Porto Alegre,

Publicada em 29 de Janeiro de 2026 às 10:33

Residentes do HU em Canoas iniciam paralisação

Irregularidade em pagamentos a preceptores coloca em risco a realização de cirurgias no hospital; sindicato defende intervenção federal na unidade

Irregularidade em pagamentos a preceptores coloca em risco a realização de cirurgias no hospital; sindicato defende intervenção federal na unidade

TÂNIA MEINERZ/JC
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Lívia Araújo
Lívia Araújo Repórter
Atualizada às 11h47min
Atualizada às 11h47min
Cerca de 60 médicos residentes do Hospital Universitário (HU) em Canoas, vinculado à Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), iniciaram uma paralisação das atividades no início da manhã desta quinta-feira (29), em protesto aos atrasos e falta de pagamento a seus preceptores em áreas como cirurgia geral, o que, na visão dos profissionais, gera riscos e irregularidade no atendimento aos pacientes da unidade.
Os residentes se reuniram na frente do HU a partir das 7h30min, com faixas e adesivos, onde conversaram com o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Marcelo Matias, sobre as reuniões realizadas com a administração do hospital, a prefeitura de Canoas e a Comissão Estadual de Residência Médica.
Segundo Matias, a mobilização não tem relação com bolsas dos residentes, que estariam em dia, mas com a falta de condições de trabalho e de formação. “Eles não estão fazendo esse movimento por dinheiro. Estão fazendo por condição de trabalho para atender a população”, afirmou. De acordo com o dirigente, atrasos recorrentes no pagamento de médicos teriam provocado o esvaziamento de equipes inteiras, especialmente na cirurgia. “O hospital deveria funcionar com seus contratados, não com residentes. Se houve suspensão de cirurgias, isso mostra que a residência tem problemas graves”, disse.
O Simers afirma que pediu à Comissão Estadual de Residência Médica (Cerem-RS) o descredenciamento do programa de cirurgia geral do HU, por considerar inexistentes as condições mínimas de formação. Em ofício enviado nesta semana, o sindicato cita falta de materiais básicos, instabilidade na anestesiologia e cancelamentos frequentes de cirurgias. Também segundo o sindicato, a gestão do HU informou à entidade um prazo entre 30 e 60 dias para levantar informações sobre a situação e, a partir delas, traçar alternativas para a situação da Residência, fator que também preocupa o Simers.
Uma reunião posterior foi feita ainda na manhã desta quinta entre a Cerem-RS, a administração do HU e o Simers. Segundo o sindicato, o encontro foi "preocupante", pois o hospital "julga a atuação dos residentes como um custo e não como uma assistência", disse, em áudio enviado à reportagem, o presidente do sindicato. "Isso pode justificar as más condições que os residentes estão tendo para fazer a assistência, o atendimento e sua formação. Aguardamos os dobramentos dos próximos passos com o relatório que a Cerem vai fazer após essa vistoria", acrescentou Matias.
 Marcelo Matias - presidente  SIMERS - hospital ulbra -  Médicos residentes do Hospital Universitário de Canoas iniciam paralisação  | TÂNIA MEINERZ/JC
Marcelo Matias - presidente SIMERS - hospital ulbra - Médicos residentes do Hospital Universitário de Canoas iniciam paralisação TÂNIA MEINERZ/JC
O preceptor da residência em Ginecologia e Obstetrícia, Vinícius Conejo, afirma que a crise se agravou após a demissão em massa de médicos contratados pelo regime CLT e a posterior terceirização. “O corpo clínico está se desfazendo. Se não há preceptor fixo, o residente perde referência e a assistência entra em risco”, disse. Segundo ele, setores como ginecologia cirúrgica estariam praticamente parados por falta de materiais e anestesistas, enquanto a neonatologia operaria com equipes reduzidas.
O sindicato também relata atraso no pagamento de rescisões e honorários de profissionais que atuam no hospital. Em reunião realizada nesta semana com o prefeito de Canoas, Airton Souza, o Simers solicitou que parte de cerca de R$ 19 milhões em emendas parlamentares previstas para o HU seja direcionada ao custeio e quitação de débitos com médicos. O prefeito afirmou que trataria do tema em agenda em Brasília e voltou a defender a federalização da unidade. Matias pontuou que o Simers também vê a necessidade de uma intervenção federal no complexo.
Cabe salientar que o Hospital Universitário, além de servir como referência para os estudantes, desde 2025 atua como referência para o Hospital de Pronto-Socorro de Canoas (HPSC), que foi atingido pela enchente de maio de 2024 e, desde então, está inoperante. A estrutura de atendimento foi repassada ao HU de forma provisória. A tendência, conforme estimativa da prefeitura de Canoas, é que o HPSC possa retomar os atendimentos na sede até dezembro deste ano
Procurada, a assessoria do Hospital Universitário informou que, em um primeiro levantamento, não havia setores desassistidos e que nem todos os residentes aderiram à paralisação. Segundo o hospital, os atendimentos seguem supervisionados por médicos preceptores, que não participam do protesto. A direção afirmou que faria um balanço mais preciso após avaliação interna dos serviços.
Os residentes indicaram que a paralisação é por tempo indeterminado e deve continuar até que haja respostas concretas sobre recomposição de equipes e regularização de contratos. O Simers informou que já mantém cerca de 190 ações judiciais relacionadas ao hospital e não descarta novas medidas, além de buscar apoio do Ministério Público e do Ministério da Saúde. Para Matias, a mobilização expõe um problema estrutural. “O que eles pedem é o básico para formar médicos e atender pacientes. Sem isso, a residência vira mão de obra, não ensino.”

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