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Um herói humano, demasiadamente humano
A imagem do libertador do Brasil é controversa, o que o torna uma figura histórica ainda mais fascinante. Herói imponente, corajoso, em vestes militares empunhando a espada e gritando a liberdade de um povo no lombo de um cavalo ou um beberrão, amante das mulheres, adúltero, que abandonou a esposa e teria, inclusive, a agredido quando grávida, fazendo-a perder o bebê. Dom Pedro pode ter sido um, e também pode ter sido o outro. De fato, foi um e foi o outro. Era humano, e jovem, muito jovem.
Tinha apenas 23 anos quando declarou a independência brasileira. Era um poeta modesto, mas um músico talentoso. No dia a dia, era comum receber visitas com vestes simples, como chinelos e chapéu de palha. Ativo em seus afazeres, gostava de estar à parte de todas questões relativas à corte, vistoriando navios, fiscalizando o comércio, cobrando de seus ministros soluções para os problemas. Bom cavaleiro, gostava de realizar passeios à galope sozinho – o que teria lhe causado 36 quedas - e cultivava um especial prazer em utilizar seu poder. “Possuía o gosto, a volúpia do mando”, escrevera Octávio Tarquínio de Souza, seu biógrafo. “Nascera para ser chefe, para governar, para ser obedecido”, completa.
A vida no Rio de Janeiro também lhe ensinou as malandragens cariocas. Genioso, gostava de jogar e se sentia bem convivendo com súditos de classes mais baixas, como seus criados, com os quais aprendia o vocabulário popularesco da corte. Segundo consta, Dom Pedro I não bebia bebidas alcóolicas, mas, definitivamente, não dispensava uma boa farra madrugada adentro. E era nessas farras que ele – tanto como príncipe quanto como imperador – não perdia a oportunidade de se atirar aos braços de mulheres, muitas delas. Pedro era um frequentador assíduo dos inferninhos cariocas, muitos deles de propriedade de seu alcoviteiro e amigo próximo Francisco Gomes da Silva, o Chalaça.
As aventuras sexuais renderam à Pedro, além dos oito filhos oriundos dos dois casamentos – sete com a imperatriz Leopoldina e um com a imperatriz Amélia – foram muitos os outros descendentes da lascívia do imperador. Conforme Tarquínio de Souza, Pedro teve 18 filhos. Laurentino Gomes aponta que, em um período de menos de um ano, entre novembro de 1823 e agosto de 1824, foram três filhos, cada um com uma mulher diferente: um com Maria Benedita de Castro Canto e Melo, o outro com a irmã dela e sua famosa amante Domitila de Castro Canto e Melo e um com sua esposa, a imperatriz Leopoldina.
As traições, em especial a mais famosa, com Domitila, a quem concedeu o título de Marquesa de Santos, acabaram por minar o casamento com Leopoldina, causando na imperatriz profunda tristeza até sua morte, em dezembro de 1826. O imperador foi considerado culpado pela morte da esposa, muito querida pela população.
O ano de 1826 marcou também um curto período em que foi rei de Portugal, após a morte de seu pai, Dom João VI em 10 de março de 1826. Rapidamente, já em 2 de maio, Pedro abdicou da coroa portuguesa em favor de sua filha mais velha, Dona Maria da Glória.
O imperador voltou a casar-se em agosto de 1829 com a princesa Amélia de Leuchtenberg. Na época, Pedro tinha 30 anos enquanto Amélia tinha 17.
A carta de abdicação do imperador ao trono brasileiro (Reprodução/JC)
As disputas pela sucessão do trono português, usurpado por seu irmão Miguel, somadas às instabilidades políticas do governo no Brasil, fizeram o imperador abdicar do trono brasileiro em 7 de abril de 1831 por meio de uma carta:
"Usando do direito que a Constituição me concede, declaro que hei muito voluntariamente abdicado na pessoa de meu muito amado, e prezado filho o Sr. D. Pedro de Alcantara."
As lutas nos campos de batalha durante a guerra civil portuguesa - Pedro participou ativamente da guerra, estando - acabaram por agravar um quadro de tuberculose que o levou à morte no dia 24 de setembro de 1834 no mesmo quarto em que nasceu, no Palácio Real de Queluz.
Seus restos mortais, posteriormente, seriam trasladados para o Brasil em 1972, junto às comemorações dos 150 anos da Independência. Seu coração, porém, ficou na cidade do Porto, a seu pedido.