Um filhote de ave chega ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) de Santa Maria dentro de uma caixa improvisada. Ele foi encontrado por um morador após um ataque de gato e encaminhado para atendimento. A partir desse momento, o animal passa a integrar um fluxo técnico de identificação, avaliação e reabilitação que vai determinar se ele poderá retornar à natureza ou se terá outra destinação prevista em norma ambiental.
Inaugurado em 16 de dezembro, o Cetas Santa Maria é resultado de uma parceria entre o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Criada para atender uma demanda histórica do Interior do Rio Grande do Sul, a unidade busca reduzir o tempo de deslocamento de animais resgatados ou apreendidos, aumentar as chances de sobrevivência e fortalecer o enfrentamento ao tráfico de fauna. Desde o início das atividades, ao menos 20 animais já foram recebidos pelo centro.
Segundo o analista ambiental Leonardo Barbosa Benites, chefe do Cetas Santa Maria, os animais podem chegar por diferentes vias: apreensões em ações de fiscalização, entregas voluntárias da população ou resgates realizados por órgãos ambientais e forças de segurança. “Todos os animais passam por identificação, avaliação clínica, marcação e registro em sistema. Depois disso, há um período de quarentena antes do encaminhamento aos recintos adequados”, explica.
A reabilitação não segue um prazo fixo. O tempo de permanência varia conforme a espécie, o estágio de desenvolvimento e as condições clínicas de cada animal. “O ideal é que ele permaneça o menor tempo possível no centro, desde que esteja apto à soltura. Quanto mais tempo em cativeiro, mais difícil é a recuperação do comportamento natural”, afirma Benites. Quando a devolução à natureza não é viável, a destinação ocorre para mantenedores ou estruturas legalizadas, conforme critérios técnicos.
Resgates predominam; localização estratégica reforça combate ao tráfico
Neste início de operação, a maior parte dos atendimentos do Cetas Santa Maria envolve animais resgatados após acidentes. Atropelamentos, quedas e ataques de cães e gatos domésticos concentram a maioria dos casos. “São animais que geralmente chegam debilitados e feridos”, relata o chefe da unidade.
Os casos relacionados ao tráfico de animais silvestres também aparecem na rotina do centro, ainda que em menor número. Embora o Cetas não atue diretamente na fiscalização, recebe os efeitos desse tipo de crime ambiental. “Muitos animais chegam mutilados, após períodos de confinamento e manejo inadequado”, diz Benites. Um padrão recorrente envolve aves retiradas da natureza e anilhadas à força na fase adulta para simular origem legal, prática que deixa marcas visíveis.
A escolha de Santa Maria para sediar o Cetas está diretamente ligada a esse contexto. O município ocupa posição central no Estado, com acesso facilitado por rodovias e aeroporto, além de proximidade relativa com as fronteiras do Uruguai e da Argentina. O Rio Grande do Sul integra rotas de tráfico que conectam o Brasil a países do Mercosul, com destaque para os eixos Uruguaiana–Argentina e Jaguarão–Uruguai.
Antes da inauguração da unidade, animais apreendidos no Interior precisavam ser encaminhados, em muitos casos, para Porto Alegre ou para estruturas autorizadas mais distantes. Isso ampliava o tempo de transporte, elevava custos e aumentava o estresse dos animais. Com o novo centro, a expectativa é reduzir esses gargalos logísticos e agilizar o atendimento.
Com capacidade inicial para cerca de 100 animais, o Cetas Santa Maria divide a demanda com o de Porto Alegre e, em situações específicas, com centros de outros estados. Até o momento, não há risco iminente de sobrecarga, mas eventos excepcionais - como grandes apreensões ou desastres ambientais - podem, eventualmente, pressionar a estrutura. O principal desafio atual, segundo Benites, é a limitação de recursos humanos, característica comum a unidades recém-inauguradas. A expectativa é de reforço gradual da equipe nos próximos períodos.
A parceria com a UFSM, por sua vez, amplia o suporte técnico e científico ao trabalho do centro, com potencial para fortalecer atividades de pesquisa, ensino e extensão voltadas à conservação da fauna. Quando a reintrodução é possível, os animais são devolvidos ao ambiente natural, contribuindo para a preservação das espécies e para a manutenção do equilíbrio ecológico no Rio Grande do Sul, conforme o analista ambiental.