Porto Alegre,

Publicada em 19 de Janeiro de 2026 às 17:37

Inadimplência em Lajeado atingiu marca histórica em 2025

CDL aponta que 21.238 moradores do município encerraram o ano passado com algum tipo de restrição de crédito

CDL aponta que 21.238 moradores do município encerraram o ano passado com algum tipo de restrição de crédito

Fernando Frazão/Agência Brasil/Cidades
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Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
A inadimplência no comércio de Lajeado, no Vale do Taquari, encerrou 2025 acima de 32% e consolidou o pior desempenho da série histórica do município, iniciada em 2018. Após atingir o recorde de 32,4% em novembro, o índice até recuou levemente em dezembro, para 32,1%, mas permaneceu 2,4 pontos percentuais acima do registrado um ano antes, refletindo um cenário ainda pressionado para famílias e lojistas.
A inadimplência no comércio de Lajeado, no Vale do Taquari, encerrou 2025 acima de 32% e consolidou o pior desempenho da série histórica do município, iniciada em 2018. Após atingir o recorde de 32,4% em novembro, o índice até recuou levemente em dezembro, para 32,1%, mas permaneceu 2,4 pontos percentuais acima do registrado um ano antes, refletindo um cenário ainda pressionado para famílias e lojistas.
Os dados da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Lajeado, obtidos em parceria com a CDL Porto Alegre e a Equifax Boa Vista, mostram que 21.238 moradores do município, que tem população estimada em 96.879 habitantes, encerraram o ano com algum tipo de restrição de crédito - seja por atraso em pagamentos, cheques sem fundo ou títulos protestados. Ao longo de 2025, a inadimplência avançou de forma quase contínua, saindo de 30,3% em janeiro para ultrapassar a marca dos 32% no último trimestre.
A queda observada em dezembro, segundo a entidade, está associada ao uso do 13º salário para a quitação ou reorganização de dívidas. Ainda assim, o cenário segue considerado delicado. “Fechamos o ano acima de 32%, apesar de uma pequena redução no último mês. Essa melhora pontual não muda o fato de que estamos em um patamar bastante elevado”, avalia a gerente da Equifax na CDL Lajeado, Bárbara Hübner.
Na leitura da entidade, os números refletem uma combinação de fatores estruturais. A falta de planejamento financeiro aparece como um dos principais pontos, somada a imprevistos como problemas de saúde e desemprego. Além disso, o ambiente macroeconômico segue pressionando o orçamento das famílias. Por fim, com a taxa básica de juros mantida em 15% ao ano, o custo do crédito permanece elevado, especialmente em modalidades como cartão de crédito e consignado privado.
O perfil dos inadimplentes ajuda a entender a dimensão do problema. Em Lajeado, a maior parte das restrições está concentrada entre homens de 30 a 34 anos, com renda mensal entre R$ 1.401 e R$ 3 mil - faixa que responde por quase 75% dos casos. Para o comércio, esse recorte é especialmente sensível, por se tratar de um público ativo no consumo cotidiano. “Quando o lojista identifica clientes dentro desse perfil, é possível ter um cuidado maior na liberação de crédito, ajustando prazos e valores”, explica Bárbara.
No dia a dia das lojas, o impacto tem sido direto. Dono de duas lojas de vestuário e calçados em Lajeado, o empresário Heinz Rockenbach afirma que a inadimplência nunca foi tão alta em seus 35 anos de atuação no varejo. “Hoje estamos com algo entre 24% e 25% de inadimplência. Não chega aos 32%, mas já é um número muito elevado para quem trabalha com crediário próprio”, relata.
Segundo ele, o problema se manifesta principalmente no atraso das parcelas e no aumento dos pedidos de renegociação. A situação, conta, vem se agravando desde a enchente histórica de de 2024, que atingiu parte da cidade e desorganizou o orçamento de muitas famílias. “Muita gente precisou reconstruir casa, comprar móveis de novo, refazer a vida. Isso gerou despesas fora do planejamento e impactou diretamente o consumo”, afirma.
Diante desse cenário, a estratégia de venda precisou mudar; e parcelamentos mais longos ficaram no passado. “Antes a gente vendia em 10, 12 vezes. Hoje, no máximo, seis parcelas. Sabemos que isso reduz as vendas, mas não adianta vender e não receber”, diz o empresário. Para ele, 2025 foi, sem exagero, o pior ano já vivido pelo setor. “Foi o pior. Sem dúvida nenhuma.”
No contexto estadual, o comportamento da inadimplência seguiu trajetória semelhante. O índice no Rio Grande do Sul chegou a 36% em novembro e fechou dezembro em 35,8%, com alta acumulada de 3,2 pontos percentuais em um ano. Em Lajeado, embora os números sejam menores, a tendência preocupa pelo ritmo de crescimento e pela consolidação de 2025 como o ano com a maior taxa média da série histórica.
Para 2026, a expectativa da CDL é de cautela. A entidade afirma que seguirá orientando os associados a reforçar a análise de crédito, investir em cobrança preventiva e registrar débitos nos bancos de dados, como forma de reduzir riscos e recuperar valores. Ainda assim, o ambiente segue desafiador. “Nossa expectativa é sempre de redução, mas os juros altos continuam sendo um fator de preocupação e podem manter a inadimplência em patamares elevados”, resume Bárbara.
Em paralelo, no comércio, a sensação é de resistência. “Está muito difícil trabalhar. O consumo caiu, a inadimplência aumentou e a gente precisa se reinventar todos os dias”, afirma Heinz. “Seguimos em frente, mas ainda não dá para enxergar claramente a luz no fim do túnel.”

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