé, o Guarany recebeu 3.086 torcedores diante do Grêmio, ante pouco mais de 500 no confronto com o Monsoon e menos de 400 contra o Inter-SM. Já em Santa Cruz do Sul, o Avenida teve 2.828 torcedores contra o Grêmio, enquanto os jogos com São Luiz (756) e Novo Hamburgo (901) ficaram bem abaixo disso.
Mesmo com ingressos mais caros nas partidas contra a dupla Gre-Nal, a demanda cresce, sinal de que, no Interior, esses jogos são percebidos como algo especial. Em cidades mais distantes do grande centro do futebol, a vinda de Grêmio ou Inter concentra expectativas, mobiliza torcedores de municípios vizinhos e, por vezes, de outros estados.
Na Rainha da Fronteira, a secretária de Turismo, Elidiane Lobato, descreve esse movimento como algo esperado ao longo do ano. Segundo ela, jogos de maior porte geram impacto direto no comércio, na hotelaria e na gastronomia, com visitantes vindos da Região Metropolitana, além de cidades da fronteira e da Campanha.
“Quando esses times vêm, eles costumam ficar dois ou três dias na cidade, e os hotéis já se preparam para recebê-los. Muitas pessoas escolhem se hospedar nos mesmos locais das delegações, na expectativa de conhecer os jogadores. Para um município do Interior, esse tipo de jogo é mais do que esporte: é um evento. A cidade se prepara para receber e para enquanto acontece”, afirma.
Ela destaca ainda um aspecto simbólico: mesmo quem não torce pelo clube local acaba se envolvendo quando o time representa o município e o Interior como um todo. “Há uma união da cidade. Até torcedores de Grêmio e Inter passam a torcer pelo Guarany naquele contexto”, relata, citando também o contato mais próximo entre jogadores e público como parte da experiência que fideliza visitantes.
Em Caxias do Sul, município com calendário esportivo mais intenso, o efeito tende a ser menos concentrado - mas não irrelevante. O secretário de Turismo, Felipe Gremelmaier, aponta que os jogos da dupla Gre-Nal contra Caxias ou Juventude ativam uma cadeia ampla, envolvendo hotéis, bares, restaurantes e postos de combustível.
“O futebol é o nosso carro-chefe, porque acontece semanalmente, mas ele se soma a outros eventos esportivos que a cidade já recebe”, pondera, citando investimentos do município em atrações como basquete e corridas de rua.
Futebol levou 130 mil pessoas a Caxias do Sul no ano passado
A percepção sobre o impacto de investimentos na realização de eventos esportivos é reforçada pelo comércio.
O presidente do Sindilojas Caxias, Rossano Boff, lembra que, no ano passado, o futebol levou cerca de 130 mil pessoas de fora ao município. "Sempre que aumenta o fluxo de visitantes, o comércio sente. As pessoas circulam, passeiam e acabam consumindo", diz. Segundo ele, há tanto torcedores que fazem bate-volta quanto famílias que permanecem um ou dois dias, aproveitando a estrutura turística da cidade. De qualquer forma, o saldo é positivo.
Em Santa Cruz do Sul, onde hoje apenas o Avenida disputa a elite estadual, o secretário de Esportes e Lazer, Daiton Mergen, avalia que o impacto dos jogos da dupla é mais turístico do que esportivo. No duelo contra o Grêmio, além dos torcedores que lotaram o Estádio dos Eucaliptos, cerca de 2 mil pessoas utilizaram o Parque da Oktoberfest em ações ligadas à torcida visitante, movimentando bares, restaurantes e o comércio informal na região.
"O futebol acaba funcionando como porta de entrada. A pessoa vem pelo jogo, conhece a cidade e depois retorna para outros eventos", afirma Mergen, citando a Oktoberfest e competições nacionais como exemplos. Ele observa ainda que o entorno do estádio também se beneficia, com vendas distribuídas pelo varejo formal e informal.
Já no Norte do Estado, Erechim e o Alto Uruguai vivem o Gauchão de forma particular. Para o secretário Wallace Soares, a presença de Grêmio ou Inter supre uma lacuna histórica: muitos torcedores da região não têm o hábito - ou a facilidade, devido à distância - de se deslocar até Porto Alegre para assistir a jogos de Série A.
"Vem gente de toda a região do Alto Uruguai, de cidades como Frederico Westphalen, e até de Santa Catarina. Estamos a cerca de 40 minutos da divisa, e sabemos que o Oeste catarinense tem muitos torcedores da dupla. Isso faz com que a rede hoteleira, os restaurantes e o setor de serviços tenham um acréscimo muito significativo de movimento e por vezes lotem", conta.
Soares chama atenção também para a importância da bilheteria para clubes do Interior, como o Ypiranga. "Esses jogos costumam gerar lucro e ajudam a garantir a sustentabilidade financeira do nosso time local", afirma, lamentando que o impacto diminui quando as equipes de Porto Alegre vêm com times reservas, mesmo que siga relevante.
Em comum, os municípios enxergam no turismo esportivo uma aposta contínua. Seja como um grande evento pontual, seja como estímulo recorrente à circulação de visitantes nos municípios de destino, os jogos do Gauchão - especialmente aqueles que envolvem Grêmio e Inter - seguem sendo, longe de Porto Alegre, uma das expressões mais claras de como o futebol se mistura ao cotidiano, à economia e à identidade regional.