Clube da elite do futebol gaúcho, o Monsoon Futebol Clube trabalha com um projeto para construir um estádio próprio em Capão da Canoa, no Litoral Norte do Estado, até o fim de 2026. A proposta, apresentada ao Jornal Cidades pelo CEO do clube, Vítor Hugo Manique, prevê a edificação de uma arena multiuso e faz parte de uma estratégia de médio e longo prazo para fixar o munícipio como sede definitiva do clube-empresa.
Segundo ele, as tratativas estão em andamento com o poder público municipal para viabilizar a área onde o projeto seria implantado. “Assim que isso estiver resolvido, vamos captar os recursos e iniciar a construção. É apenas uma questão de tempo”, afirma.
A ideia do clube é construir o estádio do zero. O conceito apresentado pela direção inclui uma arena que vá além do futebol, com quadras de beach tennis, praça para crianças e áreas pensadas para uso da comunidade, além de estrutura apta a receber eventos e shows ao longo do ano. O objetivo, segundo Manique, é criar um equipamento que tenha uso permanente e ajude a movimentar a cidade para além da temporada de verão e do eixo mais central de Capão da Canoa.
O projeto trabalha com uma capacidade final entre 20 mil e 30 mil pessoas, mas a execução será feita por etapas. A primeira fase terá um estádio menor, entre 5 mil e 7 mil lugares, com ampliações progressivas conforme o avanço do investimento. A estimativa inicial é de um aporte entre R$ 15 milhões e R$ 16 milhões para o estádio e cerca de R$ 6 milhões para o centro de treinamento.
O cronograma ainda depende da definição do terreno, mas a direção considera a possibilidade de iniciar as obras já entre julho e agosto deste ano. A expectativa é entregar a primeira fase em curto prazo e, a partir disso, ampliar a estrutura, com a perspectiva de disputar o Campeonato Gaúcho em Capão a partir de 2027.
A escolha pelo Litoral Norte, segundo o CEO, é estratégica. Manique aponta o potencial econômico da região, impulsionado pela mudança no plano diretor e pela expansão imobiliária, como um fator decisivo. Na avaliação dele, em Porto Alegre o clube teria mais dificuldade para se diferenciar, enquanto em Capão a ideia é ocupar um espaço ainda pouco explorado no futebol profissional gaúcho e se posicionar como "o clube" do Litoral Norte gaúcho.
A localização exata do estádio ainda não está definida. Há diferentes áreas em análise e o clube avalia se o centro de treinamento ficará no mesmo local do estádio ou em outro ponto da cidade, para evitar concentração excessiva de fluxo em uma única região. As áreas consideradas ficam, em média, a cerca de cinco minutos de carro da praia.
O dirigente afirma ainda que o projeto não está condicionado ao desempenho esportivo imediato - como um possível rebaixamento no Campeonato Gaúcho. “É um projeto administrativo e de longo prazo, independente da questão esportiva”, garante.
Clube passa por reorganização financeira
A iniciativa é apresentada em um momento de reorganização do clube, que passou por mudança de gestão no segundo semestre do ano passado. Manique assumiu o comando após um período de instabilidade que chegou a colocar em risco a participação da equipe no Gauchão. A atual direção reconhece que herdou um cenário financeiro delicado - segundo o CEO, o Monsoon assumiu cerca de R$ 7 milhões em dívidas da gestão anterior, principalmente de natureza trabalhista e tributária.
Levantamento realizado pela reportagem junto ao Processo Judicial Eletrônico do TRT da 4ª Região aponta a existência de 50 ações trabalhistas ajuizadas contra o Monsoon Futebol Clube LTDA até o dia 22 de janeiro, com maior concentração em 2025, ano que soma 33 processos. A estratégia, conforme Manique, é reorganizar a contabilidade, regularizar a parte documental e negociar acordos com credores.
Para viabilizar o estádio e o centro de treinamento, o clube avalia diferentes fontes de financiamento, públicas e privadas. Há conversas com investidores e tratativas iniciais envolvendo parcerias internacionais, especialmente com clubes da Alemanha e da França - não revelados pelo mandatário. Paralelamente, a gestão aposta no engajamento local como parte do processo de consolidação.
Do lado do município, a prefeitura confirma que foi procurada pela direção do Monsoon e que a intenção de fixar a sede do clube em Capão da Canoa também foi manifestada junto à Câmara de Vereadores e ao secretário de Cultura, Desporto e Lazer. Em nota, o Executivo informa, no entanto, que o clube ainda não dispõe de área pública para a instalação da sede, nem de patrocinador que possa arcar com os custos do empreendimento.
Ainda assim, a administração municipal afirma apoiar a ideia, "desde que o projeto não gere custos ou despesas para o município". A prefeitura ressalta que há diversas demandas sociais e estruturais em andamento, como reformas e ampliação de obras públicas, que demandam prioridade na aplicação dos recursos públicos.
Litoral Norte pode voltar de vez ao mapa do futebol gaúcho
Estádio Sessinzão, em Cidreira, foi o último do Litoral Norte a sediar jogos da elite gaúcha, em 2007
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A aposta do Monsoon em Capão da Canoa ocorre em um contexto de carência estrutural no Litoral Norte, que não figura entre as principais praças do futebol no Rio Grande do Sul. Atualmente, a região nem mesmo dispõe de um estádio que atenda às exigências da Federação Gaúcha para jogos da elite gaúcha: em Capão, por exemplo, a principal estrutura é o Mariscão, com capacidade aproximada de 1,5 mil pessoas.
A história, por sua vez, traz exemplos que funcionam como inspiração e, ao mesmo tempo, alerta. Em Cidreira, o Estádio Antônio Braz Sessin, conhecido como Sessinzão, foi inaugurado em 1996 com capacidade para cerca de 18 mil torcedores, número superior à população do município à época. O estádio recebeu apenas 19 partidas oficiais, a última em 2007, e foi interditado em 2010 por problemas estruturais e de alvarás.
Sem um clube profissional fixo e sem recursos para manutenção, o local entrou em abandono e se tornou símbolo de um modelo de investimento que não se sustentou ao longo do tempo. No entanto, apesar do desfecho melancólico, gremistas e colorados ainda recordam com carinho - e uma dose de nostalgia - os jogos da Dupla realizados em pleno Litoral durante o verão, sempre com estádios lotados; esse público, sem dúvida, é o que o Monsoon busca atrair.
Além disso, com sua consolidação em Capão, o clube-empresa deve ganhar um rival: o Real Tramandaí. Situado em outra praia gaúcha, o time foi, até o ano passado, a principal força do Litoral Norte, disputando a Divisão de Acesso no Estádio Eluzardo Caetano da Silva. E, como no futebol a paixão move tudo, um clássico local traria ainda mais relevância ao futebol praticado na região.